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Tuesday, 24 February 2009

Coisas do Arco da Velha (#6)


“Home Taping is Killing Music” era a mensagem que por vezes se encontrava nas capas interiores em papel (enventualmente forradas a plástico por dentro) dos discos de vinilo importados de Inglaterra. O logotipo, com uma cassete e dois ossos cruzados, cita não só a simbologia pirata mas também a morte e constitui um sinal dos tempos em que, tal como hoje, se copiava a música. Mas as diferenças eram muitas, para não dizer substanciais. Estas diferenças podem resumir-se a dois aspectos fundamentais: o formato de cópia e respectivo suporte que não era de todo portátil e a inexistência de redes de partilha que não fossem para além do grupo de amigos do bairro. Assim, havia pelo menos alguém que comprava o disco e que se dispunha a emprestar aos outros para o poderem gravar. E os outros eram um grupo de dois ou três (uma dezena eventualmente) de amigos, que o faziam numa atitude comunitária de partilha, ou seja, eu gasto os meus cobres nestes discos, tu gastas naqueles, e depois trocamos. Havia um genuino prazer de ouvir a música, e houvesse dinheiro nos bolsos para a comprar, ninguém na realidade trocava o vinilo pela fita da cassete que enrolava, ficava gasta, degradava rapidamente e tinha uma qualidade sonora que deixava, e muito, a desejar. Hoje, a internet e a produção musical em formato digital alterou por completo este padrão (de consumo e de atitude) e fez com que este aviso pareça estranhamente obsoleto e exageradamente alarmista à época, fruto de uma indústria que, na altura tal como hoje, conviveu mal com o mercado que quis sempre controlar à força, incapaz de ter visão e prever o alcance e dimensão que o problema tem nos dias de hoje quando os primeiros CDs chegaram ao mercado. Aliás, foi precisamente nesta altura em que a ganância das editoras chegou ao seu grau superlativo quando pairou no ar a morte anunciada do vinilo promovendo assim junto das classes com maior poder de compra a substituição maciça dos seus discos antigos por CD. Um erro crasso de onde todos sairam a perder e mais um exemplo de falta de visão cuja melhor elegia foi escrita por José Vitor Henriques ao afirmar “que o vinilo se vestiu de preto para assistir ao enterro do CD”, e eu acrescento, “...ingloriamente assassinado pelo mp3”. A cópia e distribuição de música tornou-se de tal forma facilitada e generalizada que o seu consumo deixou de ser feito com prazer e reflexão, para passar a ser voraz e urgente, como quem consome compulsivamente e de forma doentia numa sociedade inundada de produtos e informação. A questão já não é ter os discos de que se gosta, é conseguir ter o maior número de discos possíveis. Não importa sequer se temos ou não tempo para os escutar, o que importa é dizer que se ouviu ou conhece o maior número possível de bandas. Mas que outra coisa estaríamos à espera num tempo em que cada vez mais se olha sem ver e se ouve sem escutar?

Monday, 22 December 2008

Coisas do Arco da Velha (#5)

Uma breve incursão por um grupo sui generis, não só na apresentação como até na sonoridade, já que mistura de forma límpida um rock'n'roll de herança blues com o country das paisagens agrestes do Texas, conferindo-lhes um registo singular e uma identidade que não é passível de os confundir com mais ninguém. Perdi-lhes o rasto por volta dos anos 80, mas os ZZ Top ainda aí estão para as curvas, continuando a ser um trio (guitarra, baixo e bateria) firme e coeso ao fim de 40 anos de carreira (formaram-se em 1969). A imagem icónica do grupo são, sem dúvida, as longas barbas dos guitarristas Billy Gibbons e Dusty Hill, acompanhados pelo baterista Frank Beard (ironicamente, o gajo que não usa barba). O meu primeiro contacto com a sua música foi com o álbum “Tejas” (1977) e a espantosa música “El Diablo” mantém-se como uma das minhas favoritas, seguindo-se o álbum “El Loco” (1981). No entanto, em baixo fica um tema bem conhecido do álbum “Tres Hombres” (1973), porventura o seu melhor disco.



ZZ Top, “La Grange” - Tres Hombres (1973)

Wednesday, 24 September 2008

Coisas do Arco da Velha (#4)

Um objecto que suponho ser relativamente desconhecido, mas que na altura teve um certo impacto num Portugal saído da ressaca do PREC. Em Inglaterra era a ressaca do punk e a TRB haveria de ter uma curta mas muito incisiva vida com apenas dois discos editados, Power in the Darkness (1978) e TRB 2 (1979). Ainda assim, tiveram na altura o devido reconhecimento nos meios musicais. A faixa título do primeiro registo não precisa de comentários adicionais às palavras de ordem. O LP continha ainda uma conjunto de canções certeiras e bem conseguidas como "Up Against the Wall", "Too Good to be True" ou "2-4-6-8 Motorway".




Tom Robinson Band, “Power in the Darkness” - Power in the Darkness (1978)

Monday, 17 March 2008

Coisas do Arco da Velha (#3)

No regresso de uma rubrica antiga, vamos até aos anos 70. Na cena punk, de onde partem as primeiras raízes de Nina Hagen e da sua Band, há por vezes a ideia feita que para fazer música só é preciso ter algum (pouco) jeitinho e desencantar umas notas arranhadas de uns instrumentos musicais. Mas cuidado pois quando se quer fazer algo realmente sério e consequente nota-se que ter uma base musical educada e treinada por trás é não só essencial como ajuda (e muito). Deliciem-se, porque a interpretação (para já não falar da voz e de tudo o resto, incluindo o humor) é simplesmente divinal!


Naturträne - Nina Hagen Band (1978)

Friday, 11 May 2007

Coisas do Arco da Velha (#2)




Recordo os Soft Machine através de um disco, na realidade o último em estúdio editado pelo grupo: “Softs” (1976), um vinilo de capa sóbria com uma locomotiva a vapor. Deu-me um certo trabalho a encontrar uma imagem da capa original do disco que conheci (que é do meu irmão), até que me deparei com estas imagens com a informação de que se trata de uma capa alternativa da edição em Portugal de “Softs” pelo Círculo de Leitores (observe-se o CL na contracapa). Os Soft Machine formaram-se em 1966 e contavam com Robert Wyatt, Elton Dean, Mike Ratledge e Hugh Hopper na sua formação tradicional. É com esta formação que, em 1970 editam “Third”, o seu disco de referência. Cinco dos discos dos Soft Machine têm sido reeditados este ano, incluindo “Third” sendo por isso uma oportunidade para conhecer esta banda dos anos 60 e 70 fundamental para a história da música. Começaram na onda psicadélica mas rapidamente foram caír nas malhas do rock progressivo e de fusão jazz. Esta formação dos Soft Machine não sobreviveu ao tempo, com Wyatt a abandonar o grupo em 1971, o mesmo acontecendo a Dean e a Hopper. Quando chegamos a “Softs”, a banda era constituida por, além de Mike Ratledge, John Marshall, Karl Jenkins e Roy Babbington. Jenkins, o teclista da banda, foi também o responsável por grande parte das composições em “Softs”. De salientar também, dentro do jazz de fusão e na mesma altura, os Weather Report de Joe Zawinul e Waine Shorter, que contavam com o excelente baixista Jaco Pastorius. Heavy Weather é mais um disco obrigatório.


Uma breve pesquisa no You Tube permitiu-me recolher esta actuação dos Soft Machine a tocar o tema “The Tale Of Taliesin” do já mencionado “Softs”, o disco com que os descobri. O guitarrista é o John Etheridge.

Thursday, 19 April 2007

Coisas do Arco da Velha (#1)


Mais um título emprestado, desta vez a um dos mais importantes grupos musicais que alguma vez apareceram em Portugal: refiro-me à Banda do Casaco. Com o intuito de puxar um pouco pelas memórias, irei abrir esta rubrica precisamente com a Banda do Casaco, agradecendo assim, em forma de homenagem, o uso do título do seu segundo disco retirando da Arca escondida das Memórias coisas que são, também, do Arco da Velha.

A Banda do Casaco resulta da reunião entre António Pinho, membro fundador da Filarmónica Fraude, e Nuno Rodrigues, a que se juntam Celso de Carvalho e, mais tarde, António Pinheiro da Silva. No entanto, na formação da Banda do Casaco encontramos um leque variado de músicos, que ora vêm ora vão, de uma qualidade excepcional. Destacam-se, de entre outros, Carlos Zíngaro, Armindo Neves, Mena Amaro, Né Ladeiras, Rão Kyao, Gabriela Schaff e Jerry Marotta (na altura, baterista da formação que acompanhava Peter Gabriel, em estúdio e em palco). A Banda do Casaco prima por um certo eclectismo musical, que ora tinha raízes no folclore, ora era pop, ou rock, ou experimental, ou sei lá que mais... A mistura era, no entanto, tudo menos inconsequente ou desajustada. Aliada à primorosa estrutura musical haviam as palavras de António Pinho, que deambulavam por paisagens bem portuguesas regadas com uma dose muito forte de ironia e algum surrealismo. O retrato de Portugal era por vezes amargo e triste, e apesar de terem a sua obra editada no pós 25 de Abril não impediu que, de certa forma, tenham visto a sua mensagem calada. Na realidade, mais um caso de incompreensão generalizada, matizada pelas vistas curtas de uma certa inteligentzia nacional, intelectualóide e bacoca. A situação mais gritante ocorre com aquele que é considerado por muitos uma das obras-primas da música portuguesa “Hoje há Conquilhas Amanhã não Sabemos”. Recuperado dos escombros (se assim podemos dizer) em 2006, é significativa a mensagem que encontramos no interior da re-edição em CD escrita por Nuno Rodrigues: “Que obscura guia de marcha terá tido o Património Cultural de empresas intervencionadas pelo estado e administradas por heróicos militares após o 25 de Abril?”. De facto, como é possível que as masters originais desta obra tenham, pura e simplesmente, desaparecido? Acto exemplificativo de um Fahrenheit 451, obra homónima de Ray Bradbury, cuja leitura aconselho, e que foi transposta para o cinema por François Truffaut.


Por ocasião dessa re-edição, António Pinho e Nuno Rodrigues deram uma entrevista ao Nuno Galopim no suplemento 6ª do DN de 1 de Dezembro de 2006, de que vale a pena transcrever a seguinte passagem:

NG – E com os músicos da época, como se relacionavam?

NR – Relativamente mal, porque não nos percebiam. Lembro-me de um concerto em 1977, na Aula Magna...
AP – Precisamente onde mostrámos o Hoje Há Conquilhas...
NR – Era um concerto com a Brigada Vítor Jara, os Trovante e nós. Foi uma noite escaldante... A Né Ladeiras, que estava na Brigada Vítor Jara (e veio depois para a Banda do Casaco), veio dizer-nos que parte da sala estava inflamada porque corria o boato que nós tínhamos acabado de chegar de Londres para gravar o hino do MIRN. Enviámos para o palco, primeiro, o Carlos Barreto. Pedimos-lhe que tocasse com o contrabaixo uma improvisação de uns dez minutos até toda a gente estar perfeitamente enraivecida.
AP – Não estávamos a fechar o espectáculo porque a organização achava que éramos os mais famosos. Eles prepararam o grande prato final que era o vamos massacrar estes tipos! Atirámos o Carlos Barreto. Estávamos todos nervosos porque era um apupo contínuo... A história está muito bem relatada no livro de memórias do Manuel Faria, dos Trovante. Aquilo era um urro tremendo. E fiz, à saloia, aquilo que, hoje, o cantor mais pimba faz num arraial popular: dirigi os apupos. Esquerda, direita, e de repente deixaram-se comandar...
NR – Começámos, depois, a tocar o Romance de Branca Flor, que começa connosco a bater palmas nas pernas... E alguém, na plateia, diz: “as palmas, seus fascistas, também são folclore?”... e o António salta para uma mesa e responde: “depende de quem as bate!”...
AP – Aquilo acalmou e começaram a gostar... Mas havia essa discussão estéril do se é ou não folclore... E perguntei se um penico de barro feito por um artesão do Minho é ou não folclore... Alguém responde que é. E eu respondo: “é, uma merda!”. Descambou... E no fim, quando terminámos, queriam mais. Dissemos que não sabíamos tocar mais nada e que, então, fizessem como no Quando o Telefone Toca. Fizeram pedidos, e nós repetimos... Foi uma coisa de loucos!

Loucos? É o mínimo que se pode dizer... De facto, foram tempos muito confusos, mas também devem ter sido, ao mesmo tempo, muito estimulantes.

Ainda falta uma edição integral da obra da Banda do Casaco em CD. Esperemos que a iniciativa da Companhia Nacional de Música nos possa vir a devolver estas pérolas:

1975 – Dos Benefícios de um Vendido no Reino dos Bonifácios
1976 – Coisas do Arco da Velha
1977 – Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos
1978 – Contos da Barbearia
1980 – No Jardim da Celeste
1982 – Também Eu
1984 – Com Ti Chitas

E assim, para terminar, fica em audição o tema “É Triste Não Saber Ler” do disco de 1976, bem demonstrativo do porquê deste grupo merecer um lugar destacado na história da música.