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Tuesday, 22 May 2007

Hugo Pratt



O nome de Hugo Pratt diz certamente menos à maioria das pessoas que o da sua criação artística maior: Corto Maltese. Mas este texto pretende, acima de tudo, falar mais do homem e menos da obra, a pretexto de um livro que já saíu em finais de 2005 sob o título “O Desejo de Ser Inútil” e que li com um prazer imenso nas férias de 2006. É uma autobiografia, em estilo de entrevista, conduzida por Dominique Petitfaux que passa em revista a vida e a obra de Hugo Pratt. Nele encontramos o homem fascinado pelas viagens, os livros de aventuras, o esoterismo, a Veneza da sua infância, a Cabala e o judaísmo e, claro, as suas belas mulheres. Aqui se alicerça muito da sua obra gráfica, em especial nos livros de Corto Maltese, cujo espírito livre e aventureiro não poderia ser melhor alter-ego para a personalidade de Pratt. O próprio Pratt foi um viajante compulsivo, peregrino de mitos e lugares espalhados pelo Mundo fora, construindo assim parte da matéria prima com que alimentava os livros de aventuras que desenhava e publicava. As suas visões de adolescente na Itália fascista não deixam de ser curiosas, e até surpreendentes atendendo ao sentimento solidário entre todos os seus amigos venezianos (e restantes habitantes de Veneza, supõe-se). Por isso, era comum haver uma amizade cúmplice entre pessoas entricheiradas em lados diferentes da barricada. A passagem pela Eritreia é bastante marcante já que é aí que o seu pai, militar italiano deslocado durante a guerra, acaba por morrer. É igualmente visível o sentimento orgulhoso de uma ascendência que provém dos lugares mais diversos (Irlanda, França e Itália, com uma costela judaica). Aliás, Hugo Pratt fez jus a essa tradição deixando filhos pelo Mundo como na Argentina ou Brasil (um deles numa tribo índia da Amazónia). No fim, nota-se a autoridade de um homem que viveu mais que muitos de nós algumas vez conseguiremos viver.


A segunda parte do livro debruça-se sobre a obra nas diferentes vertentes. Um espelho da sua vida e dos seus próprios interesses, fascinado pela beleza feminina, é um belíssimo retrato que nos permite compreender também a pessoa que está para além da sua obra. De autor anónimo até ao reconhecimento internacional a grande escala, o percurso foi lento mas seguro, mantendo Pratt a sua independência para com os meios culturais e intelectuais onde se movia. No final, uma adenda à que foi a segunda edição deste livro, dando conta dos últimos dias de Hugo Pratt até à data de 20 de Agosto de 1995, quando faleceu. As ilustrações que acompanham o livro são um precioso complemento à leitura e muitas vezes uma extensão necessária para acompanhar o texto escrito. Finalmente, ainda somos presenteados com um conjunto de aguarelas inéditas. Um livro a não perder, quanto mais não seja por nos mostrar como a inutilidade de certas coisas se torna tão útil nas nossas vidas.

Hugo Pratt - O Desejo de Ser Inútil
Dominique Petitfaux
Relógio D’Água, 2005