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Tuesday, 22 November 2011

It's The End of the World as We Know It (and I Feel Fine)

Lembrando um texto recente da chafarica, notícias fresquinhas apontam cada vez com mais segurança que o Higgs possa ser uma simples miragem. De momento resta a gama de 114-141 GeV para o encontrar (a gama entre 141 e 476 GeV já foi esquadrinhada). Lá para Dezembro já haverá notícias da análise dos resultados entratanto acumulados.

Quanto aos neutrinos superluminais, o grupo responsável pela experiência não só rebateu as objecções colocadas até ao momento por vários físicos bem como outro grupo pertencente aos laboratórios envolvidos repetiram a experiência e obtiveram mais um conjunto de 20 eventos (o que não é muito), com a diferença que os pulsos de protões usados para gerar os neutrinos diminuiram para uns insignificantes 3 nanosegundos (em vez dos 10,5 microsegundos da experiência inicial) por forma a reduzir a incerteza no intervalos de tempo medidos, eliminando as dúvidas na correspondência do evento gerador associado ao neutrino detectado. Ainda assim, o grupo reproduziu a diferença de 60 nanosegundos relativa à velocidade das partículas de luz. Se bem que neste caso o cepticismo continue, não se prevê que o assunto fique resolvido, como no caso do Higgs, até Dezembro, mas antes somente daqui a uns dois ou três anos.

Finalmente, muitos físicos e filósofos da ciência vêm debatendo desde o princípio do século XX o significado a famosa função de onda (é uma realidade física? É uma probabilidade?). M. F. Pusey, J. Barrett, e T. Rudolph publicaram um artigo (The quantum state cannot be interpreted statistically) com um teorema que relança não só a questão, como parece indicar que o dita função de onda das partículas elementares tem mesmo um significado físico real. Pese embora o seu carácter abstracto e teórico, as implicações do resultado são muito profundas por voltarem a reequacionar a interpretação da realidade quântica, para todos os efeitos, uma realidade sem correspondência com absolutamente nada que vivenciamos no dia a dia.

Agradece-se aos R.E.M. o empréstimo do título.

Thursday, 6 October 2011

Os Cristais Que Não o São


Este ano os Prémios Nobel estão a chamar-me um pouco mais a atenção, neste caso porque o da Química premeia alguém que se move por uma ciência que me é particularmente cara: a Cristalografia. Assim, o israelita Dan Shechtman, que em 1984 trabalhava no NIST (National Institute of Standards and Technology, na altura conhecido como National Bureau of Standards), recebeu o Prémio Nobel da Química de 2011 por ter descoberto os quasi-cristais. O significado da descoberta advém do facto de se julgar que apenas as substâncias cristalinas (toda a substância sólida que apresenta periodicidade translacional nas três direcções do espaço) produziam padrões de difracção de raios-X e de abrir ao conhecimento uma multiplicidade de formas como os átomos de uma estrutura sólida podem ser arrumados. O facto de os cristais terem periodicidade (ou se quisermos, simetria) translacional, implica necessariamente (e é facilmente demonstrado matematicamente) que admite apenas um número limitado de simetrias de rotação, a bem dizer, 5. Estas simetrias designam-se por 1, 2, 3, 4 e 6 e representam o número de vezes em que podemos dividir a rotação completa de uma circunferência, ou seja, 360º. O estranho de tudo isto foi quando Dan Shechtman obteve um padrão de simetria rotacional 10 e por vezes 5, ou seja, em forte contradição com as restrições impostas pela simetria translacional. Como não se acreditava que outras substâncias, que não as cristalinas, podiam apresentar estes padrões, a reacção inicial foi de rejeitar o resultado. A persistência do laureado e de outros seus colaboradores, permitiu-lhes ir em frente e publicar os resutados na Physical Reiew Letters em 1984 abrindo assim caminho a um conjunto de outras estruturas cuja característica principal é sererem simétricas, mas aperiódicas, que o mesmo é dizer, sem simetria translacional. A estas novas estruturas deu-se o nome de quasi-cristais.

Os padrões aperiódicos não eram contudo novos e haviam já sido gerados e descobertos por matemáticos. Os mais famosos dos quais são devidos ao matemático inglês Roger Penrose, e são conhecidos como Padrões de Penrose (Penrose tillings). Estabelecer a ponte entre estes padrões e as novas estruturas descobertas foi bastante rápido. De salientar finalmente que os quasi-cristais estudados são normalmente ligas metálicas e são todos sintéticos. Contudo, e por mero acaso, neste ano de 2011, foi publicada a descoberta do primeiro quasi-cristal natural, na revista American Mineralogist, com o sugestivo nome de icosaedrite (devido à simetria 5 do icosaedro) e com a composição Al63Cu24Fe13.

Para terminar, uma nota para referir que ao contrário do título da notícia do Público, os manuais de cristalografia não estavam errados, nem nunca estiveram, como se depreende do que aqui escrevi.

Wednesday, 5 October 2011

E o Nobel da Física vai para...

…a expansão acelerada do Universo. Os premiados são os físicos Saul Perlmutter do Lawrence Berkley National Laboratory e University of California at Berkley, Brian P. Schmidt da Australian National University e Adam G. Riess da John Hopkins University. E o tema é também muito especial a este blogue, dado que no seu espírito inscreve-se a divulgação científica, e este tema agora laureado com o Nobel da Física, foi objecto de um dos primeiros textos sobre ciência [1 e 2] que aqui foram publicados. A história empolgante que envolveu esta descoberta extraordinária, e que levou a revista Science a elegê-la em 1999 como a descoberta científica do ano, vem muitíssimo bem descrita no livro The Extravagant Universe, também ele uma das primeiras “críticas literárias” aqui do tasco.


Saul Perlmutter, Brian P. Schmidt e Adam G. Riess

Friday, 23 September 2011

Sciencequake


De tempos a tempos há descobertas científicas que têm um impacto extraordinário na sociedade. Desde ontem que uma notícia percorre os meios de comunicação dando conta que cientistas italianos, em conjunto com o CERN, estiveram 3 anos a medir neutrinos emitidos no CERN em Genebra (partículas de massa quase quase nula, e que podem atravessar o interior do planeta de um lado ao outro sem qualquer problema, já que interagem muito pouco com a matéria normal), e chegaram à conclusão que fizeram a distância que separa o emissor de neutrinos do detector (situado no laboratório de Gran Sasso em Abruzzo, na Itália), em menos 60 nanosegundos (com um erro de 10 ns) do que deveriam se se deslocassem à velocidade da luz. Isso significa que o postulado base da Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, de que nada se desloca a uma velocidade superior à de uma partícula de luz, que se designa por fotão, está incompleto. Em primeiro lugar, este resultado não invalida a teoria de Einstein, eventualmente torna-la-á menos completa e generalizável do que se julga. Em segundo lugar, este resultado é por demais surpreendente, de tal maneira que mesmo os cientistas que efectuaram a experiência são, porventura, dos mais cépticos. Mas o impacto de uma descoberta deste calibre é de tal maneira grande, ou não fossem as teorias de Einstein um dos pilares base do edifício científico humano, que conforme é comum nestes meios dizer-se: “extraordinary claims require extraordinary evidence”. E assim o mais certo é ficarmos uns anos em banho-maria à espera de uma replicação da experiência para verificar, efectivamente, se os resultados se confirmam ou não. É assim que isto funciona. A outra descoberta do momento, ou melhor, a falta dela, é que no LHC (Large Hadron Collider) já foram esquadrinhados os níveis de energia entre 145 e 466 GeV (Giga electrão-volt) e nem sinal do bosão de Higgs. Ou seja, procurou-se basicamente onde o dito bosão poderia estar e... nem vê-lo! Mas neste caso, tal como no da notícia de ontem, é preciso tempo para reconfirmar os dados. No caso do Higgs, actualmente a banda de confiança de que o bosão não estará lá é de 95%, o que significa que ainda há uma probabilidade de 5% de ter escapado aos cientistas. Mas à medida que os dados acumulam, essa banda vai diminuindo até um ponto que só quase por crença é que ainda se acredita que possa existir. Qualquer destes casos trarão implicações extraordinárias para as duas principais teorias da actualidade: a Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica. Se se confirmarem os resultados, um mundo excitante de novos modelos e ideias irá mais uma vez mudar um pouco mais a nossa concepção do Mundo.

Sunday, 20 March 2011

Na Senda(i) dos Terramotos


Figura: Localização do sismo de Sendai e contexto tectónico. (C) Nature

O último sismo que atingiu o Japão levou uma panóplia de comentadores de serviço às televisões que variaram entre o engenheiro civil e um astrofísico convertido em especialista de alterações climáticas e, agora pelos vistos, também em catástrofes naturais e processos tectónicos. Que me lembre nenhum geólogo ou geofísico, ou mesmo técnico do Instituto Tecnológico e Nuclear, a entidade que em Portugal monitoriza e gere tudo quanto é resíduo radioactivo que por aqui anda. Pois bem, antes de mais, nos meios de comunicação ninguém mencionou o porquê de um sismo desta magnitude no local em que ocorreu ser inesperado. E porque razão, os meios de prevenção de tsunami acabaram por falhar, nomeadamente as barreiras costeiras que se revelaram insuficientes para aguentar com ondas entre os 10 e os 15 metros. Incluindo, é claro, na central nuclear de Fukushima pois o desastre que lhe sucedeu deveu-se precisamente ao impacto do tsunami e à insuficiência das barreiras costeiras.

O sismo do Japão atingiu o grau 9 na escala de Richter, que é uma escala logarítmica, e portanto o incremento no grau de um sismo não corresponde a um incremento linear da energia libertada, mas exponencial. Dada a magnitude atingida, e atendendo que dentro desta gama houve o sismo em Sumatra em 2004 (9.1) e no Chile em 1960 (9.5), a devastação devida à libertação da energia sísmica foi notavelmente pequena. O pior deveu-se ao tsunami que foi induzido pela movimentação brusca de uma massa da crosta substancial. Na realidade, os verdadeiros especialistas nestes assuntos, não previram que a região de Sendai pudesse ser atingida por sismos desta magnitude. A questão é, porquê? Ora bem, o ambiente tectónico onde se encontra o Japão corresponde ao bordo do local onde, a Oeste, no fundo do oceano, a crosta do oceano Pacífico (a litosfera oceânica) mergulha sob a placa litosférica oceânica que se encontra a Este e sobre a qual se ergue o arquipélago japonês. Este enorme movimento de massas é lento, gradual e nunca contínuo. Aliás, esse é o problema, porque o deslizamento de dois blocos de rocha entre si cria atrito e por vezes o movimento bloqueia até que a força exercida acumule tensão suficiente para desbloquear a progressão do movimento. Assim aconteceu com o sismo de Sendai, quando se liberta essa energia e ocorre um deslizamento brusco numa área de várias centenas de km quadrados. Acontece que os registos longos e repetidos que se vinham acumulando indicavam que sismos da magnitude do sismo de Sendai seria improvável em zonas de mergulho de placas oceânicas (zonas de subducção) em que a idade das placas é antiga. Atendendo a que a idade da litosfera oceânica ao largo do Japão tem cerca de 140 milhões de anos (para um máximo admissível entre 180 e 200 milhões de anos), os cientistas apontavam para que a região de Sendai não seria, por isso, afectada por sismos desta magnitude, precisamente por a crosta oceânica que subducta ser mais fria e densa (consequência da idade) então deslizaria mais rapidamente e facilmente. A somar ao problema, registos históricos de sismos na zona também não apontavam para magnitudes desta ordem de grandeza (máximo registado foi 8). Desta forma, o sistema de prevenção de tsunamis estava construído para suportar um impacto de ondas mas com dimensões menores da que as que vieram a ocorrer. Portanto, foi no capítulo previsão e conhecimento científico em que o processo correu mal. O sismo de Sendai provocou já uma necessidade de revisão dos modelos sísmicos nestes contextos tectónicos. Contudo, há formas alternativas a relatos históricos para deduzir a ocorrência destes fenómenos. Os tsunamis, devido às suas características, geram depósitos de detritos (conhecidos como depósitos de tsunami) que podem revelar muito da energia que lhe está associada. A verdade é que em 2001, investigadores japoneses estudaram um desses depósitos na região de Sendai, datado do século IX e cuja conclusão foi que, na realidade, a região até era afectada por ondas gigantes de mais de uma dezena de metros, mas com um período de recorrência de 800 a 1000 anos. E não é que estavam correctos?

Monday, 7 March 2011

O Planeta dos Macacos

“The results of a Nature poll of scientists involved in animal research reveal that nearly one-quarter of respondents have been negatively affected by animal-rights activists, or seen it happen to someone they know. In some places, including the United Kingdom, the figure is higher than one-third. The large number of people affected will surprise many of Nature's readers. Researchers have suffered fire bombings, physical attacks, destruction of personal property and campaigns of harassment. But the statistics do not necessarily reflect the current prevalence of violent activist behaviour - rather, they reveal how such activity instils a lingering fear that is difficult to forget.”

Primeiro parágrafo do Editorial da revista Nature, 24 de Fevereiro de 2011.

O Mundo está longe de ser a preto e branco, mas a questão que aqui se levanta é a de uma natureza mais profunda que afecta as sociedades do mundo desenvolvido. Os cientistas não são gente insensível e sem escrúpulos, ou então são na mesma medida dos que existem em todas as franjas da sociedade (arautos da moralidade incluídos). O que isto configura é a transformação perigosa de ideais que deveriam efectivamente contribuir para o progresso social humano em abjectos sistemas fascistas e terroristas.

Tuesday, 24 August 2010

Novas de Ciência

Esta semana no site da Nature:

Os novos Dr. Fausto:

"Investigations into research misconduct cost US institutions more than US$110 million per year, estimates a study published this week. But experts contacted by Nature question whether calculating the cost of investigation is the right way to measure the impact of research misconduct."

E afinal, o nosso Sistema Solar é um bocadinho mais antigo:

"A meteorite found in the Sahara Desert has helped to pin down the age of the Solar System and shed light on how it may have formed.

The new estimate, which comes from measuring the ratios of lead isotopes inside the chondrite — an ancient stony meteorite — suggests that the Solar System is 4.568 billion years old. This is 0.3–1.9 million years older than some previous studies projected. The relatively small revision means that models of the gas and dust that gave rise to the Solar System should have around double the amount of a certain iron isotope, iron-60, than previously suggested."

Hasta!

Thursday, 15 April 2010

O Vulcão Que Veio do Frio

Imagem impressionante da coluna de cinzas e vapor de água da recente erupção sub-glaciar do vulcão Eyjafjallajokull, no Sul da Islândia.


Foto retirada do site do Público; Foto da Guarda Costeira Islandesa/Reuters

Thursday, 7 January 2010

E Pur Si Muove


Era noite, e estávamos no dia 7 de Janeiro de 1610. Galileo Galilei registava a presença de 3 estrelas fixas, totalmente invisíveis a olho nú devido à sua pequena dimensão, próximas de Júpiter e alinhando-se com este segundo uma linha recta.

Faz hoje precisamente 400 anos que Galileo Galilei apontou o seu telescópio a Júpiter que o levou a descobrir as luas que em seu torno gravitam. Esta observação não foi inocente, pois a polémica do heliocentrismo versus geocentrismo havia sido novamente levantada por Nicolau Copernico, com este a defender a primeira hipótese para o Sistema Solar na sua obra, De Revolutionibus Orbium Coelestium, de 1543. No entanto, haveria de ser uma outra observação, ainda por Galileo, que foi determinante na sua confiança inabalável de que era a Terra a girar em torno do Sol e não o contrário. Foi a observação das fases de Venus, pois entravam em contradição com a hipótese geocêntrica defendida pela Igreja.

Há quem defenda que a ciência nasceu neste dia, há 400 anos, tal como na Conferência de hoje na Fundação Calouste Gulbenkian pelo Prof. João Caraça. Talvez não tenha nascido propriamente a ciência, mas mais uma certa forma de fazer ciência que cortou radicalmente com a praxis vigente até então: realizar observações e fazer experiências. Galileo foi o grande responsável pelo desenvolvimento do método científico. O que até aí constituia um acumular do saber livresco, muito metido à reflexão filosófica sobre a Natureza, herdeiro da cultura grega, acabaria por colapsar gradualmente face às sucessivas demonstrações sobre como a Natureza funciona realmente. Uma revolução que ateou rapidamente pela Europa Central e do Norte, mas que poupou algumas regiões periféricas, como em Portugal. Seria com a reforma educativa do Marquês de Pombal em 1759 que na Universidade Portuguesa se deixaria de ensinar a física Aristotélica em favor da física Newtoniana cuja obra maior, Principia, havia sido publicada já em 1687.

Monday, 20 July 2009

Walkin' On The Moon

"A small step for Man, a giant leap for Mankind" - Neil Armstrong, há 40 anos atrás, lá distante... que bem poderia ser ao som da música dos Police, por sinal, das melhores que os rapazes fizeram!


Foto: NASA

Tuesday, 13 January 2009

Sob a Tutela de Darwin


O ano de 2009 está a ser rico em comemorações. Depois de anunciado como Ano Internacional da Astronomia, é também o Ano Darwin e isto porque se comemoram em 2009 os 200 anos do nascimento desse brilhante naturalista que foi Charles Darwin (1809) e também 150 anos da publicação dessa obra maior que foi On the Origin of Species (1859). Embora hoje a teoria evolucionista darwiniana seja algo contestada nos seus princípios básicos, que admitia uma evolução lenta e gradual das espécies, não deixa de ser um livro que revolucionou por completo o pensamento da sociedade moderna e o posicionamento do Homem da Natureza. Hoje uma personalidade da ciência apadrinhada por biólogos, Darwin foi acima de tudo um naturalista, como era comum designar alguém que se dedicava ao estudo da Natureza e fenómenos naturais. O seu apadrinhamento pelas Ciências da Vida tem a ver com a importância e impacto da obra On the Origin of Species, mas Darwin foi, à época, um geólogo e não um biólogo como seguramente a esmagadora maioria das pessoas julga. O seu primeiro mentor que o iniciou nos domínios da geologia foi Adam Sedgwick, professor em Cambridge, e mais tarde o eminente Charles Lyell que publicou a obra Principles of Geology (1830-1833), obra essa que teve um profundo impacto em Charles Darwin e que, no fundo, iria marcar indelevelmente a sua carreira. A Charles Darwin devem-se outras contribuições como a compreensão (correcta até hoje) do processo de formação dos atois e uma arrojada (à época) proposta de quantificação da idade da Terra, com base na sedimentação em bacias. Esta proposta figurou inclusivé na primeira edição de On the Origin of Species, mas a autoridade maior de Lord Kelvin, que usando as ferramentas da termodinâmica que ajudou a desenvolver, chegava a uns conclusivos 90 milhões de anos. Os 300 milhões de anos de Darwin eram significativos mas, para si e maioria dos geólogos, ainda curto para explicar o gradualismo da evolução geológica e animal registada nos fósseis. Mas que argumentos utilizar contra as leis da física bem estabelecidas? Teríamos de esperar por Marie Curie para chegarmos à fonte (desconhecida) de todas as discordâncias e que haveria de dar razão aos geólogos: a radioactividade! E em vez de 90 ou 300 milhões de anos, seriam 4500 milhões de anos. Mas essa história fica para outra oportunidade.

Thursday, 1 January 2009

2009: Ano Internacional da Astronomia



Caros clientes, o ano de 2009 que hoje se inicia foi declarado pela Assembleia Geral da ONU como o Ano Internacional da Astronomia. Na perspectiva de vermos as realidades terrenas algo abaladas pelo sismo financeiro, cujos danos continuarão a ser revelados no corrente ano, uma sugestão para olhar para os céus e para esse escuro infinito do Universo. Essa imensidão negra que ultrapassa as nossas mais extraordinárias visões de grandeza lembra-nos quão insignificante é a espécie humana, a tal que não consegue perceber que os males que julga infligir ao Planeta na realidade recaem sobre ela própria. Como disse Carl Sagan: nós somos filhos das estrelas.

Para visitar o site português.


Nébula da Águia: Foto do Telescópio Espacial Hubble.

Sunday, 7 December 2008

Ciência nos Limites

A abertura recente do LHC (Large Hadron Colider) no CERN pretende disponibilizar a fabulosa energia de 7 TeV (Tera electrões-volt) na colisão entre partículas sub-atómicas numa tentativa de testar o Modelo Padrão (Standard Model) a um nível que não foi até agora atingido. Pois bem, o Modelo Padrão é o modelo correntemente mais aceite sobre a matéria à escala das partículas elementares e que unifica 3 das 4 forças fundamentais da natureza: electro-magnetismo, nuclear fraca (decaimento radioactivo) e nuclear forte (a força que mantém o núcleo coeso). No entanto existem diversos problemas com esta teoria, nomeadamente a existência de muitos parâmetros que são estabelecidos de forma ad-hoc e também o facto de, até ao momento, a força da gravidade resistir de forma feroz à integração na teoria. Até parece que o espírito de Einstein, que se opunha frontalmente à descrição da mecânica quântica e a considerava profundamente incompleta, se encontra presente para amaldiçoar de forma permanente qualquer tentativa de casamento com as restantes forças da natureza, pelo menos, desta forma. Para isso foram propostas aproximações alternativas, a mais mediática das quais a teoria das cordas (string theory) e que até agora não passam disso mesmo, simples propostas alternativas. Se o Modelo Padrão tem problemas, a teoria das cordas parece enovelada nos objectos com que pretende descrever o mundo sub-atómico a ponto de constituir um autêntico nó cego. As ferramentas matemáticas desenvolvidas na teoria das cordas são de tal forma complexas, que muitos físicos passam mais tempo a tratar da matemática do que do fenómeno físico propriamente dito. Para ilustrar este estado de coisas houve até alguém que já sugeriu que a Teoria das Cordas é uma teoria do século XXI acidentalmente descoberta no século XX (arrancou de forma definitiva no final dos anos 70).


Voltando ao LHC. Desta prodigiosa máquina, que entretanto teve problemas técnicos algo graves com os magnetos supercondutores e que a obrigam a estar parada até meados de 2009, espera-se que vá gerar um manancial de partículas com massas cada vez mais pesadas (lembrem-se que, segundo Einstein, energia e massa são equivalentes), uma das quais (e é o troféu máximo desta partida de caça singular) é o bosão de Higgs, assim designada em honra do físico irlandês, Peter Higgs, que postulou a sua existência. Se for descoberta, será seguramente o avanço mais significativo desta fabulosa experiência colocando o Modelo Padrão num nível onde será muito mais difícil de destronar permitindo também, de uma só penada, explicar a massa de todas as partículas sub-atómicas (dependentes dos tais parâmetros ad-hoc). Claro que muito mais se espera deste empreendimento, que incluem aquelas formas estranhas de energia e matéria que andam pelo Universo e que muito recentemente atormentam o espírito dos astrofísicos com uma persistência avassaladora. Finalmente, teremos muito provavelmente chegado ao limite dos grandes aceleradores de partículas, não por incapacidade técnica mas pelo prodigioso investimento financeiro destas experiências. Em alternativa há quem proponha, há mutio, que as observações astronómicas nos põem em contacto com fenómenos energéticos que colocam a energia do LHC ao nível da usada por uma simples lâmpada caseira. Será preciso mudar o paradigma, e qualquer que seja o resultado destas experiências, essa mudança é inevitável.

Friday, 5 December 2008

Mau Jornalismo ou...

Notícia, hoje, no site da TSF:

“A Fundação Calouste Gulbenkian distinguiu oito jovens portugueses universitários, na área da investigação científica, com o objectivo de estimular a criatividade e a qualidade.

Entre os premiados deste ano contam-se três investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, nomeadamente Elisabete Oliveira, do Departamento de Química, Gonçalo Tabuada, do Centro de Matemática e Aplicações, e Pedro Barquinha, do Centro de Investigação e Materiais, informou hoje a Fundação.

A investigação de Elisabete Oliveira...”

e segue-se uma descrição dos projectos do 3 jovens investigadores mencionados na notícia. Pergunta-se: e os restantes cinco, quem são? Não aparecem por não serem da FCT? Será a TSF um meio de difusão noticioso ligado à UNL? Isto não é jornalismo sério.

Para que se saiba os restantes investigadores são:

  • Ana Patrícia Carvalho Gonçalves, do Centro de Matemática da Universidade do Minho
  • Eduardo Filipe Vieira de Castro, do Centro de Física do Porto, da Universidade do Porto
  • Emanuel Nemésio de Sousa Dutra, do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa
  • Juan Antonio Añel Cabanelas, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, da Universidade de Aveiro
  • Ricardo Miguel Oliveira dos Santos, do Centro de Neurociências e Biologia Celular, da Universidade de Coimbra.

Tuesday, 28 October 2008

O (h)OMO (sapiens) Lava Mais Branco

Passe a leve referência publicitária no título, esta fotografia tem tanto de belo como de assustador, embora esta última característica esteja oculta ao leitor não informado. E é para isso que aqui estamos: esclarecer! A fotografia, retirada hoje do site do Público, representa corais da Grande Barreira Australiana descoloridos devido a um fenómeno conhecido como “coral bleaching”. A descoloração dos corais deve-se à morte dos organismos simbióticos que com eles vivem, normalmente algas fotossintéticas, que por sua vez resulta de dois factores principais: 1. modificação da temperatura das águas do oceano, nomeadamente aquecimento; 2. acidificação dos oceanos, devido ao aumento do CO2 atmosférico que não é mais que um ácido (embora fraco, não deixa de o ser). As conclusões são desnecessárias. Cada um tire as suas!


Fotografia: Ove Hoegh-Guldberg/ cedida à Reuters pelo Centro de Estudos Marinhos da Universidade de Queensland.

Thursday, 9 October 2008

O Nobel da Física 2008


Não é que tencione dar uma notícia que já muita gente sabe, nem explicar grandemente a razão do Prémio Nobel da Física em 2008, coisa que aliás nem sequer consigo fazer como deve de ser. Acontece que este ano os laureados, Makoto Kobayashi, Toshihide Maskawa e Yoichiro Nambu descobriram o fenómeno de quebra espontânea da simetria no mundo das partículas subatómicas bem como a origem dessa quebra de simetria a qual permitui prever a existência de pelo menos 3 famílias de quarks. Ora, caros leitores, estão a ver a razão do nosso contentamento. Um Nobel que celebra a existência do nosso alter-ego que aqui se dá ao trabalho de vir rabiscar umas palavritas sobre assuntos vários que ora deambulam pela ciência, ora pela música, ora pela boa disposição, ora pela política e opinião, é algo para comemorar.

Não foi na altura em que estes ilustres cientistas descobriram esta quebra de simetria que o termo quark nasceu. Esse baptismo veio do trabalho de outro físico que formulou um esquema de classificação para os hadrões de que resulta o modelo dos quarks, trabalho que conjuntamente com a matemática que confere ao modelo um carácter predictivo lhe valeu o Prémio Nobel da Física em 1969, Murray Gell-Mann. Para o efeito, Gell-Mann queria uma palavra que imitasse o som dos patos (digam lá que os cientistas não têm espírito e capacidade para bricarem com o que estudam...) até que se deparou com a palavra quark no poema Finnegans Wake de James Joyce, o qual reza assim (isto vem repetido vezes sem conta em inúmeros livros de divulgação):

Three quarks for Muster Mark!
Sure he has not got much of a bark
And sure any he has it's all beside the mark.

E assim, caros leitores, ficam a conhecer um pouco sobre a origem do meu misterioso nome... A estranheza é mesmo um “sabor” quântico.

Sunday, 5 October 2008

Velha p'ra Caraças!

É o que uma rocha encontrada num afloramento no Quebeque, Canada, é após ter sido medida a razão dos isótopos de neodímio e samário pela equipa de Jonathan O'Neil da Universidade de McGill em Montreal. O grupo de rochas a que este afloramento faz parte já havia sido datado como tendo 3,8 mil milhões de anos usando um mineral muito útil para o efeito: o zircão, que é um silicato de zircónio extraordinariamente resistente à alteração. Acontece que a rocha agora datada não continha zircões pelo que os investigadores tiveram de usar outro método. E a bonita idade do exemplar? Uns singelos 4,28 mil milhões de anos, quebrando em 250 milhões de anos o anterior recorde. Atendendo a que a nossa visão da Terra primitiva é tão boa quanto a de um objecto a 2 km de distância numa noite de nevoeiro cerrado, este resultado demonstra que a diferenciação de uma crosta sólida terá ocorrido cedo na história do planeta que já leva uns respeitáveis 4,6 mil milhões de anos.

O trabalho científico foi publicado há pouco mais de uma semana na revista Science.

Monday, 23 June 2008

Marte On The Rocks

Aquilo que tinha sido um dos grandes objectivos traçados para a missão da Phoenix, a descoberta de água sob um dos estados da matéria, acabou por acontecer em 15 de Junho passado (imagem da esquerda) onde a escassos centímetros abaixo da superfície se encontrou água no estado sólido. A fotografia da direita foi obtida 4 dias depois, a 19 de Junho, e mostra que parte desse gelo já desapareceu, tendo sublimado na atmosfera marciana. O que sempre se suspeitou até à data, com base em aspectos morfológicos e mineralógicos (por exemplo, a existência de minarais hidratados detectados por espectroscopia de infra-vermelhos) da superfície marciana, que em tempos a água terá desempenhado um papel importante na actividade superficial de Marte, parece ter agora recebido uma confirmação muito forte. De todas as missões ocorridas até ao momento, esta está ser a que vem obtendo resultados mais interessantes, o que é normal uma vez que à medida que vamos desvendando alguns dos pequenos segredos deste nosso vizinho planetário vamos orientando as futuras experiências com maior objectividade e acutilância.


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/Texas A&M University

Thursday, 5 June 2008

Afinal, Há ou Não Marcianos?

Esta pergunta continua a pairar no ar, e creio que continuará por muito mais tempo, mas talvez esteja apenas a ser pessimista. No entanto, o Departamento de Defesa dos EUA guardava muito secretamente uma fotografia comprometedora aquando da chegada da Spirit a Marte. Por artes obscuras, este blogue tomou essa imagem que demonstra, para além de qualquer dúvida, que existe vida em Marte. E mais, estas formas de vida, cientes das merdas que os Americanos fazem na Terra, não foram de modas e manifestaram o seu veemente protesto pela invasão do seu espaço territorial.


Agora vejamos algumas outras notícias, mais actuais:


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

A imagem acima representa um padrão poligonal no solo resultado das contracção de gelo a baixas temperaturas, o qual quando volta a expandir com o aumento da temperatura, provoca o empolamento que vemos na imagem delimitado pelas depressões que mostram a forma poligonal. Agora os problemas: em primeiro lugar ainda não há notícias que se tenha descoberto gelo (ou seja, água) em Marte. Em segundo lugar, os modelos numéricos que explicam este fenómeno prevêm que hajam duas categorias de polígonos a escalas diferentes, 5 m e 22 m. Os de Marte têm entre 2.6 e 4.6 m, e alguns com apenas 1.4 e 2.4 m. Ao contrário do que é normal, em ciência as coisas só se tornam verdadeiramente interessantes quando não colam.

Finalmente fica uma imagem capatada da Phoenix a descer sobre o Planeta Vermelho, cerca de 3 minutos antes de aterrar, no momento em que atravessava a Cratera de Heimdall.


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

Monday, 26 May 2008

Is There Life on Mars?

Para além de ser o título de uma belíssima canção de David Bowie, é também o mote que persegue a sonda Phoenix, que às primeiras horas de hoje aterrou próximo do polo norte do Planeta Vermelho, qual reedição de uma Guerra dos Mundos, mas vista do lado de cá. Uma das primeiras imagens recebidas e retirada do site da NASA mostra uma planície a perder de vista, cheia de calhaus e fracturas poligonais no solo. Este é um aspecto morfológico sobejamente conhecido na Terra, resultado da fragmentação devido às amplitudes térmicas extremas a que a superfície está sujeita e que levam à formação de gelo no subsolo e subsequente fragmentação deste por expansão de volume do gelo. O problema é que não se detectou gelo (ainda).


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona