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Tuesday, 3 January 2012

E Vão Cinco Noves Fora Nada

Meus amigos e ocasionais transeuntes, este blogue faz hoje 5 anos que viu a luz do dia. Ao fim de cinco anos teve altos e baixos, mas ultimamente mais baixos que altos. Este dia vai ser também aquele que vou concretizar o que já pairava na minha cabeça há um tempo: fechar o tasco permanentemente. Tudo tem um tempo e uma altura certa para existir. É melhor acabar de vez do que arrastar um cadáver. Se muitas bandas fizessem o mesmo teríamos menos ruido à nossa volta. Já agora, se querem mesmo saber porque fechamos, foi mesmo o aumento do IVA. Como não tenho ninguém para despedir, fecho a loja. E vou seguir o conselho do nosso PM e emigrar, como de resto a Jarónimo Martins já fez. E também vou para a Holanda, mas vou vender cannabis.

Antes ficam aqui as minhas breves impressões do ano que findou. Em consonância com a crise, as escolhas são escassas e reflectem apenas o que tive pachorra de ouvir/ver/ler.

Os melhores de 2011, categoria músicas para bailarico:

1. Low – C'mon
seguidos de:
Veronica Falls – "Veronica Falls"
PJ Harvey – "Let England Shake"
Dum Dum Girls – "Only in Dreams"

Engracadito:
Tennis – "Cape Dory"

Um bom regresso:
Wire – "Strays"

Não Há Pachorra:
Radiohead – "The King of Limbs"

Com mais do mesmo, perdeu-se a graça:
Fleet Foxes – "Helplessness Blues"

Boa Canção que irrita muita gente:
Lana del Rey – "Video Games"

Os melhores de 2011, categoria concertos:
1. Swans @ Aula Magna
2. Bonnie “Prince” Billy @ Teatro Maria Matos
3. Ben Frost @ Teatro Maria Matos
4. Six Organs of Admittance @ Teatro Maria Matos
5. James Blackshaw + Nancy Elizabeth @ Teatro Maria Matos
6. Max Richter @ Teatro Maria Matos

Como podem reparar o Teatro Maria Matos é um espaço a ter cada vez mais em conta, inclusivamente financeira.

Os melhores de 2011, categoria filmes:

1. Sangue do Meu Sangue de João Canijo
seguido de
A Árvore da Vida de Terrence Malick
Beginners de Mike Mills
Mães e Filhas de Rodrigo García
O Discurso do Rei de Tom Hooper
Inception de Christopher Nolan
O Castor de Jodie Foster

Os melhores de 2011, categoria leituras:
"A Questão Finkler" de Howard Jacobson, por ser o único título editado em 2011 que li.
Com uma atenção especial a:
"O Retorno" de Dulce Maria Cardoso.
por ainda não ter lido, mas estar na já calha finalmente depois de me o subtrairem por duas vezes seguidas.

E por aqui me fico, com uma despedida em grande:



The Dave Brubeck Quartet – Take Five

Hasta Siempre. Vemo-nos na Revolução que tarda em chegar.

Sunday, 16 January 2011

Mais Balanços de 2010


Numa perspectiva de dar a conhecer os gostos pessoais e assim contribuir, como outros contribuem para comigo, para despertar a curiosidade do que ainda não se provou.

Cinema:

O ano de 2010 não foi particularmente memorável. Houve um punhado de filmes que me despertaram suficientemente o interesse. Outros houve que perdi e espero recuperar mais tarde, como por exemplo, “O Segredo dos Seus Olhos”. O veredicto:


1. A Single Man – Tom Ford
2. O Escritor Fantasma – Roman Polanski
3. Shutter Island – Martin Scorcese
4. A Estrada – John Hillcoat
5. A Rede Social – David Fincher
6. Nas Nuvens – Jason Reitman
7. A Origem/The Inception – Christopher Nolan
8. Tamara Drewe – Stephen Frears
9. Tudo Pode Dar Certo – Woody Allen

Para esquecer:
Alice no País das Maravilhas – Tim Burton

Concertos:

Muito mais abonado que em anos anteriores, alguns foram objecto de comentário aqui na chafarica:


1. Grizzly Bear @ Coliseu dos Recreios
2. Sonic Youth @ Coliseu dos Recreos
3. Tindersticks @ Coliseu dos Recreios
4. Faust @ Teatro Maria Matos
5. The Walkmen @ Coliseu dos Recreios

O Coliseu levou claramente a melhor, o que é mau porque as condições sonoras são frequentemente sofríveis. De entre os que actuaram nas primeiras partes:


1. Danças Ocultas (1ª parte Tindersticks)
2. Cibelle (1ª parte Grizzly Bear)
3. Os Golpes (1ª parte The Walkmen)
4. Gala Drop (1ª parte Sonic Youth)

Finalmente, não vou muito em novidades literárias porque tenho dificuldade em distinguir o trigo do joio do mar que se publica. Refiro apenas um monumento que li no ano de 2010 e que me deixou de rastos:


“As Benevolentes” de Jonathan Littell

Até breve!

Wednesday, 3 February 2010

O Fim da Estrada


O livro “The Road” de Cormac McCarthy, foi não só amplamente elogiado como acabou vencedor de um Pulitzer, pelo que deu naturalmente lugar a uma versão cinematográfica, estreada entre nós há umas semanas. Não sendo conhecedor da obra de McCarthy, senão pela mão dos irmãos Coen através do filme onde a força presencial daquela personagem inacreditável interpretada pelo Javier Bardem é esmagadora, a curiosidade para ver o filme foi ainda alimentada pela sugestão do camarada M.A. cujo conselho foi bastante oportuno.

Falar deste filme não é fácil. Tendo sido visionado há mais de uma semana, os seus ecos ainda reverberam no meu cérebro. Não direi que estamos perante um filme perfeito ou de uma obra-prima, mas estamos seguramente perante um dos filmes mais perturbantes que me foi dado a conhecer nos últimos anos. Para começar, vamos depurar alguns detalhes que, embora façam pouco sentido, são na realidade irrelevantes para o essencial da história mas que convirá esclarecer. O cenário pós apocalíptico que se vive no período em que decorre a acção não permitiria a sobrevivência da espécie humana, ou de qualquer espécie superior, em detrimento das restantes espécies de quem as primeiras dependem e que basicamente foram extintas por um processo ou mecanismo que nos é completamente desconhecido. Aparte esta imprecisão científica que, conforme se afirmou, se revela irrelevante, o autor apenas pretende tornar ainda mais dramática e desesperante a situação em que a espécie humana se vê confrontada, como uma espécie de gedanken experiment, facto que desde logo desclassifica o filme (ou o livro) como ficção científica. E esta é a pedra de toque de tudo o que está por detrás da história. Tal situação limite leva a espécie humana a cometer actos de perfeita barbárie, do qual o canibalismo não será seguramente o único, sob condições que não são passíveis de imaginarmos, nem sequer perante as maiores catástrofes que a humanidade já tenha passado em qualquer período da sua história. Neste contexto somos levados a seguir um pai e um filho na luta diária pela sobrevivência, mas mais importante, na sua luta pela manutenção e preservação da réstia de humanidade que sobra num mundo hostil e sem esperança. É essa esperança que os faz lutar e viver, como a crença num El Dorado que não seja apenas uma simples miragem das memórias de um passado ao qual não é possível regressar. A realização é contida e a ambiência do cenário é transmitida pelos tons cinzentos predominentes, de um céu permanentemente encoberto de cinzas e chuvoso, de locais urbanos em ruinas deixados a um abandono desolador, de um mar (azul, não era?) envolvido por uma bruma persistente que não quer desaparecer. Algumas cenas são chocantes, sem contudo entrarem pelo voyeurismo barato e pornográfico em que muitos filmes tentadoramente caem. Depois há o trabalho de actores, pois é sobre eles que recaem as despesas da história, e bem, pois é algo que um certo cinema mainstream tem vindo a passar progressivamente para segundo (ou mesmo enésimo) plano. A transfiguração que John Hillcoat impôs aos que nos aparecem no ecrã é extraordinária a ponto de tornar quase impossível reconhecermos algumas das faces do cinema (Robert Duvall é um exemplo). Viggo Mortensen mostra-nos mais uma vez a sua capacidade em compôr personagens de valor singular, ao nível do melhor que nos habituou nas duas experiências que partilhou com Cronenberg (A History of Violence e Eastern Promisses). Os flashbacks tornam-se, em certa medida, supérfulos e irrelevantes, mas não ao extremo a que alguma crítica os colocou. Em última análise, foram uma opção do realizador, mas também poderiam não ter sido. Finalmente, falta mencionar o desconforto com que o final deixa o espectador, pois a sensação ambígua em perceber se a história continua ou não bem, estranhamente persiste. O retrato não podia ser mais desencantado e deprimente e qualquer mensagem de esperança vê-se, no máximo, pela greta de uma porta que não sabemos quando será fechada. Daqui sobra agora a vontade de ler o livro, pois se os elogios já eram superlativos e faziam temer a incapacidade de uma trasnposição cinematográfica decente, este resultado só antevê que o melhor ainda estará para vir.


(4/5)

Sunday, 3 January 2010

Three of a Perfect Pair

É verdade. Passaram-se 3 anos desde que tive a infeliz ideia, diria mesmo que a todos os títulos lamentável, de começar este blogue. Como o aniversário (quase que) coincide com o início do novo ano, faremos uma breve recapitulação sobre algumas das coisas boas do ano passado. São apenas as minhas impressões sobre o (pouco) que tive oportunidade de acompanhar, ver ou fazer, por isso, nada de exaustivo.

Cinema: “Gran Torino” de Clint Eastwood e “Inimigos Públicos” de Micheal Mann;
Teatro: “O Ano do Pensamento Mágico” de Joan Didion com Eunice Muñoz no TNDM;
Concerto: Wilco no Coliseu dos Recreios, Lisboa;
Leitura de “O Leopardo” de Giuseppe Tomasi di Lampedusa;
Música: Ainda não, por razões sobejamente conhecidas dos frequentadores deste tasco, mas poderei afirmar que Grizzly Bear, Bill Callahan e The Legendary Tiger Man estão, até agora, entre os eleitos.

O que foi para esquecer:
A minha persistência em continuar por aqui, que já se assemelha perigosamente à atitude do Pedro Santana Lopes na política.

Quanto ao título, é apenas uma referência aos King Crimson, sobre quem espero em breve vir a escrever algo na continuação de uma rubrica que não está esquecida.


Um Bom 2010!

Thursday, 23 April 2009

Dia Mundial do Livro



Que melhor forma de comemorar o dia senão dando a sugestão de leitura de um monumento? Pois é disso mesmo que se trata, "A Condição Humana" de Somerset Maugham é um monumento artístico maior da literatura universal. É também um enorme repositório de ideias onde, curiosamente, vemos escritores de segunda ir buscar "inspiração" disfarçada de quase plágio. Uma vida não merece ser passada sem ter tido a oportunidade de contemplar tamanha beleza. Pena é que não haja nenhuma edição recente em língua portuguesa, restando apenas a dos Livros do Brasil.

Monday, 12 January 2009

Que o Céu Não Nos Caia em Cima da Cabeça



Foi em 1959 que apareceu a primeira aventura de Asterix, Astérix, Le Gaulois, editado pela Dargaud. Fará 50 anos a 29 de Outubro, quando em 1959 foi iniciada a sua publicação na revista Pilote, que duraria até 14 de Julho de 1960. O álbum conheceria a luz do dia em 1961. Personagem criada pela dupla René Goscinny (textos) e Albert Uderzo (desenhos) foi das mais famosas e hilariantes no seio da BD franco-belga. O humor mordaz de Goscinny aliado ao traço bonacheirão de Uderzo fizeram de Asterix uma referência para toda uma geração que cresceu a ler as suas histórias, que para além de nos irem ensinando alguma História, tinham a característica de brincarem com a identidade europeia e as idiossincrasias dos povos a que não eram estranhas algumas referências à actualidade geopolítica. A morte de Goscinny em 1977 deixou Asterix órfão de metade da criatividade. Albert Uderzo continuou a série até aos dias de hoje, mas a pujança e originalidade da série ficaram para sempre amputadas e mancas, sendo Astérix chez les Belges a última contribuição de Goscinny, publicado já postumamente em 1979.


Friday, 26 September 2008

O Flautista às Portas da Madrugada


Certamente alguns dos visitantes (e leitores) ocasionais deste estabelecimento, se lembrarão de uma série de animação na tradição inglesa que em tempos adaptou a obra maior de Kenneth Grahame, “O Vento nos Salgueiros”. Aí se contavam as histórias de um grupo de animais que viviam no campo e cujas peripécias do dia-a-dia eram um veículo para a transmissão dos valores da amizade e da coragem. Fomos apresentados ao Texugo, representando a experiência e a sensatez, adquirindo um estatuto de sábio conselheiro e líder do grupo, à Toupeira, retrato da simplicidade e humildade que um dia decidiu ir viver para junto do rio, ao Rato, personagem de uma vivacidade inesgotável e possuindo uma vontade reprimida de ver “outros mundos”, e ao Sapo, figura impulsiva, arrogante, egoista, centrada em si própria e que tem de ser sempre chamada à razão pelos seus amigos (que nunca desistem de o fazer, nem nunca o abandonam). Há cerca de um ano, a editora Tinta de China, fez saír entre nós mais uma edição desta bela obra. Com a tradução irrepreesível e beleza de escrita extraordinária de Júlio Henriques, é um livro, no mínimo, obrigatório. As páginas devoram-se depressa mas muitas vezes somos nós próprios que refreamos a leitura, pois a escrita é de uma elegância e beleza como não tenho tido oportunidade de admirar há muito tempo. Júlio Henriques faz, nesta obra, um trabalho notável que eleva a tradução a um patamar equiparável ao da própria criação literária. Infelizmente não é o que se assiste na esmagadora maioria dos casos. As ilustrações na edição são as originais e famosas de E. H. Shepard, e na contracapa encontramos um excerto de um texto de A. A. Milne, o responsável por esta obra não ter caído na obscuridade, que vale a pena transcrever o seguinte:

“Podemos discutir acerca dos méritos da maior parte dos livros e, na discussão, compreender o ponto de vista do interlocutor. Podemos até chegar à conclusão de que, afinal, ele tinha razão. Mas não podemos discutir acerca de «O Vento nos Salgueiros». O rapaz apaixonado oferece-o à namorada e, se ela não gostar, pede-lhe que devolva as cartas de amor que lhe escreveu. O velho experimenta-o no seu sobrinho, e altera o testamento em conformidade. Este livro é um teste de carácter.”

Foi publicado em 1908, faz por isso 100 anos este ano.

E porque as referências ao livro se encontram porventura escondidas em locais de exposição bem mais mediática, um dos amantes desta obra dava pelo nome de Syd Barrett, razão pela qual o título do primeiro álbum dos Pink Floyd é a transcrição do título do capítulo 7 da obra de Grahame: “The Piper at the Gates of Dawn”. E assim se criou outro clássico, desta vez há 41 anos, para ser mais exacto.

Friday, 6 June 2008

Um Livro, Um Disco, Um Filme

Entrar em cadeias faz-me sentir preso e eu prezo a minha liberdade, mas em tempos a nossa amiga Rita desafiou a equipa cá da casa para uma destas actividades que acabou por não acontecer. Recentemente, nova investida aconteceu e em face do tema até acho que vale bem a pena dedicarmos um tempo das nossas vidas a eleger um livro, um disco e um filme que, de alguma forma, nos tenha marcado, ainda para mais com o aliciante de ser um português e um internacional. Falarmos sobre os nossos gostos e do que nos marcou é também uma forma de falarmos de nós próprios e de nos darmos a conhecer. Ora aqui vai:

Um Livro

Nacional: “Finisterra” de Carlos de Oliveira. Há poucos livros que tenha lido e que tenha sentido vontade de os voltar a reler no instante seguinte a os ter acabado. Mais raros são aqueles em que isso aconteceu de facto. Este foi um desses casos raros. Nem sequer consigo explicar porquê, mas a leitura deste livro de um autor português muito esquecido é de uma beleza indescritível e é pura poesia romanceada (ou romance poético, como preferirem). Não se explica, lê-se e é urgente passar por ele.

Internacional: “Narciso e Goldmundo” de Hermann Hesse. Uma busca da vida, da beleza e perfeição das coisas. Para sempre há-de ficar retida na minha memória a descrição notável da ressaca após alguém ter a noção consciente de que produziu uma obra-prima. E um confronto de personalidades, algo que já tinha sido explorado em “Ele e o Outro” (“Klein und Wagner”) de forma menos conseguida embora igualmente brilhante.

Um Disco

Nacional: “Coisas do Arco da Velha” da Banda do Casaco. Não foi algo de imediato, mas conheci este disco na altura em que saíu em 1976, e passados estes anos fui-me apercebendo de como um bando de visionários transformou e transfigurou por completo os cânones da música tradicional portuguesa, misturando um manancial de estilos da forma mais imaginativa possível. Olhando para as obras produzidas em solo luso, nada até aos dias de hoje sequer se assemelha ao que a Banda do Casaco conseguiu na época em que reinaram. E pensar que eram conotados como reaccionários de direita é a prova acabada da imbecilidade e provincianismo que, até aos dias de hoje, nos afecta de forma profunda.

Internacional: “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis. Estávamos em finais de 1974 e não é propriamente normal que um puto que tinha apenas 9 anos de idade andasse a ouvir coisas deste calibre. Acontece que o irmão de 17 anos ouvia destas coisas e era o modelo a seguir. Ao sexto disco de estúdio, os Genesis gravam a sua obra-prima, um disco ecléctico a piscar o olho à modernidade, com um forte cunho pessoal de Peter Gabriel em consequência do qual acaba por gerar tensões na banda e levar ao seu abandono do grupo no ano seguinte. Antes da despedida, o tour de apresentação do álbum ainda passou pelo Dramático de Cascais, coisa rara na altura ter bandas destas a pisar solo nacional, e é o concerto da minha vida que nunca vi (com 9 aninhos, o que é que eu estava à espera?). Durante anos este disco atormentou-me pela sua estranheza sendo uma obra singular na carreira dos Genesis. Hoje, não tenho dúvidas que o meu gosto musical foi muito influenciado por este disco (e outros também, obviamente), abrindo-me os olhos (e os ouvidos) para as manifestações mais estranhas da música.

Um Filme

Nacional: “Recordações da Casa Amarela” de João César Monteiro. Continuo a achar que é quase uma obra singular no universo cinematográfico português: bem realizada, melhor argumentada e competentemente filmada. Em vez de andarmos com acessos de intelectualismos ou banalidades telenovelescas, ou seja, o 8 e o 80, bem podiam os realizadores aprender a olhar para os clássicos e preocuparem-se em fazer apenas uma coisa: um simples filme!

Internacional: “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick. No tempo em que haviam reposições nos cinemas em Lisboa, ver este filme no grande ecrã do Apolo 70 foi uma experiência única. Uma Obra de Arte (assim mesmo, com maiúsculas)! O poder visual e musical, as valsas no espaço, o negro e o silêncio, o Homem e a Máquina, a tecnologia alienígena como instrumento do divino. Uma referência absoluta. Depois deste filme, a ficção científica nunca mais poderia ser a mesma.

Para finalizar, a todos os que resistiram a ler isto até aqui, levam com a maldição de fazerem o mesmo no vosso blogue, sabendo de antemão que se não o fizerem a vossa vida vai caír em desgraça, o Sócrates nunca mais vai saír do governo, os combustíveis irão subir mais 500%, o Santana Lopes é nomeado presidente do PSD porque a Manuela Ferreira Leite vai aceitar um cargo de Provedora dos políticos da 3ª idade, e o país irá mergulhar numa depressão profunda que o vai fazer desligar para sempre do futebol. Por isso, vejam lá o que fazem, está bem?

Monday, 12 May 2008

Euler Viveu Aqui

Já estava preparado desde Dezembro mas acabou por ir ficando no baú dos registos, e isto porque em 2007 se comemoraram os 300 anos do nascimento do matemático suiço Leonhard Euler (1707-1783). Devo dizer que o título e a ideia de escrever sobre esta efeméride proveio da leitura do livro “O Fim do Mundo Está Próximo?” de Jorge Buescu (Gradiva, 2007) e que aconselho vivamente.

Entre algumas das curiosidades sobre Leonhard Euler conta-se a sua extraordinária produção científica, sendo o matemático mais produtivo de todos os tempos (e direi mesmo o cientista mais produtivo de todos os tempos). Euler escreveu qualquer coisa como mais de 850 artigos científicos e dezenas de livros, havendo ramos inteiros da física e da matemática fundados por si. Para termos noção da dimensão da sua produtividade, em 1907 a Suiça decidiu dar corpo à publicação das suas obras completas, Opera Omnia. Cem anos passados, 76 volumes e cerca de 30000 páginas depois, a sua publicação ainda não está concluída!

As contribuições de Euler para os diferentes ramos da matemática e física incluem o cálculo diferencial e integral, equações diferenciais ordinárias e parciais, teoria de números, geometria, álgebra, mecânica, hidrodinâmica, astronomia, topologia e teoria dos grafos (em resultado do famoso problema das “Pontes de Konigsberg”). Quem conhece estas matérias sabe o que é o Método de Euler, a série de Euler a qual converge para o número de Euler, e (uma das constantes fundamentais da matemática e da natureza), a Regra de Euler, a descição euleriana na dinâmica, etc. A Euler se deve igualmente a equação que foi votada entre os matemáticos como a mais bela da história da Matemática, que relaciona e unifica de uma forma espantosa os cinco números, e, π, i, 0 e 1. Para o leitor menos familiarizado, direi apenas que e e π são constantes (ambos números transcendentes), sendo π a constante que relaciona o perímetro e o diâmetro de qualquer circunferência e é conhecido desde a Grécia antiga, i é o número imaginário e representa o valor da raíz quadrada de menos um.


Vários são os livros que dedicam à obra de Euler uma atenção considerável, mas por agora recomendaria “Dr. Euler's Fabulous Formula: Cures Many Mathematical Ills” por Paul J. Nahin (Princeton University Press, 2006), mas somente ao experimentado em Matemática.

Para saber mais sobre Euler.


Modificação do Cartoon de Herblock (Herbert Lawrence Block) publicado em 19 de Abril de 1955 no Washington Post
Figura Original

Thursday, 20 March 2008

Viva a Primavera

Pois é! A Primavera é uma estação de renascimento e convite ao enamoramento. Para celebrar a efeméride, junto a capa de um delicioso livro de Michel Bridenne, que recebeu na devida altura a edição em Portugal pela extinta Meribérica/Liber. Cheio de um humor se(x/ns)ual à medida da ilustração da capa, protagonizado por animais com os quais sentimos uma cumplicidade imediata, é um dos melhores momentos de boa disposição que a BD produziu nos últimos anos. De salientar o prefácio de Soulas onde, a porpósito da pouca importância que os autores de BD têm, afirma: “Quanto melhor conhecemos as pessoas pseudo-importantes, tanto mais gostamos dos animais... de Bridenne, claro”.

Michel Bridenne – Fièvre de Printemps, Ed. Glénat, 1993

Boa Primavera!

Thursday, 3 January 2008

Um Ano de Misérias e Desventuras


Este blogue miserável faz 1 ano e... inacreditavelmente ainda mexe!

Em face de tamanha casmurrice por parte da equipa cá da tasca, iremos homenagear o nosso estimado padroeiro, Douglas Adams, com uma referência ao seu livro de cujo título aqui a chafarica retirou o nome, publicado em 2004 pela Saída de Emergência. Se o estimado cliente é daqueles que ainda não leu a obra máxima de Douglas Adams, ainda tem este ano para se redimir. Vamos também deixar em audição o tema “Paranoid Android” dos Radiohead, pois é uma referência à personagem Marvin, the Paranoid Android, dessa maravilhosa trilogia que é “The Hitchhiker's Guide to the Galaxy”. Além disso, é um tema composto ao melhor estilo do “velho” Rock Progressivo, por muito que esta observação chateie os Radiohead e muita gente a quem o estilo causa arrepios de espinha. Ora tomem!




Convém lembrar que neste espaço não se exultam, normalmente, os anos findos. Para nós, são sempre o pior que ocorreu e por isso os anos que vêm são repetidamente salutares e bem-vindos na esperança de que o que se lista abaixo poder, de uma vez por todas, não se voltar a repetir.

O pior de 2007:

1. Não ter desistido de escrever neste blogue (o futuro vai continuar negro).
2. Ter recebido uma carta elogiosa do Paulo Portas.
3. Não ter tido tempo de arranjar uma licenciatura em engenharia antes de a Universidade Independente fechar.
4. O Santana Lopes ter deixado de andar por aí para passar a andar por aqui (esperemos que isso não inclua este blogue).
5. Ter recebido uma notificação para proibir os nossos clientes de fumarem a partir deste ano enquanto vêm aqui ler umas coisitas parvas e sem interesse.

Olha! Só agora reparei que este é o post nº 100! Parabéns, estimado cliente, acabou de ganhar um conjunto de senhas pré-compradas para a linha 83 da Carris!

Bom 2008!

Sunday, 10 June 2007

O Restaurante Errou


Fui à feira do livro este Sábado naquela que terá sido, provavelmente, a primeira e última visita da edição deste ano. Infelizmente, o tempo escasseia para estas coisas... Deu, no entanto, para ter uma percepção da oferta, a qual se encontra longe dos tempos áureos da feira. Na segunda passagem pelos expositores, dei de caras com um livro que me chamou a atenção: “O Estranho Caso do Cão Morto” de Mak Haddon e na sua 5ª edição pela Editoral Presença, tendo sido originalmente publicado em 2003. Pois esta é, nada mais nada menos que, a tradução do já aqui mencionado “The Curious Incident of the Dog in the Night Time”, em cujo post (e até ao dia de ontem) me mostrava convencido que não existia tradução em Portugal (pelo vistos na revista Visão, cuja notícia me inspirou o post, também não). Pois bem: a Equipa do Restaurante errou! E assim pede desculpa aos estimados clientes, incitando-os agora a comprarem urgentemente este livro e deliciarem-se com esta história. Esperemos que a tradução não tenha feito muitas mossas, mas no título em português já se perdeu a citação a Sir Arthur Conan Doyle.

Thursday, 7 June 2007

O Efeito “Caracóis de Ouro”


Já andava prometido e tinha este texto escrito há um tempo quando dei conta, nestes dias, da publicação do livro “The Goldilocks Enigma: Why Is the Universe Just Right for Life?”, por Paul Davies (Allen Lane, 2006) e que trata precisamente do assunto aqui abordado.

Pois bem, para quem não conheça a história infantil, “Caracóis de Ouro” (Goldilocks) era uma menina que um dia, quando passeava na floresta com um mau humor tremendo, decidiu entrar descaradamente na casa de uma família politicamente correcta de 3 ursos (pai, mãe e filho) e desatar a bisbilhotar e usar sem permissão tudo o que lhe aparecia à frente. A situação descrita na história e razão deste post é a particularidade de somente o que pertencia ao urso filho servir na perfeição a Goldilocks (“it’s just right” como afirmava). E o que é que isto tem a ver com ciência?

Tal como a moral de uma história, com o “Efeito Caracóis de Ouro” pretende-se realçar que há certas coincidências (ou serão meras limitações do nosso conhecimento?) que parecem ter-se conjugado todas para o nosso bem-estar, seja para a nossa própria existência no Universo ou na Terra. No primeiro caso, podemos evocar a raíz desse problema no chamado “Princípio Antrópico”. Dito de uma forma muito (muito) simples, admite que o Universo é como é porque nós existimos e, enquanto espécie inteligente, podemos efectuar observações nesse mesmo Universo. Existem contudo outras variantes do princípio, originalmente proposto pelo astrofísico Brandon Carter em 1973. John D. Barrow é um astrofísico inglês que tem livros dedicados a este assunto, um dos últimos, “The Constants of Nature: From Alpha to Omega” (Jonathan Cape, London, 2002), foi de onde retirei estes exemplos. Não deixa de ser inquetante que quando se consideram os valores que certas constantes da Natureza devem tomar para que o Universo seja habitável se chegue a uma desconfortável zona restrita, apesar dela representar a confortabilidade da nossa existência. Ou seja, considerando a razão entre as massas do electrão e do protão e a constante da estrutura fina (nome para uma constante que se define pelas constantes da carga do electrão, de Plank, velocidade da luz no vácuo, gravítica universal e massa do protão, e cujo valor é aproximadamente 1/137), a área onde se podem desenvolver estruturas no Universo é deveras apertada: um pouco mais de uma e não existem estruturas ordenadas; um pouco menos de outra e não existem estrelas; um pouco mais de ambas e não existem átomos não relativistas... Se metemos a força nuclear forte ao barulho também não chegamos muito longe: de menos e os elementos essenciais às formas de vida que conhecemos não se formam; demais e forma-se o diprotão (hélio-2) que permite um consumo rápido do hidrogénio das estrelas, ou seja, consomem-se demasiado depressa e não sobra tempo suficiente para originar estruturas vivas complexas. Em termos do Universo, parece que as leis da Natureza são “just right” para nós pulularmos por aqui e eu andar a chatear quem (ainda) tem a paciência de ler esta prosa. Filosoficamente, para mentes racionalistas, não deixam de ser questões desconfortáveis para as quais não há uma resposta satisfatória. Alguns, mais afoitos, até se aproveitam da situação para propalar que esta é uma prova de que Deus existe. Não exageremos! No entanto, até parece que o Universo foi feito para nós, e de encomenda!... Será?

E o Planeta Terra? Nos últimos tempos têm-se descoberto vários planetas extra-solares e é óbvio que existe na mente de quem empreende estas buscas ou de quem somente vai dando conta das notícias, que há uma esperança de, um dia, se descobrir um planeta como a Terra, com as condições favoráveis para o desenvolvimento da vida. E que condições são essas? Quando alguns cientistas começaram a pensar de forma mais séria sobre o assunto, chegaram à conclusão que a Terra parece ser bem mais especial do que se pensava. Mais, que a nossa existência (ou sobrevivência) resulta de um punhado de eventos felizes e coincidentes, tão difíceis de conciliar de uma só vez que a probabilidade, sequer, de se terem repetido no Universo é extremamente baixa. Nesse sentido, Peter Ward e Donald Brownlee, geólogo e astrónomo, respectivamente, da Universidade de Washington em Seattle, publicaram o livro controverso “Rare Earth” (Copernicus, Springer-Verlag, 2000) e que acaba por ser uma resposta à equação de Drake, apresentada num post anterior. Nele se argumenta porque é que a vida complexa deverá ser efectivamente rara no Universo. A talhe de foice vêm também as diversas condições para o desenvolvimento e sobrevivência da vida. Desde logo a nossa posição na galáxia, a Via Láctea, o tipo de galáxia e a idade actual do Universo. Mas comecemos por dar outros exemplos, um por um:

1. A distância do Sol: mais perto e isto era um forno; mais distante e era um frigorífico;
2. A massa do Sol: dá-lhe um tempo de vida suficientemente longo e não acaba de forma catastrófica, além de não emitir muitos raios ultra-violetas (não fosse a nossa camada de ozono...)
3. Órbitas planetárias estáveis: nomeadamente a existência de planetas com uma massa grande;
4. A massa da Terra: consegue reter uma atmosfera (um problema em Marte) e mantém um interior activo que resulta na Tectónica de Placas (os continentes andam todos à deriva na superfície do planeta). A Tectónica de Placas é uma manifestação externa do interior tumultuoso que permite, entre outras coisas, manter um termostato à custa do CO2 e dos silicatos através da meteorização (alteração) das rochas (só válido à escala dos milhões de anos) e gera o campo magnético terrestre sem o qual éramos continuamente bombardeados por raios cósmicos de alta energia;
5. A presença de Júpiter: devido à sua enorme massa pode enviar para longe de perigo um grande número de cometas e asteróides. Se a Terra estivesse constantemente a ser bombardeada (como já foi no passado remoto, e tem sido embora com uma frequência baixa) não havia vida que perdurasse por muito tempo;
6. A Lua: a sua dimensão e distância estabiliza a inclinação do eixo de rotação da Terra em relação à sua órbita. O próprio ângulo, não sendo muito grande, permite que as estações existam e não sejam muito severas.

E existiriam ainda alguns pontos adicionais... Em suma: “It’s just right!” mais uma vez. Is it?

Pode ser uma profissão de fé como outra qualquer, mas para mim tudo isto é sinal de quão pequenos somos perante a nossa ignorância. E continuo a dispensar a existência de Deus sem qualquer problema.

Tuesday, 22 May 2007

Hugo Pratt



O nome de Hugo Pratt diz certamente menos à maioria das pessoas que o da sua criação artística maior: Corto Maltese. Mas este texto pretende, acima de tudo, falar mais do homem e menos da obra, a pretexto de um livro que já saíu em finais de 2005 sob o título “O Desejo de Ser Inútil” e que li com um prazer imenso nas férias de 2006. É uma autobiografia, em estilo de entrevista, conduzida por Dominique Petitfaux que passa em revista a vida e a obra de Hugo Pratt. Nele encontramos o homem fascinado pelas viagens, os livros de aventuras, o esoterismo, a Veneza da sua infância, a Cabala e o judaísmo e, claro, as suas belas mulheres. Aqui se alicerça muito da sua obra gráfica, em especial nos livros de Corto Maltese, cujo espírito livre e aventureiro não poderia ser melhor alter-ego para a personalidade de Pratt. O próprio Pratt foi um viajante compulsivo, peregrino de mitos e lugares espalhados pelo Mundo fora, construindo assim parte da matéria prima com que alimentava os livros de aventuras que desenhava e publicava. As suas visões de adolescente na Itália fascista não deixam de ser curiosas, e até surpreendentes atendendo ao sentimento solidário entre todos os seus amigos venezianos (e restantes habitantes de Veneza, supõe-se). Por isso, era comum haver uma amizade cúmplice entre pessoas entricheiradas em lados diferentes da barricada. A passagem pela Eritreia é bastante marcante já que é aí que o seu pai, militar italiano deslocado durante a guerra, acaba por morrer. É igualmente visível o sentimento orgulhoso de uma ascendência que provém dos lugares mais diversos (Irlanda, França e Itália, com uma costela judaica). Aliás, Hugo Pratt fez jus a essa tradição deixando filhos pelo Mundo como na Argentina ou Brasil (um deles numa tribo índia da Amazónia). No fim, nota-se a autoridade de um homem que viveu mais que muitos de nós algumas vez conseguiremos viver.


A segunda parte do livro debruça-se sobre a obra nas diferentes vertentes. Um espelho da sua vida e dos seus próprios interesses, fascinado pela beleza feminina, é um belíssimo retrato que nos permite compreender também a pessoa que está para além da sua obra. De autor anónimo até ao reconhecimento internacional a grande escala, o percurso foi lento mas seguro, mantendo Pratt a sua independência para com os meios culturais e intelectuais onde se movia. No final, uma adenda à que foi a segunda edição deste livro, dando conta dos últimos dias de Hugo Pratt até à data de 20 de Agosto de 1995, quando faleceu. As ilustrações que acompanham o livro são um precioso complemento à leitura e muitas vezes uma extensão necessária para acompanhar o texto escrito. Finalmente, ainda somos presenteados com um conjunto de aguarelas inéditas. Um livro a não perder, quanto mais não seja por nos mostrar como a inutilidade de certas coisas se torna tão útil nas nossas vidas.

Hugo Pratt - O Desejo de Ser Inútil
Dominique Petitfaux
Relógio D’Água, 2005

Monday, 23 April 2007

Coisas Obscuras Não Identificadas


É melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão – provérbio chinês.

É este provérbio que abre as primeiras páginas do livro “Um Mundo Infestado de Demónios” de Carl Sagan, publicado pela Gradiva em 1997. Estamos num mundo que se encontra, a vários níveis, com falta de referências e em resposta a isso proliferam as mais estranhas crenças e devoções, sejam as cientologias, cristaloterapias, ou, claro está, a visão de OVNI’s e crenças em extraterrestres com capacidades quase divinas. O que despertou este texto não foi tanto o que li no blog da Radar acerca do convidado do programa “Fala com Ela”, mas algumas palavras que proferiu na entrevista e que apanhei ocasionalmente durante uns breves minutos. Afirmar-se que a visão de OVNI’s constitui uma espécie de estado espiritual é, no mínimo, estranho, mas cada qual pensa o que quiser sobre o assunto. Agora, enquanto pessoa de ciência cabe-me alertar consciências para uma realidade que pode ter tanto de interessante como de perigoso. Acima de tudo porque o que está na base de muitas destas crenças e pseudociências não é mais que uma fé irracional por parte dos potenciais seguidores ou crentes. A ciência faz-se do oposto disto! A fé é substituida pelo cepticismo e o irracional pelo racional. Potenciar as pseudociências apenas traz obscurantismo, o qual foi provado pelos europeus durante a Idade Média. Não fossem os judeus e os árabes, e muitos dos textos clássicos gregos, fundadores da ciência e filosofia modernas não teriam, se calhar, chegado às mãos da cultura ocidental. Não será por acaso que Einstein considerava um milagre a ciência ter sobrevivido até aos dias de hoje. O perigo potencial destas crenças é a privação da nossa liberdade, sobretudo de pensamento. Assinale-se que dar uma dimensão espiritual à vida não é, de todo, incompatível com ciência, e a prova disso são os muitos cientistas profundamente religiosos e crentes numa entidade divina superior. Todos têm noção dos limites da ciência e o que está para além desses limites entra no domínio da especulação.


Carl Sagan é conhecido pela espantosa série Cosmos que determinou que muitos jovens seguissem uma carreira em ciência. Era professor numa das mais prestigiadas universidades americanas, a Universidade de Cornell, e esteve associado a vários programas espaciais da NASA. Mas no livro “Um Mundo Infestado de Demónios”, publicado já durante os seus últimos meses de vida, deixa um manifesto contra as pseudociências que sempre procurou combater de forma séria e não jocosa como, erradamente, muita gente faz. São um conjunto de ensaios e artigos de opinião alguns originalmente publicados em várias revistas de divulgação nos Estados Unidos, muitas ligadas ao fenómeno dos OVNI’s. Nele encontramos algumas histórias que nos demonstram quão ténue é a fronteira entre a sanidade e a loucura (ou alucinação). Mas a que é mais reveladora do espírito que pretendo aqui explorar, é a do “dragão na minha garagem”. Nela somos levados a ser condescendentes com o nosso vizinho que, um dia, nos diz que tem um dragão na sua garagem. Movidos pela curiosidade, pedimos que nos mostre o dragão, mas acabamos por ser confrontados, na garagem, com a informação de que o dragão é, afinal, invisível. Mas esse facto não nos faz desistir e propomos formas indirectas de assinalar a sua presença, como espalhar areia no chão e verificar se o dragão deixa pegadas. Mas o nosso vizinho diz-nos que o dragão flutua no ar, por isso, não deixa pegadas. Mas como os dragões cospem fogo, um detector de infravermelhos deverá revelar a sua presença, mas aí o nosso vizinho diz-nos que o fogo do dragão é imaterial e, como tal, indetectável por este método. Ao fim de várias outras propostas, que acabam sempre por esbarrar numa impossibilidade qualquer, qual a diferença entre existir “aquele dragão” e não existir dragão nenhum? Esta pequena história aqui resumida sintetiza muito bem os princípios da actividade científica e os das pseudociências. Em ciência, qualquer hipótese ou teoria está constantemente a ser testada e se algo falhar, pode mesmo implicar o abandono da teoria ou da hipótese. Qualquer teoria em ciência tem de ser falsificável. O erro é algo com que os cientistas lidam constantemente e aceitam de forma natural, e porquê? Porque se promove o culto do cepticismo e porque o erro pode não ser (normalmente não é) imediatamente visível ou mesmo determinável com facilidade, mas é uma forma de sabermos que consiguimos melhorar o que fazemos. Quanto às hipóteses ou teorias que resistem à falsificabilidade, nem sequer merecem esse epíteto, ou como diria Wolfgang Pauli (prémio Nobel da Física em 1945 por importantes contributos para a Teotia Quântica, nomeadamente o seu famoso “Princípio de exclusão de Pauli”) “They are not even wrong!”.

Friday, 16 March 2007

O Mundo a Preto e Branco


Este post andava guardado há uns tempos largos. Numa revista de informação semanal, no passado mês de Dezembro de 2006, li que o actor Brad Pitt se encontra também na senda de produtor cinematográfico. De entre as propostas de argumentos que se propõe transpôr para a grande tela (ou LCD’s e demais variantes de consumo doméstico para quem compra os DVD's e já não coloca o rabo na cadeira de uma sala de cinema), encontra-se este “The Curious Incident of the Dog in the Night-Time”, escrito por Mark Haddon. Com a parafernália de títulos que invadem as livrarias num país que continua a apresentar índices de leitura vergonhosamente baixos, constitui para mim uma perplexidade a política editorial em Portugal! Devo desde já afirmar que estamos perante um livro de uma originalidade e sensibilidade extraordinárias. Bendita a hora em que aguardava uma ligação em Heathrow e entrei numa livraria onde folheei e comprei este livro, em Maio de 2005.

O autor apresenta-nos a história de um jovem, de seu nome Christopher, com o síndroma de Asperger, o qual é admitido por alguns especialistas como uma variante de autismo. No entanto, o livro é-nos servido como se tivesse sido escrito pelo punho de Christopher, dando-nos a sua muito peculiar perspectiva do mundo e das relacções humanas, fartas vezes incompreensíveis e desprovidas de lógica à luz do seu pensamento. A mente de Christopher não consegue entender as razões de uma mentira, o significado das anedotas (exceptuando uma!), ou o sentido das palavras em contexto figurado, simplesmente porque a sua estrutura de pensamento é de uma lógica literalmente matemática. Não é por acaso que Sherlock Holmes é o seu personagem preferido (com o qual, se presume, partilha algumas afinidades), e o título do “seu” livro teria que necessariamente conter uma referência à personagem criada por Sir Artur Conan Doyle, neste caso concreto, ao The Hound of the Baskervilles. Esta e outras particularidades tornam a sua sobrevivência no mundo numa dificuldade tumultuosa, uma constante provação que diariamente tem de conseguir ultrapassar.

O livro de Mark Haddon tem a capacidade de nos levar a olhar e a ver o mundo pela mente de Christopher, o qual constitui o seu legado para nós, leitores. Em face destas características, não vislumbro uma tarefa fácil transpor esta perspectiva numa linguagem cinematográfica, e experiências anteriores têm demonstrado que os resultados são, em regra, francamente maus. Entretanto, não se conhecendo nenhuma edição em português, receio bem que tenha que se esperar que Brad Pitt resolva mesmo produzir o filme para que, por cá, esta pérola não continue vilmente resguardada do grande público que fala e lê a língua portuguesa.

The Curious Incident of the Dog in the Night-Time
Mark Haddon
Vintage, 2004

Sunday, 25 February 2007

O Universo Extravagante


Dado que o assunto sobre a Energia e Matéria Negras no Universo suscitou interesse que baste, aqui deixo uma sugestão de leitura aos interessados neste assunto. O livro em causa chama-se “The Extravagant Universe” e foi escrito por Robert P. Kirshner, professor de Astrofísica na Universidade de Harvard, e líder de um dos dois projectos que analisaram as Supernova Tipo Ia mais distantes, ou seja, com elevados desvios para o vermelho (redshift). O outro grupo era liderado por Carl Pennypacker e Saul Perlmutter, do Lawrence Berkley Laboratory, na California. O livro não tem tradução em português (pelo menos ainda), mas conseguem-se boas edições paperback em língua inglesa a preços aceitáveis.

O livro de Robert Kirshner começa por dar um enquadramento do problema, percorrendo as raízes históricas das ideias que acabaram por formar o percurso desta aventura até à descoberta surpreendente, em 1998, que a expansão do Universo está a acelerar. Revisitamos não só Einstein e Hubble, mas um conjunto de outros astrofísicos cujos nomes não são conhecidos do grande público, um dos quais o truculento Fritz Zwicky, de origem suiça, cuja definição de “spherical bastard” se encontra nos anais da ciência: “a bastard any way you look at it”. Este astrofísico é responsável pela designação de “supernova” (na altura, anos 30, um novo tipo de estrelas explosivas, bastante mais catastróficas e violentas) e pela hipótese da “matéria negra”, descoberta nos aglomerados de galáxias. O livro é de leitura fácil e contém uma parte relativa aos processos observacionais dedicados ao estudo das estrelas supernova que conduziram à descoberta da expansão acelerada do Universo. O livro contém igualmente uma releitura dos modelos do Universo à luz das novas descobertas, nomeadamente a energia negra. Demonstra também a forma como os dados são sempre escrupulosamente escrutinados em ciência antes de serem publicados e apresentados à comunidade científica. Um cuidado que, por vezes, tende a ser esquecido neste cada vez mais competitivo e stressante mundo científico, onde o futuro da carreira profissional e as hipóteses de angariar novos projectos é função directa do número de publicações científicas produzidas, muitas sem interesse nenhum. Mais raro, embora tenham acontecido dois casos mediáticos nos últimos anos, é haver pura desonestidade e completa falsificação de resultados. Após a publicação dos resultados das Supernova Ia, a revista Science elegeu a expansão acelerada do Universo a descoberta científica do ano. Vale seguramente a pena tentar saber porquê.

The Extravagant Universe
Robert P. Kirshner
Princeton University Press, 2002

Friday, 9 February 2007

Breve Trapalhada de Quase Tudo (III)

Ler a Parte II

O conteúdo melhora substancialmente quando se começa a aproximar das questões sobre a vida na Terra (praticamente a última metade do livro), a sua origem, evolução e episódios de extinção, terminando com a evolução do Homem e as vicissitudes das discussões académicas sobre o assunto. Ainda assim, aparece um excesso de simplificação em algumas explicações sobre as extinções em massa. Reconheça-se também que esta é sempre uma questão sensível em divulgação científica, já que o binómio simplicidade/rigor funciona como um cobertor demasiado curto para a cama onde nos deitamos, ou seja, se queremos tapar o pescoço o mais certo é os pés ficarem de fora, e vice-versa. No entanto, mesmo aqui deparei com mais uma asneira. Na página 320 diz-se “O trilobite tinha uma estrutura corporal composta por três partes, ou lobos – cabeça, cauda e tórax – daí a origem do nome.” o que está completamente errado, já que esses lobos existem e são de facto 3, mas dispõem-se longitudinalmente ao corpo do animal, sendo por isso absurdo que façam a divisão entre cabeça, tórax e cauda conforme se mostra em figura anexa.


Os restantes problemas devem-se à tradução e edição da obra. Incluem-se exemplos como o termo “peridotite” (a tradutora optou por deixar a palavra inalterável) o qual deve ser traduzido para “peridotito”. Aliás, a tradução dos termos de rochas e minerais é até bastante simples, uma regra comum (com várias excepções, note-se) corresponde à substituição da terminação –ite para –ito, talvez para não se confundir com alguma infecção. No entanto, numa das excepções aparece “piroxeno” em vez de “piroxena”. Outro aspecto que me deixou intrigado foi o termo “condutos”, que pensei serem a tradução do inglês “conduits” (e porque não “condutas”?), mas que a dado momento também significa “chaminés”, o que me deixa na dúvida onde se encontra o problema, se na tradução ou no original, já que as fontes hidrotermais submarinas formam “chaminés” (“hydrothermal chimneys”), referidas noutro contexto no livro. Há ainda a salientar a insistente referência a “trilobite” no masculino, quando na realidade, na literatura da especialidade, é referida no feminino (nem aqui o género feminino escapa ileso!). Também se deixa o termo “interglaciárias” assim em suspenso, sem se perceber se se refere a épocas, ou a períodos (neste caso “interglaciários”). É basicamente a mesma coisa, mas se a palavra é para sobreviver isolada no texto deveria ser “interglaciários”.


Para finalizar, na contracapa encontramos várias citações de apreço pela obra, e ainda a referência que este livro recebeu o Aventis Prize 2004, que é um prémio atribuído pela Fundação Aventis, e gerido pela Royal Soceity, para obras de divulgação científica. Quanto às citações:

“Uma obra para aprendermos tudo o que os nossos professores não nos ensinaram” America’s Book Review – ainda bem que não nos ensinaram!

“Um guia das descobertas científicas que dificilmente poderá ser melhorado” Antony Daniels – seja lá quem ele for... provavelmente necessitará de melhorar a sua cultura!

“...uma obra que reflecte a mais maravilhosa forma de educar, todas as escolas seriam um lugar melhor se este fosse o seu número um da bibliografia científica” The Times Literary Supplement – Ainda bem que não é! E esta mania de pensar que se aprende a brincar e sem esforço tem de ser varrida das ideologias pedagógicas que por aí grassam.

Apetece terminar dizendo que o humor, efectivamente, sobrevive para além da obra original...

Boas Leituras!

Thursday, 8 February 2007

Breve Trapalhada de Quase Tudo (II)

Ler a Parte I

Pelo livro é constante a confusão entre os termos “massa” e “peso” os quais, na realidade, representam duas coisas bem distintas. No entanto este é um erro comum, ou não estivéssemos nós habituados a dizer que o nosso peso é de 70 kg, exactamente na unidade de medida que utilizamos para definir a massa de um corpo. Pois bem, no dia-a-dia estas afirmações não nos causam confusão, nem dificuldades de comunicação entre diferentes interlocutores. Já em ciência, as palavras têm necessariamente de ter um significado preciso, ou o menos ambíguo possível, e por isso é que escrever sobre assuntos científicos não é fácil, e muito menos para alguém de fora da respectiva área científica. Então vamos começar por esclarecer que “massa” mede a quantidade de matéria de um corpo em quilogramas, a unidade do Sistema Internacional (S.I.) que o mundo da ciência adoptou universalmente (é uma das poucas vitórias francófonas num mundo anglo-saxónico); “peso” é uma “força”, no sentido em que Newton a definiu, ou seja, é o resultado da multiplicação da “massa” pela “aceleração”, neste caso a “aceleração da gravidade” no Pleneta Terra. Por isso é que o nosso “peso” é inferior na Lua uma vez que a aceleração da gravidade no nosso satélite é bastante inferior à da Terra. Desenganem-se os adeptos das dietas, pois na Lua a nossa “massa” continuaria a ser exactamente a mesma. O que as balanças fazem não é mais do que traduzirem a força exercida por um corpo sobre um conjunto de molas em unidades de massa. Isso é possível mercê da compressão exercida sobre as molas as encurtar de forma aproximadamente linear e constante. Espero que estejamos esclarecidos sobre este assunto. Outra confusão mais difícil de perceber, é a que Bill Bryson faz entre “peso” e “densidade” quando fala da estrutura da Terra, nomeadamente no que correctamente devería ser referido como a densiadade dos minerais, ou na Atmosfera relativamente à densidade das massas de ar. Mas a mais aberrante é a que o autor afirma no final do livro sobre a experiência de Cavendish para determinar o “peso”(?) da Terra, como se a Terra pudesse ser pesada, mas mesmo o leitor mais atento até poderia pensar (mal) que Bill Bryson se referia à massa. Ora, “densidade” é a quantidade de matéria, ou seja a “massa”, contida num dado volume, e creio que não merece mais justificações.

Apesar destes primeiros engulhos, a prosa, de uma forma geral, é solta e desempoeirada o que ajuda o leitor a seguir facilmente o autor no seu caminho, mas eis que aparece algo que me deixou completamente perplexo. Bill Bryson afirma que a palavra “átomo” provém do latim e significa “massa pequena”! É o que se chama escrever duas asneiras de uma só penada. Muitos de nós (esperemos que cada vez mais no futuro) aprendemos, em algum momento, que a palavra “átomo” provém do grego e significa “indivisível”, ou não tivesse sido Demócrito o primeiro a conjecturar sobre esse assunto.


Quando os assuntos entram na Geologia, a prosa vai-se frequentemente perdendo em confusões e imprecisões, mas que são dificeis de particularizar sem entrarmos em domínios mais técnicos. Esta dificuldade também não será incomum uma vez que a Geologia lida com mecanismos, na sua maioria, deduzidos por via indirecta e observação cuidada das rochas, que têm a dificuldade acrescida de, muitos deles, nunca os termos presenciado e de se espraiarem por escalas de tempo que não se coadunam com a escala de tempo da vida humana. Ao falar do Yellowstone (parque natural com inúmeras fontes (hidro)termais), fala-se de um supervulcão (tema objecto de um documentário ficcionado da BBC) que resvala com uma facilidade extrema para o uso de superlativos como superpluma, quando na realidade o termo correcto a usar seria “ponto quente” (hot spot). O que é diferente de dizer que associado ao ponto quente existe uma “pluma”, ou seja, magma que ascende de forma rápida ao longo de estreitas condutas através do manto (a controvérsia reside na sua existência ou não, e em caso afirmativo, saber exactamente de onde, se da descontinuidade dos 650 Km ou da fronteira manto-núcleo) e que acaba por se acumular na base da crosta porque esta é, ainda assim, menos densa que o magma, levando este a estender-se lateralmente ao longo de vários quilómetros. Na realidade o termo “superpluma” até é empregue, mas para referir acontecimentos vulcânicos passados com a extrusão de volumes de magma quase inimagináveis, um dos quais formaram as espessas camadas de basalto do planalto do Deccan na Índia. Este evento é hoje considerado como a causa mais que provável da extinção dos dinossáurios (e ocorreram também outros eventos anteriores do género que têm igualmente uma mesma correspondência com extinções em massa). O papel do famoso meteorito que caíu em Chicxulub teve apenas a particularidade de acontecer aproximadamente na mesma altura (um azar nunca vem só!), muito embora a datação do intervalo temporal da ocorrência possua uma incerteza maior que a datação dos referidos basaltos. No entanto, a perspectiva de Bill Bryson resume-se ao muito bombástico (no sentido literal e figurado) meteorito e muito pouco à hoje mais que provável causa principal. Quando Bill Bryson refere os microorganismos extremófilos, que se acreditava não existirem em ambientes com temperaturas superiores a 50ºC, a seguir menciona a descoberta destes organismos nas fontes hidrotermais (o mesmo que quentes, se quisermos simplificar a linguagem) do Yellowstone a mais do dobro desta temperatura(!?). Ora bem, que se saiba, à superfície da Terra, a água dessas fontes entra em ebulição a 100ºC (vá lá! um pouquinho mais devido à existência de vários componentes químicos em solução), ou seja, não temos, de facto, fontes hidrotermais a temperaturas superiores a 100ºC. Contudo, um leitor atento, logo a seguir, deveria perguntar porque é que as fontes submarinas (a 4000 m de profundidade) se encontram a 130ºC (como é referido no livro), ou até mesmo a mais de 300ºC. Acontece que a pressão exercida pela coluna de água evita a ebulição desta (separação entre a fase gasosa e líquida), mas na realidade, nestas condições a água é já um fluido supercrítico (este superlativo é real!), o que significa que não existe uma fase aquosa e uma fase vapor distintas, mas sim uma única fase fluida, por mais voltas e reviravoltas que dermos ao sistema.

(Conclui amanhã)

Seguir para a Parte III

Wednesday, 7 February 2007

Breve Trapalhada de Quase Tudo (I)


O que acontece quando temos uma bela camisa, ou uma blusa lindíssima, e de repente lhe pregamos uma nódoa? Para além de um sentimento de irritação quase instantâneo, por vezes acompanhado por uma ou outra palavra, em quantidade e qualidade dependente da latitude no espaço nacional mas que o decoro me impede de dar um exemplo, é igualmente óbvio para quem presencia a cena que aquela mancha, por muito pequena que seja, toda ela extravasa para além da simples peça de roupa não deixando qualquer espaço para vislumbrar a mesma. A função social dessa peça perde-se assim em segundos. Imagine agora que, em vez de uma, você pregou uma dúzia de nódoas. É o desastre completo! Pois bem, a minha apreciação deste muito elogiado livro de Bill Bryson, "Breve História de Quase Tudo” (2004, Quetzal Editores), está ofuscada pelas dúzias de nódoas que o autor lhe pregou, coadjuvado ainda em alguns detalhes pelo responsável editorial em Portugal.

Este livro não é novidade, mas algo que por vezes é contraproducente é o sentido de autoridade que a escrita, especialmente se abençoada por uma chancela editorial (em tempos mais negros era da igreja), pode transportar como se a palavra impressa não contivesse um erro, um mal-entendido, um disparate que fosse, e como tal seja assimilada como verdade absoluta. Se este poder não existisse, não creio que muitos e conceituados especialistas se dessem ao trabalho de desmontar as alucinações históricas, científicas e tecnológicas de Dan Brown. O que se passa com o livro de Bill Bryson até pode ser menos grave do que parece à primeira vista pelas linhas de texto que me dei ao trabalho de escrever. O autor mostra uma admiração sincera pela ciência, percorrendo um espaço fundamentalmente assente nas Ciências Naturais, em particular na Geologia e Biologia. Claro que está longe de abarcar tudo, e Bill Bryson teve o cuidado de reduzir ao mínimo indispensável o percurso pela Física e Química, evitando assim entrar em terreno perigoso e muito movediço para quem não é um frequentador assíduo dessas paisagens. O livro é divertido? Sem dúvida! E momentos houve em que não resisti soltar umas boas gargalhadas. O anedotário científico é extenso e Bill Bryson socorre-se desse expediente várias vezes, o que ajuda a desmistificar a ideia que o cientista é uma pessoa chata, distraída, insociável, inculta (para além do que estuda, e não há equívoco maior do que este), mostrando que a ciência é feita por homens (e menos por mulheres, assunto que merece um comentário à parte) como nós com atitudes nos antípodas dos clichés habituais. Bill Bryson oferece-nos assim uma visão descomprometida da ciência tal como ele a observa, e numa linguagem obviamente acessível, ou não fosse o autor um observador externo que teve, honra lhe seja feita, de penetrar no jargão por vezes obscuro em que se move a própria ciência. Empreender tal tarefa comporta os seus riscos, e Bill Bryson é corajoso o suficiente para se ter lançado de alma e coração a este projecto, e por isso não saíu completamente ileso conforme irei demonstrar a seguir.

Começemos pelos problemas que este livro tem, os quais se podem enquadrar em dois planos diferentes. Em primeiro lugar, no próprio autor que, não sendo um cientista, empreende uma louvável e esforçada tarefa de escrever sobre ciência. Contudo, isso não o isenta de responsabilidades em não ter procurado alguns especialistas que lhe pudessem rever o texto e polir a escrita onde ela resvala para a asneira completa. Em segundo lugar, no mau hábito das editoras nacionais (com uma honrosa excepção, mas que em tempos passados cometeu a mesma asneira em algumas áreas) raramente pegarem em revisores científicos cuja intervenção pode ser fundamental em duas fases: na revisão do texto traduzido, dado que a tradução dos termos científicos não corresponde simplesmente à pesquisa num qualquer dicionário linguístico, de onde a esmagadora maioria estão ausentes, e no complemento da própria obra original, que não raras vezes é necessária, e neste caso concreto ainda mais; no fundo fazer aquilo que o autor se esqueceu de fazer. Mas vamos a exemplos concretos.

(Continua amanhã)

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