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Friday, 22 January 2010

O Pai do Outro Gaulês


O início deste ano tem sido fértil em notícias funestas. Desta vez calhou a mais um nome da BD franco-belga, de seu nome Jacques Martin. Criador do gaulês Alix, personagem que deambulava pelo Império Romano, mas que ao contrário dos intrépidos gauleses da zona da Normandia, não distribuía bordoada pelos legionários nem tinha poção mágica. Tinha sim, por companhia, o jovem egípcio Enak nas suas aventuras. As aventuras de Alix iniciaram-se em 1965, com o álbum “Alix, o Intrépido”, e foram objecto de publicação na revista Tintin. Outra sua criação era o jornalista Guy Lefranc, esse já habitante do século XX. Jacques Martin, que foi um herdeiro da dita linha clara de Hergé e de Edgar Pierre Jacobs (criador da dupla Blake e Mortimer), deixou uma mão cheia de obras que, para além do carácter lúdico, tinham o condão de nos irem ensinando uns quantos factos históricos.


Monday, 4 January 2010

Farewell, Farewell

É a dobrar, porque o ano ainda mal começou e já duas almas deixaram a nossa companhia.

Soube-se hoje nos meios de comunicação social que Lhasa de Sela, a cantora de origem mexicano-americana, tinha falecido com apenas 37 anos nos primeiros instantes deste novo ano, o qual havia acabado de dar as boas vindas aos habitantes de Montreal, no Canada. O cruzamento das culturas mexicana, cigana e anglo-saxónica deu-lhe os ingredientes para construir uma curta carreira, em anos e em discos, mas rica em diversidade e originalidade. Por ser tão única, e por isso tão pessoal, é daquelas expressões musicais que não são passíveis de serem emuladas e portanto é bem possível que não seja objecto de futuras recordações. Pois aqui, como forma de não ficar esquecida, deixo-vos com o tema “De Cara a la Pared” do seu primeiro disco homónimo, Lhasa, e que ouvi pela primeira vez não sei bem há quanto tempo, mas foi muito próximo da data da sua edição.




Lhasa de Sela - “De Cara a la Pared” (Lhasa, 1998)

O segundo personagem a deixar-nos foi Tibet, o desenhador franco-belga que nasceu em 1931 em Marselha, França, como Gilbert Gascard e veio a falecer ontem, na Côte d'Azur. A sua carreira inicia-se em Bruxelas para onde foi viver aos 16 anos trabalhando nos estúdios da Disney. No entanto, é conhecido pela criação das personagens Ric Hochet e Chick Bill, duas séries que fizeram as delícias dos amantes de BD na revista Tintin.

Monday, 4 May 2009

A Granja do Vasco...


… era a banda desenhada e o cinema de animação. Faleceu, hoje de madrugada, Vasco Granja. Para sempre indissociado do fenómeno da banda desenhada em Portugal, creio que há uma certa geração de portugueses, onde me incluo, que via a sua presença tutelar na televisão onde divulgava as mais variadas cinematografias de animação, em especial as da Europa de Leste. Com ele descobri um certo vanguardismo na animação, e uma adoração especial pela obra de Norman McLaren. Vasco Granja foi também, desde o seu início em 1968, director da revista Tintim publicada pela Bertrand e que sobreviveu até aos anos 80 (não me lembro exactamente até quando). A cultura e a divulgação da banda desenhada deve imenso a este homem que nos deixou com um sentido de dever cumprido (digo eu!).

Monday, 12 January 2009

Que o Céu Não Nos Caia em Cima da Cabeça



Foi em 1959 que apareceu a primeira aventura de Asterix, Astérix, Le Gaulois, editado pela Dargaud. Fará 50 anos a 29 de Outubro, quando em 1959 foi iniciada a sua publicação na revista Pilote, que duraria até 14 de Julho de 1960. O álbum conheceria a luz do dia em 1961. Personagem criada pela dupla René Goscinny (textos) e Albert Uderzo (desenhos) foi das mais famosas e hilariantes no seio da BD franco-belga. O humor mordaz de Goscinny aliado ao traço bonacheirão de Uderzo fizeram de Asterix uma referência para toda uma geração que cresceu a ler as suas histórias, que para além de nos irem ensinando alguma História, tinham a característica de brincarem com a identidade europeia e as idiossincrasias dos povos a que não eram estranhas algumas referências à actualidade geopolítica. A morte de Goscinny em 1977 deixou Asterix órfão de metade da criatividade. Albert Uderzo continuou a série até aos dias de hoje, mas a pujança e originalidade da série ficaram para sempre amputadas e mancas, sendo Astérix chez les Belges a última contribuição de Goscinny, publicado já postumamente em 1979.


Thursday, 20 March 2008

Viva a Primavera

Pois é! A Primavera é uma estação de renascimento e convite ao enamoramento. Para celebrar a efeméride, junto a capa de um delicioso livro de Michel Bridenne, que recebeu na devida altura a edição em Portugal pela extinta Meribérica/Liber. Cheio de um humor se(x/ns)ual à medida da ilustração da capa, protagonizado por animais com os quais sentimos uma cumplicidade imediata, é um dos melhores momentos de boa disposição que a BD produziu nos últimos anos. De salientar o prefácio de Soulas onde, a porpósito da pouca importância que os autores de BD têm, afirma: “Quanto melhor conhecemos as pessoas pseudo-importantes, tanto mais gostamos dos animais... de Bridenne, claro”.

Michel Bridenne – Fièvre de Printemps, Ed. Glénat, 1993

Boa Primavera!

Thursday, 31 May 2007

Voltar ao Trabalho


Agora, mãos à obra, e que melhor imagem senão esta fotografia de uma carruagem das linhas ferroviárias de Manchester, onde possivelmente parte dos passageiros se desloca para o seu local de trabalho. O exterior da carruagem encontra-se decorado com o traço de Jamie Hewlett, desenhador e designer que “concebeu” os elementos da banda Gorillaz. Depois de Tank Girl e da música, Hewlett chega aos transportes públicos.

Foto: Alessia Pierdomenico/Reuters obtida no site do Público.pt.

Tuesday, 22 May 2007

Hugo Pratt



O nome de Hugo Pratt diz certamente menos à maioria das pessoas que o da sua criação artística maior: Corto Maltese. Mas este texto pretende, acima de tudo, falar mais do homem e menos da obra, a pretexto de um livro que já saíu em finais de 2005 sob o título “O Desejo de Ser Inútil” e que li com um prazer imenso nas férias de 2006. É uma autobiografia, em estilo de entrevista, conduzida por Dominique Petitfaux que passa em revista a vida e a obra de Hugo Pratt. Nele encontramos o homem fascinado pelas viagens, os livros de aventuras, o esoterismo, a Veneza da sua infância, a Cabala e o judaísmo e, claro, as suas belas mulheres. Aqui se alicerça muito da sua obra gráfica, em especial nos livros de Corto Maltese, cujo espírito livre e aventureiro não poderia ser melhor alter-ego para a personalidade de Pratt. O próprio Pratt foi um viajante compulsivo, peregrino de mitos e lugares espalhados pelo Mundo fora, construindo assim parte da matéria prima com que alimentava os livros de aventuras que desenhava e publicava. As suas visões de adolescente na Itália fascista não deixam de ser curiosas, e até surpreendentes atendendo ao sentimento solidário entre todos os seus amigos venezianos (e restantes habitantes de Veneza, supõe-se). Por isso, era comum haver uma amizade cúmplice entre pessoas entricheiradas em lados diferentes da barricada. A passagem pela Eritreia é bastante marcante já que é aí que o seu pai, militar italiano deslocado durante a guerra, acaba por morrer. É igualmente visível o sentimento orgulhoso de uma ascendência que provém dos lugares mais diversos (Irlanda, França e Itália, com uma costela judaica). Aliás, Hugo Pratt fez jus a essa tradição deixando filhos pelo Mundo como na Argentina ou Brasil (um deles numa tribo índia da Amazónia). No fim, nota-se a autoridade de um homem que viveu mais que muitos de nós algumas vez conseguiremos viver.


A segunda parte do livro debruça-se sobre a obra nas diferentes vertentes. Um espelho da sua vida e dos seus próprios interesses, fascinado pela beleza feminina, é um belíssimo retrato que nos permite compreender também a pessoa que está para além da sua obra. De autor anónimo até ao reconhecimento internacional a grande escala, o percurso foi lento mas seguro, mantendo Pratt a sua independência para com os meios culturais e intelectuais onde se movia. No final, uma adenda à que foi a segunda edição deste livro, dando conta dos últimos dias de Hugo Pratt até à data de 20 de Agosto de 1995, quando faleceu. As ilustrações que acompanham o livro são um precioso complemento à leitura e muitas vezes uma extensão necessária para acompanhar o texto escrito. Finalmente, ainda somos presenteados com um conjunto de aguarelas inéditas. Um livro a não perder, quanto mais não seja por nos mostrar como a inutilidade de certas coisas se torna tão útil nas nossas vidas.

Hugo Pratt - O Desejo de Ser Inútil
Dominique Petitfaux
Relógio D’Água, 2005