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Thursday, 4 June 2009

ProgNósticos: Van der Graaf Generator


Poderíamos perguntar, nos dia de hoje, se alguém se lembra de uma banda de rock que nas vezes da guitarra nos enfiava com um saxofone nos ouvidos. A resposta, muito provavelmente, vem sob a forma de Morphine, mas acontece que os Van der Graaf Generator já tinham inventado a fórmula nos finais dos anos 60.

Os Van der Graaf Generator, geraram-se por volta de 1967 comandados por Peter Hammill e desde cedo prometem a realização de algo distinto na cena rock da época. Não são bem psicadélicos, nem progressivos, nem jazz-rock, antes têm aversão a qualquer tipo de classificação. Diga-se que, em grande parte, são mesmo difíceis de catalogar. A estreia com The Aerosol Grey Machine em 1969, sob a etiqueta Mercury, não é propriamente auspiciosa e Tony Stratton-Smith, que entretanto funda a Charisma, tenta convece-los a assinar pela sua editora. Após ultrapassar os problemas legais, editam o segundo disco com o selo da Charisma (e primeiro da editora), The Least We Can Do Is Wave To Each Other, em inícios de 1970 apesar de Peter Hammill se manter contratualmente vinculado à Mercury onde, de resto, se manteve durante a sua carreira a solo. Aliás, na carreira dos Van der Graaf Generator prevalece uma ambiguidade entre as suas próprias criações e as de Peter Hammill, sendo o grupo uma quase espécie de heterónimo de Hammill muito embora várias composições sejam assinadas pelos seus membros. Hammill deseja manter a sua indivudualidade criativa o que em certa medida condiciona a vida do grupo que se reparte basicamente por dois períodos, de 1967 – 1972 e 1975 – 1978. Ainda houve uma reunião recente, mas dessa não daremos conta aqui. A sua formação mais clássica era constituida por Peter Hammill na voz, guitarras e teclados, Hugh Banton no órgão e baixo, Guy Evans na bateria e David Jackson no saxofone. É com esta formação que editam, em 1971, aquele que é para muitos a sua obra prima, Pawn Hearts. O estilo e a marca identificadora já ali se encontram e vai condicionar os registos que haveriam de prossegir mais tarde, já que após este disco entram no primeiro hiato temporal. O registo dos Van der Graaf Generator é dominado pela voz áspera de Hammill que, contudo, oscila entre a raiva contida e a suavidade calma de um registo agudo a acusar falsete. Estes registos vocais contrastam frequentemente na sua música dando-lhes, a par com os restantes instrumentos, uma dinâmica inconfundível. O órgão desenha a música com grosos traços negros, com uma espessura de som típica como só os verdadeiros órgãos Hammond a conseguem dar, e o saxofone entra a fazer as vezes que tradicionalmente competiam às guitarras. O saxofone tem ainda a capacidade de tornar a sonoridade do grupo, a espaços, notoriamente jazzística. O grupo tem em “A Plague of Lighthouse Keepers” a primeira peça de fôlego a ocupar todo um lado do vinilo, com mais de 20 minutos. Nesta composição os elementos do grupo foram contribuindo com pequenos temas musicais, tal como os andamentos de uma peça, construindo uma das obras de arte do género. Pawn Hearts é o disco que conta ainda com a guitarra de Robert Fripp, dos King Crimson. Apesar da originalidade, ou talvez por causa dela, os Van der Graaf Generator nunca foram muito populares, contudo Pawn Hearts conseguiu a proeza de ser número 1 no top em Itália durante várias semanas, iniciando assim uma relação de amor entre os italianos e o rock progressivo como não se encontraria em mais nenhum outro país europeu.



O hiato temporal iria deixar espaço para Hammill continuar com a sua cruzada musical e angústias poéticas (um dos mais originais poetas que o rock alguma vez conheceu), a qual se reflectia por diversos géneros, e até acaba com um disco que guarda uma história importante no contexto do maior terramoto musical da década de 70: trata-se de Nadir's Big Chance, de 1975. Musicalmente cru e directo, é a primeira referência punk no Reino Unido e uma obra especialmente acarinhada por John Lydon, que haveria de fundar os Sex Pistols pouco tempo mais tarde. Hammill e os seus Van der Graaf Generator constituem uma das adorações musicais do maior ícone do punk inglês. O ano de 1975 é também o da refundação dos Van der Graaf Generator, com o disco Godbluff, seguido ainda de Still Life (1976), o disco que me levou à entrada no universo da banda, em especial com “My Room (Wainting for Wonderland)”, onde Hammill se quedava por longos momentos de introspecção que deixava pairar com a languidez da sua voz no seu registo mais suave. A discografia dos Van der Graaf Generator era difícil de obter por cá e levou-me um tempo até um dia encontrar a saudosa discoteca Dansa do Som onde pude, pela primeira vez, comprar um disco da banda: World Record (também de 1976). A estrutura destes dois discos denotava uma banda quase em piloto automático, com 3 composições de um lado do vinilo e 2 composições do outro, sendo que uma delas se esbatia na suavidade da voz de Hammill como que a pedir um porto de abrigo e um descanso à intensidade das músicas anteriores. No caso de World Record, cabia a “Wondering” essa tarefa. Mas a dinâmica musical e vocal do grupo era constante, nunca dando tréguas ao ouvinte. Desengane-se quem ache que a entrada no universo Van der Graaf Generator é simples: não só dá trabalho como ainda é exigente.

O tiro final veio com The Quiet Zone/The Pleasure Dome, um disco com dois títulos (um para cada lado do vinilo) e o nome encurtado para Van der Graaf, possui as sonoridades mais domesticadas e até é relativamente hear-friendly. Para isso terá contribuido a saída de Hugh Banton, tendo entrado Nic Potter para o baixo e ainda Graham Smith, que introduz o violino na banda. Aliás, a inclusão do violino confere vários tons ritmados em pizzicato com um sentido melódico que faz deste o “mais pop” (perdoe-se-me a heresia da observação) dos discos dos Van der Graaf Generator. Daqui em diante, apenas temos Peter Hammill em caminhada solitária, sempre dando os seus registos particulares, muito próprios e avesso a modas ou tendências, sem medo de ser crú, suave ou pomposo, pois a música serve para isso mesmo: expressar o que nos vai na alma!


PS (que isto também é um blogue de ciência): O nome Van der Graaf Generator provém de um gerador, incorrectamente escrito com um f a menos (deveria ser Graaff), que produz altas voltagens electrostáticas estáveis, podendo atingir 5 megavolts de tensão. Estes geradores são utilizados, por exemplo, para acelerar protões em instrumentos como o PIXE, que é uma espécie de microscópio e significa Emissão de raios-X Induzida por Protões (Proton Induced X-ray Emission).

Monday, 4 May 2009

ProgNósticos: Pink Floyd


Os Pink Floyd congregam em si, simultaneamente, a respeitabilidade e a aversão pura das gentes dos meios musicais. Em seu favor têm o mais que respeitável passado psicadélico sob os comandos de Syd Barrett que durou menos que um fósforo. O disco de estreia, The Piper at the Gates of Dawn, editado no ano charneira do maior terramoto musical que a música popular haveria de conhecer, em 1967, é uma das peças mais inspiradoras da música que perdurou por muitos anos tal o impacto que causou em tanta gente, e em especial num senhor de nome David Bowie. A locura de Barrett impediu a progressão natural da vida da banda, sendo mais um exemplo de alguém que convivia mal com a exposição e o sucesso (quantas vezes mais iríamos ouvir esta mesma história...), mas os factos da vida demonstram que ela é assim mesmo, e não há volta a dar-lhe. Cedo os restantes elementos recorreram a um amigo de Barrett, David Gilmour, para ir tapando os buracos nas falhas do seu líder. E a história poderia bem ter terminado por aí, e para muitos os Pink Floyd morreram pouco depois da sua nascença. A Saucerful of Secrets, de 1968, é já um disco com os quatro “membros de sempre” da banda, Roger Waters, Rick Wright, Nick Mason e David Gilmour, agarrado aos sons psicadélicos do seu mentor e ainda com um tema da sua autoria, “Jugband Blues”. É das poucas bandas, a par dos Rolling Stones, que manteve uma estabilidade notável na sua formação, o que indicia um sentido de coesão forte, e que se manifestaria também pelo mais bem sucedido casamento que existe entre uma banda e o estúdio de arte responsável pelas capas dos seus discos. A união entre os Pink Floyd e o estúdio Hipgnosis de Storm Thorgerson é tão forte que ambos se citam mutuamente na nossa cabeça. Os anos haveriam de passar para um grupo que procurava claramente uma nova identidade e caminho orientador, perdido que estava para sempre o guia espiritual, Syd Barrett. Ummagumma, de 1969, é por isso uma busca nessa demanda mas ainda agarrada às raízes fundadoras do grupo, havendo espaço para cada membro expor as suas ideias em composições que se estendiam por vários minutos e secções, algo que a pouco e pouco se foi perdendo em anos posteriores à medida que Waters se afirmava e impunha. Pelo meio, ainda houve tempo para trabalhar em bandas sonoras (More, em 1969) repescando as sonoridades psicadélicas e viagens alucinogénicas que a sua música sugeria. Atom Heart Mother, de 1970, é um tour de force falhado e um bom exemplo de como uma excelente banda com boas ideias se pode transformar numa catástrofe em potência. Felizmente, a correcção veio pouco depois no álbum que, em definitivo, relançou a carreira dos Floyd para a sua segunda encarnação: Meddle, em 1971. Um álbum dividido em dois (como o vinilo fisicamente permitia) tem o primeiro lado tomado por composições curtas e directas com alguns travos bluesy, mas que continha aquele assombro que é “One of These Days”. O segundo lado, com uma só composição de mais de 20 minutos e que ficará como uma das mais inspiradas que a banda produziu em toda a sua carreira, “Echoes”, é um misto de psicadelismo dos primeiros tempos com o germinar de ideias que viriam a dar frutos nos álbuns subsequentes. A partir daqui nota-se que os Pink Floyd começam a aprimorar os efeitos de produção e a incorporar elementos vários nas composições, nomeadamente sonoridades e ruídos do dia a dia, em construções afins da música concreta e que contribuiam para a estruturação das ideias dos álbuns muito para além da simples música, construindo autênticas peças de arte sonora. A gravação do álbum seguinte (se excluirmos a contribuição para mais uma banda sonora, que foi Obscured by Clouds), levou seis meses a concretizar e veria a luz do dia no ano da graça de 1973. O seu nome, The Dark Side of the Moon. Aqui os Pink Floyd construiram um autêntico diamante musical: belo, resistente, mutifacetado e duradouro. É sem dúvida alguma um álbum ícónico e marcante dos anos 70 e um dos discos mais importantes alguma vez feito na história do rock. Ao fim de um longo percurso, os quatro Floyds conseguiram repetir a proeza que o seu antigo mentor e companheiro, Syd Barrett, havia conseguido com o primeiro disco e não creio que hajam outras bandas (se é que há alguma) pós-Beatles que tenha conseguido tamanho feito. Ainda que nesta altura os Pink Floyd sejam claramente associados ao progressivo, essa classificação pode ser algo discutível (senão mesmo redutora), como aliás é toda e qualquer tentativa de engavetar música em géneros musicais. A aproximação directa que o grupo mantinha à música com linhas melódicas características onde pontificava a guitarra de Gilmour, para sempre a sonoridade de marca do grupo, concediam-lhe uma aura de respeitabilidade que os seus congéneres de estilo não possuiam.



É inevitável que todo e qualquer processo em que alguém se vê envolvido na criação (consciente) de uma obra-prima, acabe por dar uma ressaca de onde são raros os que conseguem sair e sobreviver. Mas os Pink Floyd já tinham demonstrado uma capacidade de, com tempo, sobreviverem ao seu primero líder e mesmo de se reinventarem com um sucesso sem precedentes. O espaço de 2 anos que mediou a saída do disco seguinte, Wish You Were Here, que não é mais que uma homenagem ao eterno líder perdido à nascença e que haveria de protagonizar uma fugaz aparição em estúdio durante as gravações do disco, permitiu à banda manter um elevado nível na sua prestação enquanto entidade criativa. Peca talvez pela sua maior homogeneidade sonora, o que a meu ver o deixa a perder relativamente ao registo anterior. Cheio dos sintetizadores de Wright e das guitarras de Gilmour que dominam os longos temas “Shine on You Crazy Diamond” Parte 1 e 2, culmina a fase inspiradora da banda e desencadeia o início da liderança egocêntrica de Waters (que poderíamos associar ao prelúdio da 3ª vida da banda, a decadência). Animals, de 1977, é um álbum menor de um grupo que se vê agastado para manter um nível que claramente já não consegue acompanhar. O passo seguinte demora mais 2 anos a ser dado e vem sob a forma da peça mais megalómana alguma vez feita por uma banda de rock, The Wall em 1979. É caso para dizer que se o punk até nem teria assim tantas razões para odiar os Pink Floyd, nesta altura os próprios deram razões mais que suficientes para que o ódio os transformasse em objectos a abater a todo o custo. Contudo será injusto não mencionar que há momentos no disco que são francamente extraordinários e belos, e que se tivesse havido a clarividência de não embarcar numa megalomania egocêntrica, reduzindo a prestação musical a metade, os Pink Floyd poderiam ter-se acercado dos níveis que haviam mantido no período áureo de 73/75. Ironicamente, a queda do muro que se concretiza no álbum acaba por ser uma metáfora à própria queda da banda daqui para a frente. Tal como um gigante que, de repente, se vê com uma dimensão maior do que alguma vez poderá suportar, os álbuns seguintes são uma sequência de tiradas desinspiradas e uma inglória batalha para manter uma dignidade perdida, alimentada ainda por quezílias internas entre Waters e os restantes membros sobre os direitos da banda. Contrariamente a muitos outros, nunca chegaram a cair em tentação, mas também ninguém os livrou do mal.

Thursday, 9 April 2009

ProgNósticos: Genesis - II

Parte 2

Para ler a primeira parte.

A pedrada no charco veio em 1974 com o álbum The Lamb Lies Down on Broadway. Este disco nasce de uma ideia de Peter Gabriel a partir de uma viagem pessoal interior (assumida), surrealista (what else, vindo de quem vinha) e marcada pela iconografia norte americana resultante de impressões que Gabriel tinha retirado de uma digressão dos Genesis pelos Estados Unidos. O álbum tem um parto, no mínimo, difícil e tem ainda uma extensão natural nas performances ao vivo que se seguiram (algo de ambicioso e nunca visto à época por uma banda rock) e que haveriam de colocar os Genesis na rota do Pavilhão Dramático de Cascais em 1975. A personalidade de Gabriel começava a crescer e com ela cresciam também as vontades de experimentar mais do que a simples música. Esta atitude não era de todo partilhada pelos restantes elementos da banda, o que associado a problemas familiares criou uma tensão e fractura no grupo que se revelaria definitiva. Curiosamente, apesar da música ter estado fundamentalmente a cargo de Banks, Rutherford, Collins e Hackett, com Gabriel nas letras, o conjunto espelhou bem o espírito que os rodeava e o grupo colocou cá fora o seu álbum mais incaracterístico, mesmo para o género, profundamente negro, a trechos possuidor de um brilhantismo extraordinário, experimental (ainda teve uma colaboração pontual de Brian Eno), ecléctico (explorava uma certa variação de géneros) e apesar de se poder reconhecer algum desequilíbrio, com tempo e analisando profundamente, possui uma força incomum mercê de ser tão humanamente imperfeito e mesmo ambicioso. Pese embora a característica conceptual e operática (se assim a quisermos entender), o disco antecipava algumas pistas para o futuro com músicas mais curtas (a maior parte não possui mais que 4 ou 5 minutos, muitas quedando-se entre o pouco mais de 2 a 3 minutos) e desejos de uma rotura com o passado a qual é bem patente até na capa do disco, uma obra dos famosos estúdios Hipgnosis de Storm Thorgerson. Mas não seria exactamente isso que iria acontecer.


Com a saída de Peter Gabriel, os Genesis podiam voltar a ser o que sempre foram, e foi o que aconteceu. Trick of the Tail (1975) representa a continuidade de uma linha interrompida pelo disco anterior. A saída de Hackett em 1976, uma personagem que na realidade nunca parece ter-se integrado verdadeiramente apesar de a sua guitarra ser uma das marcas da banda, apenas acelerou a transformação dos Genesis num grupo pop, grangeando uma popularidade e sucesso como nunca conheceram em qualquer outro momento da sua carreira. Quanto à herança de The Lamb... ela haveria de ser retomada em pleno por Peter Gabriel em 1980, quando concebeu um disco não só magistral como um dos mais importantes da década que continha, entre outros, os clássicos "Games Without Frontiers" e "Biko". Por mera coincidência (ou talvez não) a tourné visitou o mesmo Dramático de Cascais nesse ano, 5 anos após a despedida dos Genesis. Desde então para cá, nem um nem os outros foram vistos por estas paragens. Dos primeiros não há grandes saudades, mas do segundo sentimos falta.

Wednesday, 8 April 2009

ProgNósticos: Genesis - I

Parte 1

Para começar a rúbrica que decidi dedicar ao rock progressivo, nenhuma outra banda a poderia abrir senão a da minha eleição: os Genesis. Nada pode explicar, de forma racional, o impacto que uma dada banda tem em nós em momentos fulcrais da nossa vida e que acabam por formar a nossa maioridade musical, independentemente de quão cedo ela nos bateu à porta. No meu caso, foi aos 6/7 anos de idade, mas é óbvio que o irmão mais velho foi fundamental no processo. Tal como cada uma das principais bandas associadas ao rock progrssivo (ou art rock, onde também é por vezes engavetado), os Genesis têm uma identidade própria e única no género. A sua música contém frequentes pinceladas pastorais e é suportada em estruturas acústicas fortes, mas quedarmo-nos por aqui é algo redutor para o que foram fazendo ao longo do seu período mais importante, de 1970 a 1975. Uma banda de meninos de colégio privado, fruto da reunião de dois grupos de amigos, Peter Gabriel e Tony Banks de um lado e Mike Rutherford e Anthony Phillips do outro em 1967, a que se foram juntando uns bateristas pelo meio que não atinavam com o grupo nem o grupo com eles. Basicamente deram em músicos para poderem interpretar o que compunham, já que não encontravam niguém para o fazer. Até neste processo nasceram do avesso, pois normalmente as bandas só encontram o prazer da composição depois de se iniciarem e crescerem na execução musical, geralmente com covers das suas bandas preferidas.



Em 1969 editam o primeiro disco que mais não era que uma emulação dos Bee Gees e que ainda hoje permanece com os direitos na mão do produtor Johnatan King, responsável quer pelo nome da banda quer pelo título do disco, um resultado aliás no mínimo infeliz. Em 1970 assinam com a etiqueta Charisma de Tony Stratton-Smith (que tinha no catálogo os Van der Graaf Generator) e fazem sair o seu verdadeiro primeiro disco, Trespass. Um trabalho algo desequilibrado ainda, mas claramente formador de uma identidade que os caracterizaria nos anos seguintes. Têm em "The Knife" a canção com alma de rock puro e directo demonstrando serem capazes de lidar com agressividade e tensão na música. Esta é também uma marca do guitarrista Anthony Phillips que abandonaria o grupo pouco depois. O lado mais anguloso da música deixaria de se manifestar, e a “agressividade” ia dando lugar aos momentos mais pastorais e estruturados num certo sinfonismo das composições. Não admira pois que nunca tenham sido particularmente amados pela inteligentzia da crítica musical. A formação clássica, com a entrada de Phil Collins e Steve Hackett haveria de tomar forma no álbum seguinte, Nursery Cryme, em 1971, que aliás ainda tem trechos musicais com o cunho de Phillips. No entanto, nota-se que o salto qualitativo musical é substancial, com uma bateria que deixava de ser um mero instrumento para dar ritmo, e passar a ser um instrumento de corpo inteiro enchendo e criando as melodias que se desenvolviam pelas longas composições com 8 a 10 minutos. A guitarra de Hackett, por sua vez, dava ao conjunto a subtileza e requinte de uma voz sólida quer quando entra a apoiar na altura certa a música, ou quando se destaca e toma o comando das operações, que não foram assim tantas vezes quanto isso (os solos de guitarra não eram, de todo, uma característica destes rapazes). Ainda que nos Genesis prevaleça uma democracia no acto criativo da composição musical, e até à saída de Peter Gabriel todas as músicas são invariavelmente assinadas como “Genesis”, torna-se perceptível que são Tony Banks e Peter Gabriel que fazem valer as suas ideias com mais frequência. Os dois amigos de escola representam também as duas personalidades (e principais tensões) subjacentes ao grupo, Tony Banks mais clássico, luminoso e musical, Peter Gabriel mais intenso, criativo e negro. O espaço de actuação do grupo foi-se definindo com o tempo, com Banks a liderar a componente musical e Gabriel a tomar conta da escrita e das performances ao vivo (já que Banks não o deixava mexer nos teclados), que culminou na criação de personagens e uso de fatos e máscaras invulgares (para não dizer estranhos) conjuntamente com pinturas faciais, e que acabaram por der ao grupo uma visibilidade pouco usual tendo em conta o seu estatuto de banda de culto na altura. É neste contexto que colocam cá fora as duas obras seguintes, Foxtrot (1972) e Selling England by the Pound (1973). São obras musicais maduras (para muitos, conforme o gosto, representa o pináculo do grupo) onde os elementos da banda se encaixam na perfeição e onde vão explorando as visões surrealistas de Gabriel, como em “Suppper's Ready”, um dos monumentos musicais do rock digam o que disserem, ou temas tão diversos como a consciência ecológica em ambiente sci-fi apoteótico, revisitação de vivências britânicas a que não são estranhas referências literárias várias e a mais pura exploração da música como veículo de story telling com características de peça de teatro (Gabriel a fazer das suas). Na banda dava para se experimentar de tudo o que lhes viesse à cabeça, e mesmo para os que denotam falta de pachorra para ouvir composições intermináveis, eram capazes de produzir (e produziram várias) composições curtas e simples com os tons pastel de uma tarde outonal num qualquer lugar da Inglaterra rural ou de um passado histórico. Em 1973 até alcançam um certo sucesso com o lançamento do single “I Know What I Like”. Na música dos Genesis, os teclados enchem e dominam as composições mais arrojadas, mas encontram sempre uma secção rítmica de guitarras (mais acústica ou mais eléctrica) por detrás, solidificadas pela bateria de Collins que lhes confere um tom jazzístico inconfundível. A espaços, o tom mais pastoral é evocado pela flauta de Peter Gabriel. Mas a haver sonoridades inconfundíveis estas são sem dúvida os teclados de Banks, em especial o uso do Mellotron (comprado aos King Crimson e com sonoridades que são assustadoramente semelhantes às que encontramos em Exit Music ou Lucky dos Radiohead! Esta observação é claramente uma provocação, mas muitos críticos musicais deram por elas), ou as texturas da guitarra de Hackett que ora lhe fazia soltar um lamento agustiante que nos tocava fundo, ora percurtia as cordas com doses certas de distorção. Mas quando tomamos o conjunto, tudo se encaixa e faz sentido, tal e qual uma jam session inspirada. Na verdade, esta era a forma como verdadeiramente trabalhavam e compunham as suas músicas.

Saturday, 15 November 2008

ProgNósticos: Introdução

Vou aqui iniciar uma série de textos sobre o género e as bandas que formaram o meu gosto musical, em primeiro lugar porque no mundo da crítica musical se confunde fartas vezes qualidade artística com gosto pessoal e em segundo lugar porque o género (rock progressivo) tinha como princípio fundador o não existirem fronteiras para o que se quisesse experimentar e misturar, e esse princípio funcionou para mim como o maior legado que este estilo de música deixou, a mim e a todos o que experimentaram uma vez tentar ouvir algo de completamente diferente.

Se quisermos procurar uma raiz para o conceito de rock progressivo ela está inevitavelmente na explosão do rock psicadélico em finais dos anos 60 onde o consumo excessivo de ácido nas veias levava frequentemente os músicos a embarcarem numa espécie de delírio musical que fugia completamente aos cânones da música rock como uma forma de expressão juvenil agarrada à manifestação exterior de alegria e exuberância associada a uma dose (q.b.) de contestação ao sistema. Nesse aspecto é inegável o contributo dos Beatles cimentado pelo álbum “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, talvez por isso mesmo apontado por alguns como um disco que decretou a morte do rock no pior sentido sendo frequentemente mal-amado pelas mesmas razões. A partir daqui tudo seria possível, e várias manifestações vinham a lume nessa mesma altura que antecipavam os destinos para onde o velho rock'n'roll haveria de descambar. Os Moody Blues juntavam-lhe a pompa da orquestra. Frank Zappa fundava uma realidade outsider ao sistema que prevaleceu em toda a sua carreira. As influências jazz haveriam de consumar uma união de facto que só não deu em casamento porque o sistema nunca haveria de deixar que o rock saísse do domínio popular, com tudo o que isso poderia significar em perdas financeiras para as editoras a nível mundial que haveriam (até aos dias de hoje) de levar à manipulação e formatação de gostos e opções para as mentes que continuavam a absorver acriticamente o que lhes ofereciam. Se há ano charneira que materializa estes acontecimentos ele é, seguramente, 1967 ano em que também saiu uma das músicas mais aclamadas de todos os tempos, “Whiter Shade of Pale” dos Procol Harum. A heresia tinha sido professada, e tal como uma reforma à santa igreja do rock os seguidores não tardariam a passar a nova mensagem. Bandas como os Yardbirds, Pink Floyd ou Soft Machine vaguearam pelo psicadelismo e acabaram por dar origem a bandas que assumiram de alguma forma o progressivo ou elas próprias acabaram por enveredar por esses caminhos. Os The Nice (de Keith Emerson) mantém-se como um dos pioneiros, mas se quisermos eleger o disco por excelência do rock progressivo nos anos 60, foi sem margem para qualquer dúvida “In The Court of The Crimson King” dos King Crimson em 1969, uma bíblia condensadora de tudo o que de bom o género deu e poderia dar. De resto, o tempo acabou por levar à natural evolução das coisas, e as bandas que tradicionalmente se associam ao género, e suas representantes mais importantes, iam derivando nesse sentido tal como os Yes, Genesis, Van der Graaf Generator, Gentle Giant, Emerson Lake & Palmer e Jethro Tull.

O rock progressivo nunca pretendeu ser um género popular, agarrado a tops ou a fazer música para dançar. Nunca se assumiu herdeiro para cantar desgraças, pessoais ou alheias, ou com pretensões de combater o sistema que não fosse o da própria música onde sempre foram outsiders (basta percorrer e ler o que as publicações da especialidade da altura afirmavam sobre o género ou sobre o que faziam). Tinham seguramente uma visão mais complacente do Mundo, ressaca dos anos “flower power”, que potenciou por vezes ligações a experiências mais espirituais e transcendentes, com tudo de mau que inevitavelmente também daí advém. Foi comum confundir-se erradamente o movimento progressivo, fundamentalmente britânico, com o krautrock alemão. O krautrock também foi uma contra-resposta, mas à música anglo-saxónica em geral, tendo como pedras basilares um punhado de músicos com formação erudita fortemente influenciados pela criatividade emanada da escola alemã e personificada em compositores como Karl-Heinz Stockhausen. Kraftwerk, Neu! e Can foram os seus mensageiros populares, facto que aliado ao uso das electrónicas e estruturas musicais simples haveriam de consagrar o movimento como inspirador de toda a pop electrónica até aos dias de hoje. E as consequências disso ainda não acabaram chegados que estamos ao estado superlativo da samplagem de tudo e mais alguma coisa, acto que leva a questionar se a própria essência da criação musical não se arrisca a cair numa vulgaridade perigosa onde facilmente se confunde arte com colagens espertas e plágio bem mascarado. Mas essa é uma outra história, que apenas vem demonstrar que os caminhos trilham-se em função dos obreiros que constroem as estradas e dirigem-se necessariamente para os locais onde elas mesmas foram construídas, e os locais eram diferentes no Krautrock e no Progressivo, mas o background também era e por isso discutir o assunto é tão estéril como não conseguir perceber porque razão os chineses não são católicos.

Só uma pequena advertência: estes textos são uma (tentativa de) reflexão pessoal sobre um género musical por parte de alguém que é um simples cidadão informado e que passou horas durante anos a ouvir muitas destas músicas, mas que no fundo são as verdadeiras fontes para se falar sobre elas.

Caros leitores, bem vindos ao Mundo do Progressivo!