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Monday, 1 March 2010

Fama Show



E não é que os Genesis foram nomeados este ano para o Rock 'n' Roll Hall of Fame?

Eis o que está no site respectivo:

Almost no group in rock history has had such a long and varied career as Genesis, who began as a cult art-rock band in England in the late 1960’s and went on to pack stadiums across the globe in the 1980’s, 1990’s and on their 2007 reunion tour. In the early 1970’s frontman Peter Gabriel shocked audiences and grabbed headlines by taking the stages in outrageous costumes and occasionally even levitating above the audience. Their music was equally innovative, and early albums Selling England By The Pound and The Lamb Lies Down On Broadway are two of the most acclaimed prog-rock albums in the history of the genre. In 1975 Gabriel left the band to pursue a solo career and drummer Phil Collins stepped out from behind the kit to take over. The band experienced many more hits and successful worldwide tours over the next 30 years.

Embora seja da praxe ir lá tocar umas cenas, ainda não é desta que o grupo se reune com a formação clássica, pois Peter Gabriel já fez saber que nem sequer pode estar presente.

Ainda assim, esta nomeação talvez denote uma outra coisa: será que o rock progressivo está a deixar a aura de estilo maldito e desprezável pela intelligenzia da música pop? Se sim, é apenas um sinal que a dita intelligenzia se está a tornar um pouco mais inteligente, pois a falta deste reconhecimento era um dos pontos em que o dito Hall of Fame era mais criticado. Mas ainda restam vários estilos (aliados a preconceitos) a serem devidamente reconhecidos, se é que se quer fazer disto um digno representante da história da música popular.

Saturday, 13 February 2010

Turn Sixty


Foi há 3 anos que abri este estabelecimento, e à terceira postadela estava a dar os parabéns ao David Bowie pelos seus 60 anos de vida. Agora, estou a fazer a mesma coisa para o Peter Gabriel. E a oportunidade não poderia ser melhor dado que daqui por dois dias sai o seu novo disco, agora a reinterpretar músicas escritas por outros, desde Paul Simon e Neil Young aos Radiohead, Magnetic Fields e Bon Iver, num total de 12 temas. E também é verdade que Bowie e Gabriel têm uma ligação entre si, não só pelo facto de no próximo disco de Gabriel haver uma versão do “Heroes”, como foram ambos os expoentes máximos da teatralização das performances musicais nos anos 70. Bowie num registo, apesar de tudo, bem mais contido que o de Gabriel que levou os Genesis à capa da New Musical Express quando, numa performance do grupo e surpreendendo os próprios colegas que desconheciam o que se iria passar, entra em palco com um vestido vermelho e uma máscara de raposa enfiada na cabeça. O rapaz tímido e contido, com um ego ainda latente, acabaria por expôr todos os seus desejos e ideias nos concertos dos Genesis que levariam os restantes membros da banda a não acharem muita piada ao caminho que se estava a tomar, porque a música parecia ficar para segundo plano e os admiradores cada vez mais associavam a banda a uma extensão de Peter Gabriel, quando na realidade a mesma fora criada na base da comunhão e participação de todos na composição musical. A corda esticou e acabou por rebentar com o álbum “The Lamb Lies Down on Broadway”.

Decorridos mais de 2 anos e alguma clausura fora do barulho das luzes, Peter Gabriel começa a sua carreira a solo com a edição do seu primeiro álbum sem nome a que se seguiriam mais 3 na mesma linha, conhecidos simplesmente por I (1977), II (1978), III (1980) e IV (1982), ou por “Car”, “Scratch”, “Melt” e “Security”, aludindo à fotografia da capa dos discos ou, no caso do último, pelo nome como foi editado nos Estados Unidos. O tema “Solsbury Hill” do primeiro registo, recuperado como hit no álbum “Plays Live” de 1983, era a expiação dos fantasmas e dos acontecimentos que levaram à saída de Gabriel dos Genesis. Neste primeiro álbum, Peter Gabriel explora várias formas de expressão musical, incluindo uma das suas favoritas, o soul. É um disco ainda agarrado ao passado e a dar corpo à afirmação pessoal. No disco seguinte começam as sementes do experimentalismo e a colaboração com Robert Fripp (produtor do disco). Um disco algo desequilibrado mas denunciador dos elementos que antecipavam as ideias para o disco seguinte e que se pode considerar uma herança do “The Lamb...” com os Genesis. Robert Fripp tinha, com este disco de Peter Gabriel, o de Daryl Hall que nunca saíu e o seu “Exposure” de 1979 (que inclui versões de dois temas de discos de Peter Gabriel e o “North Star” cantada por Hall) a intenção (entretanto gorada) de criar esta trilogia de discos a sair em 1978. O grande salto iria ocorrer com o terceiro registo, uma obra prima que, de forma algo injusta, raramente é considerada como tal. Gabriel consegue criar uma atmosfera e um estilo musical único, carregado de negrume onde os sons dos instrumentos são depurados ao essencial, e juntos constroem as peças musicais suportados pelas percursões. Neste disco começa igualmente uma abordagem a temas como o medo, e exclusão e a consciência política mais activa. Da abertura de “Intruder” com a utilização da técnica gated drum que lhe confere uma força incomum, ao clássico hino anti-apartheid “Biko” cuja guitarra inicial emula um grito lancinante de angústia, passando pelo hit “Games Without Frontiers”, o disco nunca é menos que muito bom. O passo seguinte foi a continuação destas ideias mas em que a experimentação e a exploração dos ritmos africanos vão tomando forma, num álbum cuja produção sonora é irrepreensível e o primeiro, senão dos primeiros, misturado digitalmente.


A admiração de Peter Gabriel pelo cinema e demais formas de arte audio-visual já vem do tempo dos Genesis com as performances de “The Lamb...” e quando o realizador de “O Exorcista” o convida para uma colaboração mercê da leitura de um dos seus textos surrealistas e impenetráveis. Apesar dessa oportunidade nunca concretizada, o cinema acabou por ter um papel fulcral na sua carreira, encimada pela banda sonora de The Last Temptation of Christ (1989) de Martin Scorcese e de Rabbit-Proof Fence (2002) de Phillip Noyce. No entanto, o período após 1982 veria um Gabriel mais preocupado com uma vertente pop materializada no seu disco “So” de 1986 e produzido por Daniel Lanois. Disco explorador de uma síntese brilhante das ideias anteriores e de ritmos soul e r&b que deram lugar a “Sledgehammer”, o qual representa um marco na produção vídeo, merecedor de vários elogios e prémios. Continuava assim a demanda pela performance e mistura de diferentes formas artísticas. O disco alcançaria um sucesso sem precedentes e, ironicamente, destronaria do top o álbum da sua antiga banda. A componente exerimental ía sendo deixada para segundo plano, mas a faixa final, com pouco mais de 3 minutos, é reveladora da especial aptidão que demonstra para explorar atmosferas negras. De permeio ainda teve uma colaboração com Laurie Anderson na co-autoria de “Excellent Birds” no disco “Mr Heartbreak” de 1984. A dispersão por diferentes actividades, que incluem a fundação de uma editora dedicada à promoção de músicas do Mundo, deixam cada vez menos espaço para a criação musical. Os registos começam a ser muito espaçados, e “Us” de 1992 é uma espécie de condução em piloto automático e o continuar do filão de “So” mas com resultados muito mais modestos, se não tanto comerciais pelo menos artísticos. Tirando os projectos paralelos cinematográficos, teríamos de esperar dez anos pelo registo seguinte, “Up”, de 2002. Parece uma espécie de “sit back, relax, and think what you've done”. Referências à vida, mas em especial à morte e ao(s) medo(s), é a constatação que é nestes campos onde Peter Gabriel se mexe melhor, conseguindo uma ambiência e atmosferas que mostram que a vontade de fazer algo novo e consequente não morreu. Não sendo um disco de assimilação imediata, é uma síntese equilibrada de muitas ideias dos registos de “III” e “IV”, complementadas por ideias atentas à música da altura e um certo requinte orquestral resultado dos anos de experiência. É pois um disco de alguém que não precisa de demonstrar nada a ninguém, despojado do acessório embora não do adorno sóbrio. De salientar o tema de abertura, “Darkness”, cujos momentos sujos e agressivos denotam que ouve, ou ouviu, Nine Inch Nails, pelo que não é de estranhar que tenha sido Trent Reznor a remisturar alguns dos temas incluídos no lado b dos singles.

Em 2010, Peter Gabriel faz 60 anos, faz um disco de versões de músicos e bandas que cobrem o espectro temporal da sua vida artística, do passado à actualidade, e volta a trabalhar com Bob Ezrin, produtor do seu primeiro disco em 1977. Uma bela súmula condensada no ciclo da vida, com as críticas a inidiciar que, mais uma vez, Peter Gabriel consegue manter um estatuto de criação artística que, embora embaciado pelos anos, mantém um brilho que poucos conseguem manter ao longo de uma carreira com esta longevidade, sem discutirmos se é melhor ou pior, pois isso não compete ao próprio, mas aos que ainda o ouvem com gosto. E eu sou um deles.

Thursday, 9 April 2009

ProgNósticos: Genesis - II

Parte 2

Para ler a primeira parte.

A pedrada no charco veio em 1974 com o álbum The Lamb Lies Down on Broadway. Este disco nasce de uma ideia de Peter Gabriel a partir de uma viagem pessoal interior (assumida), surrealista (what else, vindo de quem vinha) e marcada pela iconografia norte americana resultante de impressões que Gabriel tinha retirado de uma digressão dos Genesis pelos Estados Unidos. O álbum tem um parto, no mínimo, difícil e tem ainda uma extensão natural nas performances ao vivo que se seguiram (algo de ambicioso e nunca visto à época por uma banda rock) e que haveriam de colocar os Genesis na rota do Pavilhão Dramático de Cascais em 1975. A personalidade de Gabriel começava a crescer e com ela cresciam também as vontades de experimentar mais do que a simples música. Esta atitude não era de todo partilhada pelos restantes elementos da banda, o que associado a problemas familiares criou uma tensão e fractura no grupo que se revelaria definitiva. Curiosamente, apesar da música ter estado fundamentalmente a cargo de Banks, Rutherford, Collins e Hackett, com Gabriel nas letras, o conjunto espelhou bem o espírito que os rodeava e o grupo colocou cá fora o seu álbum mais incaracterístico, mesmo para o género, profundamente negro, a trechos possuidor de um brilhantismo extraordinário, experimental (ainda teve uma colaboração pontual de Brian Eno), ecléctico (explorava uma certa variação de géneros) e apesar de se poder reconhecer algum desequilíbrio, com tempo e analisando profundamente, possui uma força incomum mercê de ser tão humanamente imperfeito e mesmo ambicioso. Pese embora a característica conceptual e operática (se assim a quisermos entender), o disco antecipava algumas pistas para o futuro com músicas mais curtas (a maior parte não possui mais que 4 ou 5 minutos, muitas quedando-se entre o pouco mais de 2 a 3 minutos) e desejos de uma rotura com o passado a qual é bem patente até na capa do disco, uma obra dos famosos estúdios Hipgnosis de Storm Thorgerson. Mas não seria exactamente isso que iria acontecer.


Com a saída de Peter Gabriel, os Genesis podiam voltar a ser o que sempre foram, e foi o que aconteceu. Trick of the Tail (1975) representa a continuidade de uma linha interrompida pelo disco anterior. A saída de Hackett em 1976, uma personagem que na realidade nunca parece ter-se integrado verdadeiramente apesar de a sua guitarra ser uma das marcas da banda, apenas acelerou a transformação dos Genesis num grupo pop, grangeando uma popularidade e sucesso como nunca conheceram em qualquer outro momento da sua carreira. Quanto à herança de The Lamb... ela haveria de ser retomada em pleno por Peter Gabriel em 1980, quando concebeu um disco não só magistral como um dos mais importantes da década que continha, entre outros, os clássicos "Games Without Frontiers" e "Biko". Por mera coincidência (ou talvez não) a tourné visitou o mesmo Dramático de Cascais nesse ano, 5 anos após a despedida dos Genesis. Desde então para cá, nem um nem os outros foram vistos por estas paragens. Dos primeiros não há grandes saudades, mas do segundo sentimos falta.

Wednesday, 8 April 2009

ProgNósticos: Genesis - I

Parte 1

Para começar a rúbrica que decidi dedicar ao rock progressivo, nenhuma outra banda a poderia abrir senão a da minha eleição: os Genesis. Nada pode explicar, de forma racional, o impacto que uma dada banda tem em nós em momentos fulcrais da nossa vida e que acabam por formar a nossa maioridade musical, independentemente de quão cedo ela nos bateu à porta. No meu caso, foi aos 6/7 anos de idade, mas é óbvio que o irmão mais velho foi fundamental no processo. Tal como cada uma das principais bandas associadas ao rock progrssivo (ou art rock, onde também é por vezes engavetado), os Genesis têm uma identidade própria e única no género. A sua música contém frequentes pinceladas pastorais e é suportada em estruturas acústicas fortes, mas quedarmo-nos por aqui é algo redutor para o que foram fazendo ao longo do seu período mais importante, de 1970 a 1975. Uma banda de meninos de colégio privado, fruto da reunião de dois grupos de amigos, Peter Gabriel e Tony Banks de um lado e Mike Rutherford e Anthony Phillips do outro em 1967, a que se foram juntando uns bateristas pelo meio que não atinavam com o grupo nem o grupo com eles. Basicamente deram em músicos para poderem interpretar o que compunham, já que não encontravam niguém para o fazer. Até neste processo nasceram do avesso, pois normalmente as bandas só encontram o prazer da composição depois de se iniciarem e crescerem na execução musical, geralmente com covers das suas bandas preferidas.



Em 1969 editam o primeiro disco que mais não era que uma emulação dos Bee Gees e que ainda hoje permanece com os direitos na mão do produtor Johnatan King, responsável quer pelo nome da banda quer pelo título do disco, um resultado aliás no mínimo infeliz. Em 1970 assinam com a etiqueta Charisma de Tony Stratton-Smith (que tinha no catálogo os Van der Graaf Generator) e fazem sair o seu verdadeiro primeiro disco, Trespass. Um trabalho algo desequilibrado ainda, mas claramente formador de uma identidade que os caracterizaria nos anos seguintes. Têm em "The Knife" a canção com alma de rock puro e directo demonstrando serem capazes de lidar com agressividade e tensão na música. Esta é também uma marca do guitarrista Anthony Phillips que abandonaria o grupo pouco depois. O lado mais anguloso da música deixaria de se manifestar, e a “agressividade” ia dando lugar aos momentos mais pastorais e estruturados num certo sinfonismo das composições. Não admira pois que nunca tenham sido particularmente amados pela inteligentzia da crítica musical. A formação clássica, com a entrada de Phil Collins e Steve Hackett haveria de tomar forma no álbum seguinte, Nursery Cryme, em 1971, que aliás ainda tem trechos musicais com o cunho de Phillips. No entanto, nota-se que o salto qualitativo musical é substancial, com uma bateria que deixava de ser um mero instrumento para dar ritmo, e passar a ser um instrumento de corpo inteiro enchendo e criando as melodias que se desenvolviam pelas longas composições com 8 a 10 minutos. A guitarra de Hackett, por sua vez, dava ao conjunto a subtileza e requinte de uma voz sólida quer quando entra a apoiar na altura certa a música, ou quando se destaca e toma o comando das operações, que não foram assim tantas vezes quanto isso (os solos de guitarra não eram, de todo, uma característica destes rapazes). Ainda que nos Genesis prevaleça uma democracia no acto criativo da composição musical, e até à saída de Peter Gabriel todas as músicas são invariavelmente assinadas como “Genesis”, torna-se perceptível que são Tony Banks e Peter Gabriel que fazem valer as suas ideias com mais frequência. Os dois amigos de escola representam também as duas personalidades (e principais tensões) subjacentes ao grupo, Tony Banks mais clássico, luminoso e musical, Peter Gabriel mais intenso, criativo e negro. O espaço de actuação do grupo foi-se definindo com o tempo, com Banks a liderar a componente musical e Gabriel a tomar conta da escrita e das performances ao vivo (já que Banks não o deixava mexer nos teclados), que culminou na criação de personagens e uso de fatos e máscaras invulgares (para não dizer estranhos) conjuntamente com pinturas faciais, e que acabaram por der ao grupo uma visibilidade pouco usual tendo em conta o seu estatuto de banda de culto na altura. É neste contexto que colocam cá fora as duas obras seguintes, Foxtrot (1972) e Selling England by the Pound (1973). São obras musicais maduras (para muitos, conforme o gosto, representa o pináculo do grupo) onde os elementos da banda se encaixam na perfeição e onde vão explorando as visões surrealistas de Gabriel, como em “Suppper's Ready”, um dos monumentos musicais do rock digam o que disserem, ou temas tão diversos como a consciência ecológica em ambiente sci-fi apoteótico, revisitação de vivências britânicas a que não são estranhas referências literárias várias e a mais pura exploração da música como veículo de story telling com características de peça de teatro (Gabriel a fazer das suas). Na banda dava para se experimentar de tudo o que lhes viesse à cabeça, e mesmo para os que denotam falta de pachorra para ouvir composições intermináveis, eram capazes de produzir (e produziram várias) composições curtas e simples com os tons pastel de uma tarde outonal num qualquer lugar da Inglaterra rural ou de um passado histórico. Em 1973 até alcançam um certo sucesso com o lançamento do single “I Know What I Like”. Na música dos Genesis, os teclados enchem e dominam as composições mais arrojadas, mas encontram sempre uma secção rítmica de guitarras (mais acústica ou mais eléctrica) por detrás, solidificadas pela bateria de Collins que lhes confere um tom jazzístico inconfundível. A espaços, o tom mais pastoral é evocado pela flauta de Peter Gabriel. Mas a haver sonoridades inconfundíveis estas são sem dúvida os teclados de Banks, em especial o uso do Mellotron (comprado aos King Crimson e com sonoridades que são assustadoramente semelhantes às que encontramos em Exit Music ou Lucky dos Radiohead! Esta observação é claramente uma provocação, mas muitos críticos musicais deram por elas), ou as texturas da guitarra de Hackett que ora lhe fazia soltar um lamento agustiante que nos tocava fundo, ora percurtia as cordas com doses certas de distorção. Mas quando tomamos o conjunto, tudo se encaixa e faz sentido, tal e qual uma jam session inspirada. Na verdade, esta era a forma como verdadeiramente trabalhavam e compunham as suas músicas.

Monday, 10 November 2008

A Génese dos Genesis


Hoje, dia 10 de Novembro, os Genesis lançam cá para fora a 3ª e última caixa de uma série que abrange os vários períodos da sua obra e que pretende disponibilizar toda a sua discografia de originais completamente remasterizada. Esta última caixa, e para mim a única apetecida, cobre os anos 1970-1975, tambem conhecidos como os anos Gabriel. A caixa contém 7 SACD (Super Audio CD, que é um formato de alta resolução) e 6 DVD que inclui 5 dos primeiros discos que editaram (o primeiro registo continua de parte até porque os próprios não detém os seus direitos): Trespass (1970), Nursery Cryme (1971), Foxtrot (1972), Selling England By the Pound (1973) e The Lamb Lies Down on Bradway (1974). A verdadeira alma do grupo que me marcou indelevelmente encontra-se toda aqui. A sequência de discos é um crescendo de maturidade que vai formando uma sonoridade e identidade muito própria de uma banda que afirmava não pretender tocar no “Top of the Pops”, o programa da BBC onde as modas musicais se passeavam. Andavam por um género musical entretanto amaldiçoado e hoje algo ignorado, embora tenham contribuido para que a música popular não servisse exclusivamente como veículo dançável pouco dado a pensamentos mais profundos. Quando se fala em algum renascimento do “progressivo”, pontuado por exemplos óbvios como “OK Computer” dos Radiohead, ou menos óbvios como algumas propostas musicais que alguém convencionou chamar de pós-rock, não se deverá esquecer que as raízes estão também aqui, apesar da negação constante da mesma. As propostas musicais não evoluem de forma independente e estanque, e o progressivo foi uma consequência natural do psicadelismo, assim como muitas das novas formas são uma consequência natural do edifício musical que entretanto se foi construindo ao longo de décadas.

Daqui para a frente os Genesis perderam toda a sua consistência e orientação até acabarem numa vulgar banda pop. No entanto, preservaram sempre uma qualidade: qualquer um dos seus elementos é um músico de excepção, e se dúvidas há, oiçam-se precisamente estes registos iniciais. Para finalizar, lembro que o formato SACD disponibilizado é híbrido, ou seja, é compatível com os leitores de CD normais, mas para ouvir em alta resolução é mesmo necessário um leitor SACD (e um bom sistema, também!).

Friday, 6 June 2008

Um Livro, Um Disco, Um Filme

Entrar em cadeias faz-me sentir preso e eu prezo a minha liberdade, mas em tempos a nossa amiga Rita desafiou a equipa cá da casa para uma destas actividades que acabou por não acontecer. Recentemente, nova investida aconteceu e em face do tema até acho que vale bem a pena dedicarmos um tempo das nossas vidas a eleger um livro, um disco e um filme que, de alguma forma, nos tenha marcado, ainda para mais com o aliciante de ser um português e um internacional. Falarmos sobre os nossos gostos e do que nos marcou é também uma forma de falarmos de nós próprios e de nos darmos a conhecer. Ora aqui vai:

Um Livro

Nacional: “Finisterra” de Carlos de Oliveira. Há poucos livros que tenha lido e que tenha sentido vontade de os voltar a reler no instante seguinte a os ter acabado. Mais raros são aqueles em que isso aconteceu de facto. Este foi um desses casos raros. Nem sequer consigo explicar porquê, mas a leitura deste livro de um autor português muito esquecido é de uma beleza indescritível e é pura poesia romanceada (ou romance poético, como preferirem). Não se explica, lê-se e é urgente passar por ele.

Internacional: “Narciso e Goldmundo” de Hermann Hesse. Uma busca da vida, da beleza e perfeição das coisas. Para sempre há-de ficar retida na minha memória a descrição notável da ressaca após alguém ter a noção consciente de que produziu uma obra-prima. E um confronto de personalidades, algo que já tinha sido explorado em “Ele e o Outro” (“Klein und Wagner”) de forma menos conseguida embora igualmente brilhante.

Um Disco

Nacional: “Coisas do Arco da Velha” da Banda do Casaco. Não foi algo de imediato, mas conheci este disco na altura em que saíu em 1976, e passados estes anos fui-me apercebendo de como um bando de visionários transformou e transfigurou por completo os cânones da música tradicional portuguesa, misturando um manancial de estilos da forma mais imaginativa possível. Olhando para as obras produzidas em solo luso, nada até aos dias de hoje sequer se assemelha ao que a Banda do Casaco conseguiu na época em que reinaram. E pensar que eram conotados como reaccionários de direita é a prova acabada da imbecilidade e provincianismo que, até aos dias de hoje, nos afecta de forma profunda.

Internacional: “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis. Estávamos em finais de 1974 e não é propriamente normal que um puto que tinha apenas 9 anos de idade andasse a ouvir coisas deste calibre. Acontece que o irmão de 17 anos ouvia destas coisas e era o modelo a seguir. Ao sexto disco de estúdio, os Genesis gravam a sua obra-prima, um disco ecléctico a piscar o olho à modernidade, com um forte cunho pessoal de Peter Gabriel em consequência do qual acaba por gerar tensões na banda e levar ao seu abandono do grupo no ano seguinte. Antes da despedida, o tour de apresentação do álbum ainda passou pelo Dramático de Cascais, coisa rara na altura ter bandas destas a pisar solo nacional, e é o concerto da minha vida que nunca vi (com 9 aninhos, o que é que eu estava à espera?). Durante anos este disco atormentou-me pela sua estranheza sendo uma obra singular na carreira dos Genesis. Hoje, não tenho dúvidas que o meu gosto musical foi muito influenciado por este disco (e outros também, obviamente), abrindo-me os olhos (e os ouvidos) para as manifestações mais estranhas da música.

Um Filme

Nacional: “Recordações da Casa Amarela” de João César Monteiro. Continuo a achar que é quase uma obra singular no universo cinematográfico português: bem realizada, melhor argumentada e competentemente filmada. Em vez de andarmos com acessos de intelectualismos ou banalidades telenovelescas, ou seja, o 8 e o 80, bem podiam os realizadores aprender a olhar para os clássicos e preocuparem-se em fazer apenas uma coisa: um simples filme!

Internacional: “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick. No tempo em que haviam reposições nos cinemas em Lisboa, ver este filme no grande ecrã do Apolo 70 foi uma experiência única. Uma Obra de Arte (assim mesmo, com maiúsculas)! O poder visual e musical, as valsas no espaço, o negro e o silêncio, o Homem e a Máquina, a tecnologia alienígena como instrumento do divino. Uma referência absoluta. Depois deste filme, a ficção científica nunca mais poderia ser a mesma.

Para finalizar, a todos os que resistiram a ler isto até aqui, levam com a maldição de fazerem o mesmo no vosso blogue, sabendo de antemão que se não o fizerem a vossa vida vai caír em desgraça, o Sócrates nunca mais vai saír do governo, os combustíveis irão subir mais 500%, o Santana Lopes é nomeado presidente do PSD porque a Manuela Ferreira Leite vai aceitar um cargo de Provedora dos políticos da 3ª idade, e o país irá mergulhar numa depressão profunda que o vai fazer desligar para sempre do futebol. Por isso, vejam lá o que fazem, está bem?