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Monday, 21 November 2011

Reflexões III

As notícias dão-nos conta que no Egipto já há, pelo menos, mais de três dezenas de mortos em confrontos com a autoridade. No fundo, isto é como com as estações do ano. Primeiro veio a Primavera e com ela a esperança. Depois veio o Verão e a confiança. No entanto, a inevitabilidade do tempo diz-nos que a seguir vem sempre o Outono e que nenhuma esperança retorna sem passar pelo Inverno.

Monday, 19 September 2011

País Irreal

Nesta última semana, as notícias absurdas sucederam-se a um ritmo alucinante. A bem dizer, a culpa não está nas notícias, mas naquilo que configuram sobre um Governo que parece estar a cair num estado de desespero e desorientação inauditos. Se se mantivessem os prémios do Restaurante instaurados nos primórdios deste estabelecimento, creio que seria difícil apresentar um vencedor. Vamos então por partes.

Descobre-se na Madeira que existe um buraco orçamental de mais de 1.100 milhões de euros, ao que o palhaço de serviço do costume já veio contra-argumantar que o fez “em legítima defesa dos ataques do governo socialista”, que “não está minimamente preocupado com a situação”, que a “obra continuará a ser feita”, que “não haverão cortes salariais na região”, e tudo o mais que o mais criativo dos políticos possa imaginar. Se Passos Coelho já tinha levado um murro no estômago com as agências de rating, agora parece ter levado uma bordoada na face e um potapé nos colhões que até se torce de dores no chão. O Ministro das Finanças, o testa de ferro do Governo, subitamente calou-se. E o país continua a ver passar o cortejo carnavalesco com o folião Jardim à cabeça, a bater palmas e a rir-se. Entretanto já vieram notícias a público que, quer Cavaco Silva, quer a PGR, sabiam da situação. Vai-se a ver e os dividendos da venda de acções do BPN por parte do PR foram investidos na zona franca da Madeira.

O Governo cometeu a inacreditável proeza de incluir na lista de organismos a extinguir o Centro Internacional de Luta contra a Poluição no Atlântico Nordeste (CILPAN), coisa que não tem poderes nem competência para o fazer porque o dito organismo foi criado ao abrigo de um tratado internacional entre a Comissão Europeia, a Espanha, a França, Marrocos e Portugal. Não fosse tudo isto triste e de um embaraço monumental para a aventesma (para não dizer profundamente incompetente e estúpido) que teve a brilhante ideia, e até dava vontade de rir.

Afinal o projecto do TGV vai em frente... mas em via única. Aqui deixo apenas o comentário de um leitor do Público que afirmava que estava profundamente convencido que se tratava de um título do Inimigo Público. Acho que não é preciso dizer rigorosamente mais nada.

Para terminar, desejo apenas que em breve, quer madeirenses quer continentais, saibam onde fica a Praça Tahrir.

Tuesday, 6 September 2011

Face-te Fude

Aquilo que poderia ter-se transformado numa forma inteligente de espetar uma farpa no governo, se dito de forma jocosa, vai ficar no anuário como mais uma atoarda da silly season, tal a seriedade com que o Bastonário da Ordem dos Médicos propôs taxar a dita “comida rápida”. Há certos pensamentos que, quando demasiadamente digeridos, dão na mesma substância que o cartoonista brasileiro Laerte ilustra tão bem nesta tira a propósito do mesmo assunto:


(C) Laerte

Wednesday, 6 July 2011

Portulixo

Ontem uma agência de rating colocou o país... ou melhor, a sua dívida, ao nível do lixo. Mas o mais curioso é verificar a prole de alguns economistas e gestores virem agora a terreiro a classificar esta decisão de, nada mais nada menos, terrorista. Sim, esses mesmos, que agora finalmente vêm consagrado no governo do país a possibilidade de uma política liberal, a tal que representa a salvação para os nossos problemas, a tal cuja negação por anteriores governos representava um forte condicionamento às classifcações dadas pelas mesmas agências, as quais foram sempre justificadas por razões superiores de mercado. Esta mesma gente, ontem como hoje, não percebe que no lixo já estamos nós todos, que para o poder do capitalismo mundial, os povos não são mais que lixo, os trabalhadores não são mais que uma simples peça numa engrenagem que visa o lucro e a ganância das especuladores. Estamos num patamar em que por mais roupa que tiremos do nosso corpo, teremos sempre roupa a mais em cima. E isso inclui a nossa pele.

Friday, 6 May 2011

Chico Experts

Agora que vamos tendo uma ideia da forma como nos vão apertar os calos nos próximos anos, têm-se desmultiplicado em debates e comentários vários “especialistas” de economia que não se cansam de lançar para o ar meia dúzia de opiniões avulsas e gratuitas sobre a sua maneira peculiar de poupar dinheiro ao Estado. Numa das que ouvi, por alguém de quem se diz ter nome na praça, o seu discurso pegava em meia dúzia de indicadores, tais como os rácios docentes/alunos em Portugal, para vaticinar logo com uma ligeireza descomunal a forma como cortar despesa na Educação. Pois bem, eu nem sequer quero estar com veleidades equivalentes, até porque tenho de me remeter à minha humilde posição de pessoa vulgar e comum, sem a mesma visão presciente de sumidades deste calbre, para contra-argumentar sobre o que se passa na Educação, matéria que em grande parte desconheço mas que também reconheço ter os seus problemas. Mas não resisto a fazer um exercício semelhante: Como na Assembleia da República, dos 230 deputados do hemiciclo eu ouço intervir, em média, apenas uma dúzia deles, parece-me óbvio onde cortar nos gastos desmesurados da instituição, logo a começar no número de deputados seguido do pessoal de apoio para aquela gente toda.

Se os nossos “especialistas” não conseguem construir opiniões melhores do que aquelas que se ouvem da boca do homem da rua, melhor será as televisões deixarem de pagar aos comentadores e convidados de estúdio e façam mas é directos com abordagens aos transeuntes ocasionais. Não só a informação não piora, como ficaremos a saber qual o verdadeiro sentir do povo.

Monday, 11 April 2011

AMI, ou Assim se Mostra a Independência

O que dizer das notícias que vieram a público dando Fernando Nobre como cabeça de lista por Lisboa pelo PSD e candidato do mesmo partido a Presidente da Assembleia da República, a segunda figura do Estado?

Nunca em todos os actos eleitorias em que participei tive dúvidas em quem votava. As coisas sempre estiveram, para mim, claras como água. A excepção deu-se nas últimas Presidenciais onde me senti perdido sem saber em quem votar, não me revendo minimamente em nenhum dos candidatos a Presidente da República Portuguesa. Estando ainda recenseado na freguesia onde vivem os meus pais, desloco-me religiosamente em todos os actos eleitorais para exercer o meu direito. Naquele dia, não foi diferente. O que foi diferente foi a constante dúvida que me assaltava a cabeça sobre onde iria eu colocar a cruz do meu voto. O princípio de deixar o boletim em branco nunca me agradou e nunca o havia feito, por isso, não era agora que o iria fazer. Apenas dois nomes tinham algumas hipóteses de receberem a minha aprovação, embora contrariada em ambos os casos. A dúvida persistiu até à mesa de voto e no instante em que tinha a caneta na mão e o boletim à minha frente, a decisão foi tomada tal como uma bola que está no topo de uma colina e, por circunstâncias meramente locais, acaba por deslizar por um dos flancos. A cruz recaíu em Fernando Nobre. Não sei se o acto foi consciente ou inconsciente, embora seguramente tenha havido uma nesga de consciência no mesmo. Afinal, descontando as trapalhadas que saíram da boca de Fernando Nobre durante a campanha eleitoral, e não foram poucas, acreditei, ainda que por um breve momento que fosse, que Fernando Nobre era o rosto da independência e a personificação daquilo a que se aproximava mais da dita sociedade civil. Um rosto tosco e algo trapalhão, mas ainda assim um rosto. Observei essa inépcia como uma forma genuina de alguém que, embora não talhado para o combate político, o fazia por um dever de cidadania e de esforço, tal como se empenha nas campanhas de terreno da AMI, ainda que com resultados bem diferentes. Creio que inconscientemente, foi essa crença que me decidiu de forma quase mecânica, a colocar a cruz onde ela acabou por ser colocada. Hoje essa crença esfumou-se, tal como se esfumou da mente da maioria dos seus apoiantes. E é em parcos segundos, os necessários para se ler o cabeçalho de um título de jornal e os primeiros parágrafos desta notíca, que o Dr. Fernando Nobre consegui destruir a sua imagem de independência e prestígio que lhe levou décadas a adquirir e da qual nunca recuperará. E isto porquê? Pela hipótese de ocupar o lugar de segunda figura do Estado Português? O que distingue os grandes homens e mulheres dos pequenos é que os primeiros talham a História à medida da sua ambição, os outros deixam-se talhar pelos acontecimentos, e desses não restará memória de que alguma vez tenham existido. Paz à sua memória, Dr. Fernando Nobre.

Tuesday, 29 March 2011

Caridadezinha

Ao ler isto:

“Os gestores do programa de ajuda ao Malawi posto em marcha pela cantora Madonna, que previa a construção de uma academia para raparigas, foram afastados dos seus cargos depois de terem gasto 3,8 milhões de dólares no projecto de uma escola que nunca chegará a ser construída.” in Público, 26 de Março de 2011.
Escusado será dizer que o dinheiro foi gasto em futilidades e salários.

Só me faz lembrar que, em termos de futilidades inúteis e mecanismos de auto-promoção, há coisas que nunca mudam:



Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

A senhora de não sei quem
Que é de todos e de mais alguém
Passa a tarde descansada
Mastigando a torrada
Com muita pena do pobre
Coitada

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

Neste mundo de instituição
Cataloga-se até o coração
Paga botas e merenda
Rouba muito mas dá prenda
E ao peito terá
Uma comenda

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

O pobre no seu penar
Habitua-se a rastejar
E no campo ou na cidade
Faz da sua infelicidade
Alvo para os desportistas
Da caridade

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

E nós que queremos ser irmãos
Mas nunca sujamos as mãos
É uma vida decente
Não passeio ou aguardente
O que é justo
E há-que dar a toda a gente

Não vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta é falsa intençãozinha
Não vamos brincar à caridadezinha
Não vamos brincar à caridadezinha
Não vamos brincar à caridadezinha


Monday, 7 March 2011

O Planeta dos Macacos

“The results of a Nature poll of scientists involved in animal research reveal that nearly one-quarter of respondents have been negatively affected by animal-rights activists, or seen it happen to someone they know. In some places, including the United Kingdom, the figure is higher than one-third. The large number of people affected will surprise many of Nature's readers. Researchers have suffered fire bombings, physical attacks, destruction of personal property and campaigns of harassment. But the statistics do not necessarily reflect the current prevalence of violent activist behaviour - rather, they reveal how such activity instils a lingering fear that is difficult to forget.”

Primeiro parágrafo do Editorial da revista Nature, 24 de Fevereiro de 2011.

O Mundo está longe de ser a preto e branco, mas a questão que aqui se levanta é a de uma natureza mais profunda que afecta as sociedades do mundo desenvolvido. Os cientistas não são gente insensível e sem escrúpulos, ou então são na mesma medida dos que existem em todas as franjas da sociedade (arautos da moralidade incluídos). O que isto configura é a transformação perigosa de ideais que deveriam efectivamente contribuir para o progresso social humano em abjectos sistemas fascistas e terroristas.

Tuesday, 1 March 2011

Mercado das Transferências

As saídas de José Alberto Carvalho e Judite de Sousa para a TVI são boas notícias, embora mais no domínio do “wishful thinking” que da efectiva oportunidade que estas saídas representam para a RTP passar a ter um verdadeiro serviço público noticioso. As novas contratações da TVI em nada acrescentam ao que a estação já é (nem melhor nem pior), e esperar mais do que isso é o mesmo que esperar que a próxima edição do Correio da Manhã se bata pelos mesmos leitores do Jornal de Letras. Constitui, isso sim, a oportunidade de a RTP passar a ter uma informação mais séria, aprofundada e menos colada ao poder político. E já agora, por mais uns trocos não podiam levar também a Fátima Campos Ferreira?

Tuesday, 1 February 2011

A Rede Social

Se dúvidas haviam sobre o impacto das redes sociais na convivência moderna, creio que se esfumaram de vez com os acontecimentos na Tunísia e Egipto.

Por cá, aguarda-se pacientemente que as novas tecnologias cheguem à Madeira.

Saturday, 18 September 2010

Quem veste assim não é Gaga é abjecta


A capa desta semana do Ípsilon entrou nos cânones do mau gosto. O episódio tem tanto mais importância por verificar como uma certa intelectualidade urbana e arty, que muito gosta de um certo folclore em defesa dos animais aparentemente nem sequer vir a terreiro manifestar repúdio por esta forma abjecta de protagonismo. Só para citar um exemplo, por muito condenáveis que sejam as touradas, no seu espírito de raíz cultural nunca esteve nada deste género, e quem não o percebe é porque na realidade não percebe mesmo nada do assunto, nem sequer procura perceber. Mas a simples ideia de utilização de carne como peça de vestuário leva-nos a pensar em consequências bem piores sobre o potencial da demência humana. Mas como tudo isto vem embrulhado em forma de arte, e como todos sabemos que quanto mais chocante for uma certa forma de arte(?) melhor, então nada disto na realidade representa o que representa. É uma espécie de transfiguração do real, ou uma virtualização do mesmo, como o da própria personagem tal como aparentemente se pretende definir. Mas há limites, têm de haver limites, e acima de tudo direito à indignação.

P.S. (20 Set 2010): por uma questão de decoro, decidi alterar a imagem da vestimenta de Lady Gaga, tal a repulsa que causa. Na verdade acho que não devo compactuar com voyeurismos na tradição mais reles e barata dos reality shows em que tudo isto se parece querer transformar, por isso, quem quiser apreciar a "obra" (e tiver estômago para tal) sempre a pode pesquisar na net.

Tuesday, 13 April 2010

Vaticanic


O Titanic precisou de um iceberg para ir ao fundo. Ao Vaticano nem por isso, pois parecem ser os próprios habitantes que se esforçam diligentemente para afundar ainda mais a já agastada imagem da igreja católica. Já meteram judeus, e agora homossexuais, ao barulho no ignóbil acto cometido entre portas da instituição e seus representantes, que é a pedofilia. Em vez de andarem com elucubrações fantasiosas sobre as razões que levaram à prática destes actos, melhor seria deixarem a sociedade e a justiça civil tratar das devidas punições e pensarem no que leva uma fatia substancial de perturbados sexuais seguirem o chamamento de deus. Ou isso, ou me arrogo no direito de afirmar que há amplas evidências que apontam a elevação a cardeal de pessoas genuinamente estúpidas.

Thursday, 18 February 2010

Vícios Privados, Revelações Públicas

Ninguém questiona o dever de segredo de confissão dos padres das diversas religiões cristãs. Ninguém se atreve a mexer no sigilo bancário. Ninguém questiona o dever de sigilo profissional dos advogados. Então, porque razão se atropela de forma impune e sistemática o segredo de justiça? O que me incomoda não é ficar na ignorância do que o primeiro ministro, um membro do conselho de administração da PT, um ministro, ou um gestor do BCP disseram entre si nas conversas telefónicas. O que verdadeiramente me incomoda é a inépcia da justiça em zelar pelos interesses do Estado e dos seus cidadãos perante actos de corrupção e atentados à liberdade individual, quer sejam arguidos ou não.

Friday, 12 February 2010

O Fio da Meada

As embrulhadas que recorrentemente afloram a público sobre as alegadas tentativas de controlo do Governo sobre a Comunicação Social têm vindo paulatinamente a desgastar a imagem do Primeiro Ministro. Se as suspeitas no caso Freeport configuravam muitas vezes uma tentativa forçada de colar José Sócrates a uma aprovação cujos contornos legais eram no mínimo suspeitos, mas que perigosamente faziam resvalar os ataques ao Governo para a história do pastor e do lobo, as recentes trapalhadas públicas e esfarrapadas explicações que não explicam coisa nenhuma, não parecem deixar muita margem de manobra. Um Governo sob esta carga de suspeita, mesmo que inocente na matéria, coisa que parece não estar, não tem condições para continuar em funções. Não será por acaso que no PSD se desencadeou uma vaga repentina de ataque à liderança. Mas como parece faltar verticalidade de carácter a esta classe política, talvez tenhamos de esperar sentados para que o óbvio aconteça. No entanto subsiste uma dúvida: alguém me explica como é que o José Eduardo Moniz, que se diz vítima desta estratégia, acaba na vice-presidência da Ongoing, a empresa que segundo os jornais de hoje faria parte da estratégia da PT, e por conseguinte do Governo, para controlo dos media?

Wednesday, 10 February 2010

O Mundo Formatado

Já tem sido aqui abordada a encruzilhada em que a actual indústria discográfica se encontra. Fruto de um misto de ganância e vistas curtas, não é preciso ser muito perspicaz para se prever que daqui advêm consequências, mais ou menos graves, para as produções discográficas periféricas, da qual Portugal faz parte. Os downloads maciços e a perca de receitas com a venda de CDs, por muita vontade de fazer a cama aos gulosos das multinacionais que nós tenhamos, tem como resultado final o prejuízo efectivo dos que fazem da arte a sua forma de vida e ganha pão. O mundo globalizado põe toda a gente a gostar e a consumir a mesma coisa. Mesmo aquela música dita alternativa ou indie tem, à escala global, mais vendas e proveitos que o mais mediático músico lusitano. E é disso que se trata, de um factor de escala.

Vem isto a propósito de numa recente entrevista, Laurent Filipe afirmar que precisa de 20 mil euros para gravar um disco, valor com que nenhuma editora se atreve a avançar. Se a estupefacção for tão grande como a minha, eu repito: são mesmo 20 mil euros. Isto é o que custa um carro de gama média que muita gente da classe média compra. Claro que ser um músico de jazz, por muitas qualidades que tenha, e Laurent Filipe tem-nas de sobra, não é bem a mesma coisa que um gajo pegar numas guitarras em que arranha uns acordes, dá-lhe umas batidas e coloca três ou quatro notitas num órgão Casio, mistura tudo no computador, faz um sucesso bestial e transforma-se num geniozinho (substantivo recentemente em voga para entronizar qualquer coisa com piada com uma atitude DIY) que conseguiu furar a ganância das multinacionais. Não, aqui falamos de gente que toca música um pouco mais elaborada, acto que a maioria dos ditos geniozinhos seriam incapazes de alguma vez fazerem. E com isto não quero fazer juízos de valor sobre a qualidade intrínseca de cada coisa, pois cada um terá o seu espaço e os seus públicos. O espaço e os públicos onde Laurent Filipe se move tem músicos profissionais que, como toda a gente, precisam de um ganha pão, e por isso 20 mil euros até parece ridiculamente obsceno para produzir um disco que conte com a participação de uma orquestra e alguns convidados, tal como Laurent Filipe confirmou. E isto é de uma pessoa que no dia 8 de Junho de 2009 comemorou, com um concerto no CCB, os seus 30 anos de carreira.



Laurent Filipe – A Luz, A Luz (2004)
Laurent Filipe (trompete), com Mário Delgado (guitarra), Rodrigo Gonçalves (piano), Nelson Cascais (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria)

Monday, 8 February 2010

República de Bananas

Em tempos muito idos, foi este grande feito que aqui a equipa atribuíu ao Sr. Jardim. Quando nos chovem notícias do mau momento económico que o país atravessa, com o governo a desfazer-se em explicações para controlar o descalabro da imagem portuguesa a nível internacional, políticas de congelamento salarial e tentativa de contenção da despesa pública, a oposição (nem sei bem porquê, mas talvez porque sim) aprova uma lei que permite um acréscimo de 52 milhões de euros nos gastos para a região autónoma da Madeira. O Sr. Silva ainda terá oportunidade de vetar a dita, embora não pareça que isso venha a acontecer. Entretanto, o Sr. Sócrates e o Sr. Santos, já vieram dizer que tudo farão para contrariar a aplicação da lei, uma espécie de refúgio para compensar a ameaça de demissão política. Entretanto crê-se que o Sr. Louçã, o Sr. Sousa, o Sr. Portas e a Srª D. Manuela terão lugar cativo nas festas madeirenses do próximo fim de semana, como forma de abrilhantar devidamente este momento de elevação e responsabilidade política perante o eleitorado e as pessoas que acham que o que aqui está em causa não é o valor da despesa, mas sim o princípio. Para mais estando tudo isto enquadrado num historial de despesismo ostensivo e criador de clientelismo político que subsiste há vários anos no arquipélago em questão. Aliás, só em pleno ambiente carnavalesco se consegue assistir à bancada direita do parlamento aplaudir a bancada esquerda, e não terão sido os seguidores do governo os únicos a ficar boquiabertos. Pior que caricata, a situação é profundamente triste pois nem um dos intervenientes sai merecedor sequer do respeito dos eleitores, uns pela asneira que proporcionaram e os outros por não demonstrarem dignidade suficiente para transformarem em facto o que não passou de uma ameaça. E o que eu me riria a bandeiras despregadas se o Sr. Sócrates viesse a ganhar uma maioria absoluta. Por muito que me custe essa eventualidade, teria sido o merecido castigo para esta corja de imbecis que não consegue elevar a política acima de questiúnculas saloias. Da minha parte, era desta que o Dr. Garcia Pereira levava um voto meu.

Friday, 8 January 2010

Uma Sociedade Mais Plural

Foi hoje que se aprovou na Assembleia da República o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para saudar a decisão, fica um tema da guitarrista norte-americana Kaki King do álbum “...Until We Felt Red” de 2006.



Kaki King – Gay Sons of Lesbian Mothers (...Until We Felt Red, 2006)

Wednesday, 30 December 2009

Irreal Social

No rescaldo da recente ocupação da sede do BPP no Porto por parte de clientes que possuem as suas contas congeladas, sou confrontado com a seguinte afirmação de um dos ocupantes nos foruns noticiosos: desde o 25 de Abril, e mesmo antes disso, que não se recorda de qualquer carga policial contra pessoas de bem. Ora bem, a minha memória anterior ao 25 de Abril (de 74 para o caso de haver ainda dúvidas) é muito limitada, mas garanto que depois disso vi muitas cargas policiais (muitas mesmo) contra pessoas que admito serem igualmente de bem, desde trabalhadores, simples cidadãos, estudantes e até polícias. Antes da dita cuja data até parece que as havia com uma frequência inusitada contra a classe trabalhadora, mas se calhar era por não serem pessoas de bem.

Ora bem! É sempre um risco muito grande estarmos aqui a opinar sobre assuntos cujos meandros não conhecemos completamente, como é este caso do BPP. Contudo, há uma reflexão que me permito fazer, e essa é a dos efeitos causados por este capitalismo desenfreado e desregulado que atirou alguns gigantes financeiros ao tapete. Os governos, mesmo o americano, são reféns desta gente e em vez de deixarem o mercado actuar, como o fariam com qualquer empresa, dão em injectar ajudas financeiras e outros paliativos para suportar um sistema ansioso por voltar aos mesmos vícios. Eu sei que é chato perder as poupanças, mas direi que o nível de pessoas que colocava o dinheiro no BPP tinha por obrigação saber que há operações financeiras que são como os jogos do casino, ou seja, enquanto a coisa corre bem os dividendos são muito superiores ao que é normal e até moral, mas se corre mal o pé de meia pode mesmo ficar reduzido a um simples calcanhar. Isto se não nos pusermos a pensar de onde se obtém esses dividendos fabulosos, a esmagadora maioria dos quais em paraísos fiscais ao abrigo de qualquer fiscalização, e sem conhecer se a fonte primária é do tráfico de droga, de armas, mulheres, ou qualquer outro método para lavar dinheiro. A redenção para estes pecados é feita através de uma rede interminável de ligações que fazem perder qualquer contacto entre a fonte dos juros fabulosos e os depositantes, permitindo que todos possam ir para a cama descansados com a certeza de que terão um lugar no céu.

Monday, 7 December 2009

A Crítica e a Liberdade de Opinião

Isto tem andado muito parado e este texto marinava por aqui há mais de 6 meses, ou algo parecido. É pois com recurso ao fundo de catálogo que venho aqui estrebuchar um pouco o tasco.

João Lopes, co-autor do blogue Sound + Vision, tem sido autor de várias reflexões sobre a alegada falsa democraticidade na internet e da inconsequente liberdade de opinião que ela encerra, revelando-se antes um palco onde impera a degradação de valores (e em algum outro momento histórico se apregoou o contrário face às novas realidades sociais?). Creio que concordaremos que se trata de um tema controverso e seguramente pouco consensual. Mas numa das suas investidas (já há algum tempo, note-se, e rapidamente ficará claro há quanto tempo foi) provocou em mim este desejo de também achar que devo dizer algo sobre o assunto. Nem sei bem porque o faço, até porque o blogue não é lido por mais que meia dúzia de visitantes, a maioria ocasionais, mas é sempre uma forma de veicular uma opinião que pode incendiar outras e nesta perspectiva nunca temos verdadeiramente a certeza onde tal virá a acabar. A base de partida veio de um texto, por sinal pouco simpático, do crítico Luís Miguel Oliveira no suplemento Ípsilon sobre o filme “Slumdog Millionaire” de Danny Boyle, que não só gerou muita polémica com amores e ódios a degladiarem-se na praça pública como potenciou na altura alguns comentários que raiaram o mau gosto e insulto baixo. É certo que a última frase de Luís Miguel Oliveira pedia uma espécie de “amor com amor se paga”, mas a minha perspectiva de discussão é a de respeitar a inteligência do meu interlocutor, admitindo que efectivamente o é. E se, como o autor reclama, tem o direito de ser violento quando quiser então também me parece lógico (porque, claro está, somos apenas humanos) que se arrisca a receber a dose respectiva de respostas violentas. Serve ainda o assunto para recordar que, numa recente entrevista de Francisco José Viegas, se referiu o quanto a polémica se encontra arredada da moderna sociedade ao abrigo do pernicioso epíteto do politicamente correcto. Mas, para que serve este intróito? Foi com base nele que João Lopes, uma vez mais, se questionou sobre a pertinência e utilidade dessa instituição democrática que é a “caixa de comentários” aberta e sem restrições, onde todos podemos fazer de demónios ou simplesmente libertar as nossas raivas mais profundas e básicas por mais politicamente incorrectas e abjectas que elas sejam. Ao abrigo do anonimato de um nickname estas caixas de comentários têm a particularidade de nos revelarem uma franja social que afinal é bem menos comportada e padronizada do que idealizamos (e secretamente desejamos). Se pensarmos que falamos de uma franja social que tem acesso à internet, então concluímos que muito seguramente haverá poucos ou nenhuns representantes de aglomerações urbanas degradadas de onde não nos chocaria tanto virem manifestos de opinião de nível tão básico. Esses têm, pelo menos, a desculpa de serem social e culturalmente excluídos. Não! Certamente estaremos a falar de muitas pessoas sem razões de maior para reclamarem ou se sentirem excluidas pela sociedade (pelo menos não o serão da sociedade da informação). Como diria um antigo interlocutor na internet no passado em resultado de uma agressividade inusitada contra a sua pessoa, de (nick)nome Prometeu, “é apenas humano”. E é disso que se trata, afinal compreender e praticar a democracia e liberdade na internet é aceitar a condição humana que nos rege, cheia de contradições, imperfeições, injustiças e tudo o mais que ela encerra. A democracia, ao contrário do que efectivamente parece julgar a maioria, deve tornar-nos necessariamente mais responsáveis porque a liberdade de expressão permite precisamente a manifestação de correntes de opinião que são pouco ou mesmo nada democráticas para já não dizer insultuosas, mas para as resolver temos instrumentos jurídicos instituídos naquilo a que convencionámos chamar de Estado de Direito. Instituir um autoritarismo que proibe essa multiplicidade de correntes de opinião tout court é à partida uma negação da própria democracia e em nada contribui para debelar o problema, antes o potencia e deixa em todos nós a tal sensação de irresponsabilidade para combater as avalanches de vitupérios anti-democráticos que sobejamente assaltam a internet, pois o próprio sistema se encarrega de os encerrar a sete chaves quando se torna necessário. Alguém faz o trabalho por nós. Será como na educação de um filho, quando é mais fácil dar uma bofetada do que incutir o necessário sentido de responsabilidade pelos erros de conduta. E agora pergunto: não é assim que funcionam as ditaduras? Não é este aumento do sentido de irresponsabilidade individual e social (“quero lá saber disto tudo”, “cada um cuide de si”, “são todos uns vendidos”) que faz também aumentar os crescentes desejos de retorno a um passado quando tudo era mais autoritário e, por isso, mais directo e simples? E já agora, não é na alegada falta de “maturidade democrática” dos portugueses com que o poder central se justifica para tomar certas decisões sem consultar os principais interessados: o povo que governa? Numa coisa, contudo, estaremos de acordo: não deveremos abdicar de pensar. E se hoje há cada vez menos gente com vontade para o fazer, como recorrentemente afirma João Lopes, então é nossa obrigação mostrar o contrário agindo civica e responsavelmente, ou corremos o risco de repisar velhas fórmulas autoritárias, para não dizer fascistas.

Quanto à liberdade de expressão na caixa de comentários, creio que cabe a cada um, administrador do seu blogue, jornal ou outro meio qualquer, decidir sobre a forma como pretende gerir e aceitar esses comentários. Eu por mim volto a socorrer-me das sábias palavras que Prometeu escreveu em tempos no blogue da Radar acerca de um assunto em que fui igualmente envolvido de forma involuntaria e que subscrevo por completo:

“Quanto à espécie de "hate mail" que por causa disso apareceu no meu blog, não me parece importante. É um efeito lateral da liberdade de expressão, a que nem chamaria perverso, mas apenas humano. É por isso que tenho por princípio não apagar comentário algum do meu blog, por boçal que possa ser. Em primeiro lugar porque lhe justifica o baptismo de mal frequentado, em segundo porque, e voltamos ao que deu origem a esta pequena confusão, as palavras servem acima de tudo para caracterizar quem as profere.”

E é assim mesmo, pois sem outra qualquer referência ou imagem, nós aqui somos exactamente isso: as palavras que escrevemos.

Saturday, 10 October 2009

O Que Fazer Para Ganhar um Nobel da Paz

Em tempos, mais concretamente em 1968 ou por aí perto, Hans Krebs (o tal do ciclo) deu uma palestra na abertura do departamento de Bioquímica da Universidade Inglesa de Newcastle upon Tyne cujo título era esse mesmo: como se tornar um laureado com o Prémio Nobel? Daí nasceu uma das mais inspiradas peças de reflexão sobre a investigação científica e como o ambiente e a envolvência em equipa assim como a herança dos mestres são fundamentais para se vir a ter sucesso na matéria. Esse texto foi publicado na revista Nature e garanto que quem o lê pela primeira vez fica com a sua vida e forma de olhar a ciência profundamente modificada.

Pois bem, nesse sentido, pus-me a cogitar sobre o problema: o que fazer para ganhar um Nobel da Paz? Como parte do problema já estava tomado pelo Krebs, e não verei forma de alguma vez este texto vir a ser publicado na Nature, lembrei-me precisamente do Nobel da Paz. Acontece que para mim, o prémio encerra uma contradição na sua atribuição. Teria por garantido que tipos que são profundamente pacíficos e pacifistas, que não fazem mal a uma mosca, convivendo alegremente e em harmonia com toda a espécie de humanidade que por aí anda, seriam os candidatos na linha da frente. Mas depois uma pessoa reflecte mais profundamente e chega à conclusão que estes tipos, na realidade, não dão motivos nenhuns sequer para a existência de um prémio destes. Que sentido fará dar um prémio a alguém que luta pela Paz quando toda a gente vive em plena harmonia entre si? Nenhuma dessas pessoas, na realidade, luta pela paz. Elas vivem em paz. Para quê lutar por uma coisa que têm em demasia na sua vida? Não fazendo esforço absolutamente nenhum, têm precisamente o que querem. Não esperem que alguém lute para arranjar comida num banquete que a tem em quantidade suficiente para alimentar 10 vezes o número de convivas que por lá passeiam. Não faz sentido nenhum. Creio que o comité que atribui o Nobel da Paz deve ter chegado à mesma incongruência que qualquer cidadão com dois dedos de testa chegaria. Têm de ver a coisa de outra maneira. Então, se um tipo gosta de lutar pela paz, quer ganhar um Nobel na categoria, mas não tem nenhum motivo para lutar por ela porque já toda a gente vive em paz, o que vai fazer então? Uma hipótese é começar a lançar boatos na opinião pública, sobre as tendências sexuais desviantes do vizinho, ou sobre as burlas torpes do patrão, ou sobre as sacanices baixas do colega. Assim, pode começar a chegar a algum lado. O pessoal de repente já não anda todo com boa cara. Há assim uns tipos que já vão de trombas na rua para saber quem foi o cabrão que disse aquelas nojeiras sobre a sua pessoa lá no bairro. Mas ainda assim, não é suficiente. O que para aí não faltam são desaguisados do género que se desvanecem no meio de uns copos ou de umas palmaditas nas costas. Isto nem sequer é mediático. A coisa tem de ser em grande, para ter impacto. Então, e se um tipo achar que deve pôr na linha a horda de bárbaros que nem sequer fala a sua língua, professa a sua religião, tem recursos naturais que era melhor sermos nós a controlar e que nos deveria prestar vassalagem quando pretendemos impor as nossas visões aos outros? E se essa horda de bárbaros não aceita as nossas condições? Vai daí, lançamos uma espécie de boato exemplar que mete as hordas de bárbaros a lutar entre si, de forma sanguinária, destruindo a estrutura social, as famílias, a cultura e tudo o mais que possa ser devorado pela guerra. Assim sim, o nosso aspirante a premiado (que definitivamente não é, nem nunca pode ser, um bárbaro) já tem uma causa por que lutar: pôr aquela horda de bárbaros a entenderem-se entre si e a convecê-los que assim não vão a lado nenhum. Não só acaba por ter esperança de conseguir os seus intentos, como oferece, de forma desinteressada, ajuda económica a troco de pouca coisa, que no fundo não é mais do que pretendia desde o início. E no fim ainda ganha um prémio: o Nobel da Paz. Isto porque finalmente percebeu, tal como o comité que o promove, que sem haver quem promova a guerra, não faz sentido haver quem lute pela Paz. Como eu gostava de viver num Mundo sem laureados com o Nobel da Paz.

Hoje, dia 10 de Outubro de 2009, é o Dia Mundial contra a Pena de Morte, e os Estados Unidos foram o sexto país com mais execuções de condenados à pena capital no ano transacto, segundo relatórios internacionais. Diria que, para bom entendedor meia palavra basta.