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Friday, 6 June 2008

Um Livro, Um Disco, Um Filme

Entrar em cadeias faz-me sentir preso e eu prezo a minha liberdade, mas em tempos a nossa amiga Rita desafiou a equipa cá da casa para uma destas actividades que acabou por não acontecer. Recentemente, nova investida aconteceu e em face do tema até acho que vale bem a pena dedicarmos um tempo das nossas vidas a eleger um livro, um disco e um filme que, de alguma forma, nos tenha marcado, ainda para mais com o aliciante de ser um português e um internacional. Falarmos sobre os nossos gostos e do que nos marcou é também uma forma de falarmos de nós próprios e de nos darmos a conhecer. Ora aqui vai:

Um Livro

Nacional: “Finisterra” de Carlos de Oliveira. Há poucos livros que tenha lido e que tenha sentido vontade de os voltar a reler no instante seguinte a os ter acabado. Mais raros são aqueles em que isso aconteceu de facto. Este foi um desses casos raros. Nem sequer consigo explicar porquê, mas a leitura deste livro de um autor português muito esquecido é de uma beleza indescritível e é pura poesia romanceada (ou romance poético, como preferirem). Não se explica, lê-se e é urgente passar por ele.

Internacional: “Narciso e Goldmundo” de Hermann Hesse. Uma busca da vida, da beleza e perfeição das coisas. Para sempre há-de ficar retida na minha memória a descrição notável da ressaca após alguém ter a noção consciente de que produziu uma obra-prima. E um confronto de personalidades, algo que já tinha sido explorado em “Ele e o Outro” (“Klein und Wagner”) de forma menos conseguida embora igualmente brilhante.

Um Disco

Nacional: “Coisas do Arco da Velha” da Banda do Casaco. Não foi algo de imediato, mas conheci este disco na altura em que saíu em 1976, e passados estes anos fui-me apercebendo de como um bando de visionários transformou e transfigurou por completo os cânones da música tradicional portuguesa, misturando um manancial de estilos da forma mais imaginativa possível. Olhando para as obras produzidas em solo luso, nada até aos dias de hoje sequer se assemelha ao que a Banda do Casaco conseguiu na época em que reinaram. E pensar que eram conotados como reaccionários de direita é a prova acabada da imbecilidade e provincianismo que, até aos dias de hoje, nos afecta de forma profunda.

Internacional: “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis. Estávamos em finais de 1974 e não é propriamente normal que um puto que tinha apenas 9 anos de idade andasse a ouvir coisas deste calibre. Acontece que o irmão de 17 anos ouvia destas coisas e era o modelo a seguir. Ao sexto disco de estúdio, os Genesis gravam a sua obra-prima, um disco ecléctico a piscar o olho à modernidade, com um forte cunho pessoal de Peter Gabriel em consequência do qual acaba por gerar tensões na banda e levar ao seu abandono do grupo no ano seguinte. Antes da despedida, o tour de apresentação do álbum ainda passou pelo Dramático de Cascais, coisa rara na altura ter bandas destas a pisar solo nacional, e é o concerto da minha vida que nunca vi (com 9 aninhos, o que é que eu estava à espera?). Durante anos este disco atormentou-me pela sua estranheza sendo uma obra singular na carreira dos Genesis. Hoje, não tenho dúvidas que o meu gosto musical foi muito influenciado por este disco (e outros também, obviamente), abrindo-me os olhos (e os ouvidos) para as manifestações mais estranhas da música.

Um Filme

Nacional: “Recordações da Casa Amarela” de João César Monteiro. Continuo a achar que é quase uma obra singular no universo cinematográfico português: bem realizada, melhor argumentada e competentemente filmada. Em vez de andarmos com acessos de intelectualismos ou banalidades telenovelescas, ou seja, o 8 e o 80, bem podiam os realizadores aprender a olhar para os clássicos e preocuparem-se em fazer apenas uma coisa: um simples filme!

Internacional: “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick. No tempo em que haviam reposições nos cinemas em Lisboa, ver este filme no grande ecrã do Apolo 70 foi uma experiência única. Uma Obra de Arte (assim mesmo, com maiúsculas)! O poder visual e musical, as valsas no espaço, o negro e o silêncio, o Homem e a Máquina, a tecnologia alienígena como instrumento do divino. Uma referência absoluta. Depois deste filme, a ficção científica nunca mais poderia ser a mesma.

Para finalizar, a todos os que resistiram a ler isto até aqui, levam com a maldição de fazerem o mesmo no vosso blogue, sabendo de antemão que se não o fizerem a vossa vida vai caír em desgraça, o Sócrates nunca mais vai saír do governo, os combustíveis irão subir mais 500%, o Santana Lopes é nomeado presidente do PSD porque a Manuela Ferreira Leite vai aceitar um cargo de Provedora dos políticos da 3ª idade, e o país irá mergulhar numa depressão profunda que o vai fazer desligar para sempre do futebol. Por isso, vejam lá o que fazem, está bem?

Thursday, 19 April 2007

Coisas do Arco da Velha (#1)


Mais um título emprestado, desta vez a um dos mais importantes grupos musicais que alguma vez apareceram em Portugal: refiro-me à Banda do Casaco. Com o intuito de puxar um pouco pelas memórias, irei abrir esta rubrica precisamente com a Banda do Casaco, agradecendo assim, em forma de homenagem, o uso do título do seu segundo disco retirando da Arca escondida das Memórias coisas que são, também, do Arco da Velha.

A Banda do Casaco resulta da reunião entre António Pinho, membro fundador da Filarmónica Fraude, e Nuno Rodrigues, a que se juntam Celso de Carvalho e, mais tarde, António Pinheiro da Silva. No entanto, na formação da Banda do Casaco encontramos um leque variado de músicos, que ora vêm ora vão, de uma qualidade excepcional. Destacam-se, de entre outros, Carlos Zíngaro, Armindo Neves, Mena Amaro, Né Ladeiras, Rão Kyao, Gabriela Schaff e Jerry Marotta (na altura, baterista da formação que acompanhava Peter Gabriel, em estúdio e em palco). A Banda do Casaco prima por um certo eclectismo musical, que ora tinha raízes no folclore, ora era pop, ou rock, ou experimental, ou sei lá que mais... A mistura era, no entanto, tudo menos inconsequente ou desajustada. Aliada à primorosa estrutura musical haviam as palavras de António Pinho, que deambulavam por paisagens bem portuguesas regadas com uma dose muito forte de ironia e algum surrealismo. O retrato de Portugal era por vezes amargo e triste, e apesar de terem a sua obra editada no pós 25 de Abril não impediu que, de certa forma, tenham visto a sua mensagem calada. Na realidade, mais um caso de incompreensão generalizada, matizada pelas vistas curtas de uma certa inteligentzia nacional, intelectualóide e bacoca. A situação mais gritante ocorre com aquele que é considerado por muitos uma das obras-primas da música portuguesa “Hoje há Conquilhas Amanhã não Sabemos”. Recuperado dos escombros (se assim podemos dizer) em 2006, é significativa a mensagem que encontramos no interior da re-edição em CD escrita por Nuno Rodrigues: “Que obscura guia de marcha terá tido o Património Cultural de empresas intervencionadas pelo estado e administradas por heróicos militares após o 25 de Abril?”. De facto, como é possível que as masters originais desta obra tenham, pura e simplesmente, desaparecido? Acto exemplificativo de um Fahrenheit 451, obra homónima de Ray Bradbury, cuja leitura aconselho, e que foi transposta para o cinema por François Truffaut.


Por ocasião dessa re-edição, António Pinho e Nuno Rodrigues deram uma entrevista ao Nuno Galopim no suplemento 6ª do DN de 1 de Dezembro de 2006, de que vale a pena transcrever a seguinte passagem:

NG – E com os músicos da época, como se relacionavam?

NR – Relativamente mal, porque não nos percebiam. Lembro-me de um concerto em 1977, na Aula Magna...
AP – Precisamente onde mostrámos o Hoje Há Conquilhas...
NR – Era um concerto com a Brigada Vítor Jara, os Trovante e nós. Foi uma noite escaldante... A Né Ladeiras, que estava na Brigada Vítor Jara (e veio depois para a Banda do Casaco), veio dizer-nos que parte da sala estava inflamada porque corria o boato que nós tínhamos acabado de chegar de Londres para gravar o hino do MIRN. Enviámos para o palco, primeiro, o Carlos Barreto. Pedimos-lhe que tocasse com o contrabaixo uma improvisação de uns dez minutos até toda a gente estar perfeitamente enraivecida.
AP – Não estávamos a fechar o espectáculo porque a organização achava que éramos os mais famosos. Eles prepararam o grande prato final que era o vamos massacrar estes tipos! Atirámos o Carlos Barreto. Estávamos todos nervosos porque era um apupo contínuo... A história está muito bem relatada no livro de memórias do Manuel Faria, dos Trovante. Aquilo era um urro tremendo. E fiz, à saloia, aquilo que, hoje, o cantor mais pimba faz num arraial popular: dirigi os apupos. Esquerda, direita, e de repente deixaram-se comandar...
NR – Começámos, depois, a tocar o Romance de Branca Flor, que começa connosco a bater palmas nas pernas... E alguém, na plateia, diz: “as palmas, seus fascistas, também são folclore?”... e o António salta para uma mesa e responde: “depende de quem as bate!”...
AP – Aquilo acalmou e começaram a gostar... Mas havia essa discussão estéril do se é ou não folclore... E perguntei se um penico de barro feito por um artesão do Minho é ou não folclore... Alguém responde que é. E eu respondo: “é, uma merda!”. Descambou... E no fim, quando terminámos, queriam mais. Dissemos que não sabíamos tocar mais nada e que, então, fizessem como no Quando o Telefone Toca. Fizeram pedidos, e nós repetimos... Foi uma coisa de loucos!

Loucos? É o mínimo que se pode dizer... De facto, foram tempos muito confusos, mas também devem ter sido, ao mesmo tempo, muito estimulantes.

Ainda falta uma edição integral da obra da Banda do Casaco em CD. Esperemos que a iniciativa da Companhia Nacional de Música nos possa vir a devolver estas pérolas:

1975 – Dos Benefícios de um Vendido no Reino dos Bonifácios
1976 – Coisas do Arco da Velha
1977 – Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos
1978 – Contos da Barbearia
1980 – No Jardim da Celeste
1982 – Também Eu
1984 – Com Ti Chitas

E assim, para terminar, fica em audição o tema “É Triste Não Saber Ler” do disco de 1976, bem demonstrativo do porquê deste grupo merecer um lugar destacado na história da música.