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Thursday, 5 November 2009

No Tempo da X

Os ecos do desaparecimento do António Sérgio ainda reverberam pela internet inteira, e demonstram a imensa minoria de amigos e seguidores que o Mestre transportava consigo. As minhas memórias dos programas do António Sérgio são muitas e dispersas. Às tantas, já nem sei se a banda A ou o grupo B me foi revelado durante a audição de um seu programa ou se por um amigo que ouviu o seu programa. Isso não é muito importante. No entanto, do tempo em que esteve na XFM, houve uma música que passava com uma recorrência assinalável e que prendeu a minha atenção imediata. Tratava-se dos The Young Gods e a canção era "Lointaine", uma da duas cantadas em francês no álbum Only Heaven.


Para ouvir a canção completa, carregar em "Play full song here" ou no link acima.

Sunday, 1 November 2009

Bateu a Última Hora do Lobo


Não sei se o facto de ser véspera de finados é alguma última ironia de António Sérgio para connosco, em que António Sérgio surge novamente aos microfones da rádio e nos revela a partida que nos pregou. Quem me dera que fosse. Lembro-me também do dia da morte desse grande actor que foi Mário Viegas, a 1 de Abril, e alguém comentar que não tinha acontecido, que tinha sido apenas uma partida do Mário. No dia 1 de Abril, só podia ser. Com o António Sérgio não desaparece apenas o Homem, desparece o divulgador de música como já não se encontram nos dias de hoje, desparece o radialista cuja tradição de fazer rádio pelo que ela representa ou está fora de moda ou está fora das linhas editoriais das rádios, desaparece o efeito surpresa com que nos brindava ao passar música. Homem de gostos eclécticos que nos sabia mostrar a essência do rock, dos seus primórdios aos dias de hoje, foi uma companhia habitual desde o “Som da Frente” até ao “Grande Delta” na extinta XFM. Vim a reencontrá-lo na rádio Radar, que em boa hora o recuperou e salvou do gueto a que estava confinado na Comercial. Obrigado António Sérgio. Não há sequer palavras suficientes para expressar a minha gratidão e a de muita gente que contigo cresceu. Só por isso, nos devemos sentir privilegiados.

Monday, 1 October 2007

Espanta-Espíritos*

A propósito dos comentários aos resultados das votações da segunda série de álbuns de família da rádio Radar, veio à baila a indiferença para com o disco dos Spiritualized, lançada ironicamente pelo Prometeu, em cujo blog podem apreciar alguns momentos musicais da banda. A propósito disso dei comigo a pensar até que ponto um programa de divulgação como é o “Álbum de Família” tem efectivamente esse papel. Normalmente ouço sempre o programa, quando me é possível, e tomo-o como uma oportunidade para conhecer muito do que não conheço, mas dou comigo a cogitar que o comum dos mortais normalmente só parece dar atenção ao que já conhece e até está pouco receptivo à novidade do que foi feito no passado (basta analisar os resultados das votações). No lote de discos que passaram na primeira série, lembro de ter pegado em grupos como os Go-Betweens, os Depeche Mode ou os My Bloody Valentine e ser levado a descobri-los ou simplesmente redescobri-los. O caso dos Depeche Mode foi claramente uma redescoberta já que os conhecia, e até muito bem, do seu primeiro disco. O suficiente para os arrumar de lado e não lhes ligar pêva daí para a frente. Os outros eram somente referências dispersas.


Os Spiritualized foram, para mim, uns ilustres desconhecidos até que por circunstâncias retorcidas me vêm parar aos ouvidos. Já aqui referi que em 1998 vi o Balanescu Quartet ao vivo, e o impacto dessa actuação foi tão forte que andei uns tempos à procura dos seus discos (coisa difícil na pasmaceira nacional) . Ao fim de um tempo lá consegui uma cópia do “Luminitza”. Como estavam integrados no lote de convidados que antecederam a actuação de David Byrne (embora tenham sido os meus verdadeiros cabeça-de-cartaz), não me foi muito difícil encontrar o disco de Byrne onde o quarteto colaborava. E vai daí, de procura em procura, dou com outra das suas colaborações: “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space” dos Spiritualized. Ora acontece que obras que me cativam imediatamente da primeira à última nota acabam por predurar na minha adoração durante anos e até agora nenhuma deixou ainda de me encantar. Ainda não há muito tempo, no blog do Puto, dei com uma referência a outros ilustres desconhecidos denominados Swell, que no mesmo ano de 1997 editam um disco de seu nome “Too Many Days Without Thinking”. A espantosa música “Sunshine Everyday” era uma vaga memória sem referência temporal, mas não conseguia fazer qualquer associação com o nome da banda que me dizia tanto quanto o nome do primo afastado do fulano que mora três quarteirões abaixo da minha casa. Depois de ter arranjado recentemente um exemplar do disco afirmo que, não tendo tido um impacto imediato, me rendo à obra extraordinariamente consistente que é, daquelas que sucessivas audições atentas nos levam a gostar cada vez mais do disco. Esta é, também, uma característica rara nos dias de hoje, onde a música se consome com a rapidez com que se fuma um cigarro. Assim, o ano de 1997 que ficou na memória de muitos como o ano de “OK Computer” dos Radiohead (eu incluido), assistiu à nascença de outras obras, mais ou menos esquecidas, das que mostram a necessidade de um bom serviço público de divulgação de música.

E para finalizar, fica em exposição lateral uma peça desse disco espantoso que é “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space”: “Broken Heart” toca profundamente no nosso íntimo e os arranjos de cordas são da autoria de J. Spaceman, o nome por detrás dos Spiritualized, e Clare Connors, do Balanescu Quartet.

Though I have a broken heart
I'm too busy to be heartbroken
There's a lot of things that need to be done
Lord I have a broken heart


*Espanta-Espíritos é, ao mesmo tempo, uma referência ao nome dos Spiritualized e uma homenagem a António Sérgio, já que representa o nome de uma rubrica do seu programa “Grande Delta” emitido na extinta XFM. E porque é de pessoas como o António Sérgio que necessitamos para nos fazerem descobrir precisamente o que nem fazemos sequer ideia que existe. Quanto aos que acham que António Sérgio é dispensável, o tempo encarregar-se-á de os enterrar nos confins do esquecimento colectivo, pois só perdura na memória quem alimenta os espíritos famintos dos nossos sentidos.