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Sunday, 20 March 2011

Na Senda(i) dos Terramotos


Figura: Localização do sismo de Sendai e contexto tectónico. (C) Nature

O último sismo que atingiu o Japão levou uma panóplia de comentadores de serviço às televisões que variaram entre o engenheiro civil e um astrofísico convertido em especialista de alterações climáticas e, agora pelos vistos, também em catástrofes naturais e processos tectónicos. Que me lembre nenhum geólogo ou geofísico, ou mesmo técnico do Instituto Tecnológico e Nuclear, a entidade que em Portugal monitoriza e gere tudo quanto é resíduo radioactivo que por aqui anda. Pois bem, antes de mais, nos meios de comunicação ninguém mencionou o porquê de um sismo desta magnitude no local em que ocorreu ser inesperado. E porque razão, os meios de prevenção de tsunami acabaram por falhar, nomeadamente as barreiras costeiras que se revelaram insuficientes para aguentar com ondas entre os 10 e os 15 metros. Incluindo, é claro, na central nuclear de Fukushima pois o desastre que lhe sucedeu deveu-se precisamente ao impacto do tsunami e à insuficiência das barreiras costeiras.

O sismo do Japão atingiu o grau 9 na escala de Richter, que é uma escala logarítmica, e portanto o incremento no grau de um sismo não corresponde a um incremento linear da energia libertada, mas exponencial. Dada a magnitude atingida, e atendendo que dentro desta gama houve o sismo em Sumatra em 2004 (9.1) e no Chile em 1960 (9.5), a devastação devida à libertação da energia sísmica foi notavelmente pequena. O pior deveu-se ao tsunami que foi induzido pela movimentação brusca de uma massa da crosta substancial. Na realidade, os verdadeiros especialistas nestes assuntos, não previram que a região de Sendai pudesse ser atingida por sismos desta magnitude. A questão é, porquê? Ora bem, o ambiente tectónico onde se encontra o Japão corresponde ao bordo do local onde, a Oeste, no fundo do oceano, a crosta do oceano Pacífico (a litosfera oceânica) mergulha sob a placa litosférica oceânica que se encontra a Este e sobre a qual se ergue o arquipélago japonês. Este enorme movimento de massas é lento, gradual e nunca contínuo. Aliás, esse é o problema, porque o deslizamento de dois blocos de rocha entre si cria atrito e por vezes o movimento bloqueia até que a força exercida acumule tensão suficiente para desbloquear a progressão do movimento. Assim aconteceu com o sismo de Sendai, quando se liberta essa energia e ocorre um deslizamento brusco numa área de várias centenas de km quadrados. Acontece que os registos longos e repetidos que se vinham acumulando indicavam que sismos da magnitude do sismo de Sendai seria improvável em zonas de mergulho de placas oceânicas (zonas de subducção) em que a idade das placas é antiga. Atendendo a que a idade da litosfera oceânica ao largo do Japão tem cerca de 140 milhões de anos (para um máximo admissível entre 180 e 200 milhões de anos), os cientistas apontavam para que a região de Sendai não seria, por isso, afectada por sismos desta magnitude, precisamente por a crosta oceânica que subducta ser mais fria e densa (consequência da idade) então deslizaria mais rapidamente e facilmente. A somar ao problema, registos históricos de sismos na zona também não apontavam para magnitudes desta ordem de grandeza (máximo registado foi 8). Desta forma, o sistema de prevenção de tsunamis estava construído para suportar um impacto de ondas mas com dimensões menores da que as que vieram a ocorrer. Portanto, foi no capítulo previsão e conhecimento científico em que o processo correu mal. O sismo de Sendai provocou já uma necessidade de revisão dos modelos sísmicos nestes contextos tectónicos. Contudo, há formas alternativas a relatos históricos para deduzir a ocorrência destes fenómenos. Os tsunamis, devido às suas características, geram depósitos de detritos (conhecidos como depósitos de tsunami) que podem revelar muito da energia que lhe está associada. A verdade é que em 2001, investigadores japoneses estudaram um desses depósitos na região de Sendai, datado do século IX e cuja conclusão foi que, na realidade, a região até era afectada por ondas gigantes de mais de uma dezena de metros, mas com um período de recorrência de 800 a 1000 anos. E não é que estavam correctos?

Thursday, 15 April 2010

O Vulcão Que Veio do Frio

Imagem impressionante da coluna de cinzas e vapor de água da recente erupção sub-glaciar do vulcão Eyjafjallajokull, no Sul da Islândia.


Foto retirada do site do Público; Foto da Guarda Costeira Islandesa/Reuters

Monday, 1 February 2010

Captar o Momento

Não é todos os dias que um jovem português ganha um concurso de fotografia a nível internacional do National Geographic. Hugo Bettencourt Machado, depois de vencer no tópico lugares a nível nacional com a fotografia reproduzida abaixo, viu essa mesma fotografia premiada pelo júri do National Geographic no seu quarto concurso de fotografia a nível global. O Hugo é geólogo, recentemente doutorado pelo Imperial College de Londres, e é uma das razões, a par de alguns dos seus colegas que já se vão espalhando pelos 4 cantos do Mundo, que me fazem sentir orgulho em ser Professor.

Entrevista Rádio Renascença

Site da National Geographic Portugal

Site da National Geographic Internacional


Vulcão Licancabur, na fronteira entre o Chile e a Bolívia; Foto de Hugo Bettencourt Machado

Sunday, 5 October 2008

Velha p'ra Caraças!

É o que uma rocha encontrada num afloramento no Quebeque, Canada, é após ter sido medida a razão dos isótopos de neodímio e samário pela equipa de Jonathan O'Neil da Universidade de McGill em Montreal. O grupo de rochas a que este afloramento faz parte já havia sido datado como tendo 3,8 mil milhões de anos usando um mineral muito útil para o efeito: o zircão, que é um silicato de zircónio extraordinariamente resistente à alteração. Acontece que a rocha agora datada não continha zircões pelo que os investigadores tiveram de usar outro método. E a bonita idade do exemplar? Uns singelos 4,28 mil milhões de anos, quebrando em 250 milhões de anos o anterior recorde. Atendendo a que a nossa visão da Terra primitiva é tão boa quanto a de um objecto a 2 km de distância numa noite de nevoeiro cerrado, este resultado demonstra que a diferenciação de uma crosta sólida terá ocorrido cedo na história do planeta que já leva uns respeitáveis 4,6 mil milhões de anos.

O trabalho científico foi publicado há pouco mais de uma semana na revista Science.

Sunday, 11 May 2008

Roncos Telúricos

O vulcão Chaiten (uma caldeira) no Chile entrou em erupção a 2 de Maio de 2008, depois de milhares de anos de sossego. A imagem que aqui se ilustra é particularmente bela e assustadora, fazendo-me recordar uma frase de Will Durant já aqui mencionada: “Civilization exists by geological consent, subject to change without notice”. Trata-se de uma tempestade eléctrica que se emaranha nas colunas de fumo e cinzas a temperaturas extraordinárias do vulcão.


Foto: Carlos Gutierrez/Reuters in Público

Quanto às consequências destes fenómenos, esta imagem ilustra o aspecto de uma paisagem que mais parece um postal natalício, mas o que se vê não é neve mas sim cinzas vulcânicas. Não se estranhe por isso que o clima a nível global se ressinta com o fenómeno, o que é de resto bastante frequente.

Sunday, 2 March 2008

A Nossa Terra

Já aqui foram mencionadas as iniciativas de cariz científico e não só relativas ao Ano Polar Internacional e Ano Internacional do Planeta Terra. O primeiro havia sido lançado há precisamente 1 ano e 1 dia e vê agora os seus dias chegarem ao fim neste mês. O segundo, arrancou também no ano passado, mas só a 12 e 13 de Fevereiro de 2008, em Paris, foi lançado oficialmente sob os auspícios da UNESCO. Ambos os eventos são oportunidades únicas para uma consciência colectiva dos problemas que nos afectam no planeta onde habitamos e, para todos os efeitos a muito longo prazo, o único no Universo onde tal é possível. Ninguém, em seu perfeito juízo, deita abaixo a sua própria casa.

A revista Nature publicou em Janeiro de 2008, um suplemento dedicado ao Ano Internacional do Planeta Terra. Uma ocasião para olharmos para uma ciência que tem sido algo menosprezada na feira das vaidades social onde se olha demasiadas vezes para a indumentária e pouco para a substância. Aliás, em 2007 decorreram 200 anos desde que foi criada a mais antiga sociedade geológica. Decorria o ano de 1807, era uma sexta-feira, 13 de Novembro, e 13 personalidades colocaram a sua assinatura no documento que criou a Geological Society of London. Acto contínuo de desrespeito por crenças supersticiosas, da ciência que mais abalou em todo o século XVIII e XIX as estruturas da fé cristã. No artigo de Frank Press, precisamente sobre “Earth Science and Society”, há duas citações que o autor usa e que merecem ser aqui reproduzidas. Uma vem da pouco simpática Margaret Tatcher, numa ocasião na Royal Society em 1988 onde afirmou “the value of Faraday's work today must be higher than the capitalization of all the shares on the stock exchange”. A outra, do historiador americano Will Durant, que afirmou “Civilization exists by geological consent, subject to change without notice”.

Cabe-nos a nós, meros habitantes neste frágil Planeta Azul, reflectir sobre ambas.


Wednesday, 23 January 2008

Over The Volcano

Os cientistas Hugh Corr e David Vaughan do British Antarctic Survey, após analisarem um conjunto de dados de radar colhidos num voo há três anos, verificaram a existência de uma camada reflectora nos gelos da Antárctica (mais forte que a do substrato geológico) cuja única explicação plausível é corresponder a um nível de cinzas vulcânicas de uma erupção recente. O artigo foi recentemente publicado na Nature Geoscience. Na realidade, estaremos na presença de um vulcão activo debaixo dos gelos da Antárctica, cujo último rugido ecoou há uns breves 2000 anos atrás. O ponto quente respectivo situa-se na região de Pine Island da Camada de Gelo da Antárctica Ocidental, um local onde os glaciares retraem a uma taxa superior à de outras regiões do continente. Embora se desconfiasse que existissem vulcões activos debaixo da espessa camada de gelo, tal nunca tinha sido confirmado até hoje. Se bem que conhecido como um continente gelado, a Antárctica possui alguns vulcões activos que emergem desse imenso mar branco, o mais importante dos quais é o Monte Erebus, na Ilha de Ross, cuja actividade contínua tem vindo a ser observada desde os anos 70.

(C) NASA

Agora imagine o leitor o espetáculo explosivo que é uma erupção destas, dando origem ao que se designa por freato-magmatismo. Se colocar água fria em cima de um ferro em brasa dá o que todos sabemos, o que serão as toneladas de gelo a derreter sobre a rocha fundida que emerge a uns confortáveis 1000ºC? Estima-se que o buracão terá sido enorme, e a pluma, que espalhou as cinzas por uma área equivalente ao País de Gales, terá atingido os 12 km de altitude.

Saturday, 29 September 2007

Dias Vulcânicos

A 27 de Setembro de 1957 entrava em erupção o vulcão dos Capelinhos no extremo oeste da ilha do Faial, nos Açores. A erupção duraria por mais de um ano e a ilha ficou um bocadinho maior. Hoje, passados 50 anos, são visíveis restos de algumas casas e o antigo farol, parcialmente soterrados pela acumulação de cinzas da erupção vulcânica. Parte do que foi acrescentado à ilha foi já objecto de erosão, que nestas coisas o mar não perdoa. Em 2005 percorri esse pedaço de terra, que é o mais jovem pedaço de território nacional que existe, onde a paisagem é ainda estranhamente alienígena, sem vestígios visíveis de algo vivo à superfície. Cinquenta anos não é tempo suficiente para formar um solo, um recurso importantíssimo que o abate de árvores e os incêndios deixa indefeso à delapidação pelos agentes erosivos da Natureza.



Saturday, 21 July 2007

A 10 000 m do Chão...

Junção de dois glaciares na Gronelândia.

Na Baía de Hudson, no Canada.

Baía de Hudson, no Canada. Os padrões são o resultado do dobramento das rochas.

Por um Planeta onde ainda seja possível ver estas imagens no futuro...

Tuesday, 15 May 2007

A Parcialidade da Natureza Humana

Pode parecer que os nomes que se dão às coisas sejam apenas meras questões de formalismo linguístico, mas não é verdade. Em matéria de ciência, a linguagem deve procurar atingir sempre dois princípios básicos: simplicidade e rigor. E é disto que se trata e mais nada! Serve esta pequena introdução a um texto publicado pelo Professor Galopim de Carvalho, no jornal Público de 5 de Maio passado, sobre a mudança do nome do ICN (Instituto de Conservação da Natureza). Claro que os nomes são apenas a face visível de algo mais profundo a que se deveria dar mais importância, e que é o cerne da questão levantada por este texto. E porque já estamos em plena actividade do Ano Internacional do Planeta Terra (2007-2009), embora o mesmo seja apenas decretado pelas Nações Unidas em 2008, o texto que transcrevo do Professor Galopim de Carvalho servirá para dar o mote e alertar para uma parte da Natureza que, tão injustamente (para ser brando nas palavras), alguém quer ver esquecida. E também pela sua clarividência.


Natureza: biodiversidade e geodiversidade

O Presidente da República encorajou, no seu discurso do 25 de Abril, os jovens a não se resignarem. Já não sou jovem, mas escrevo porque não me resigno com a mudança de nome do Instituto da Conservação da Natureza (ICN) para Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) estabelecida pelo Decreto-Lei n.º 136/07. Biodiversidade é uma forma de dizer, numa só palavra, diversidade biológica, ou seja, o conjunto dos seres vivos. É, para muitos, a parte mais visível da natureza, mas não é, seguramente, a mais importante. Outra parte, com idêntica importância, é a geodiversidade, sendo esta entendida como o conjunto das rochas, dos minerais e das suas expressões no subsolo e nas paisagens. No meu tempo de escola ainda se aprendia que a natureza abarcava três reinos: o reino animal, o reino vegetal e o reino mineral. A biodiversidade abrange os dois primeiros, e a geodiversidade o terceiro. Estando assente, e bem, que biodiversidade é parte integrante da natureza, a designação agora decretada para este importante organismo do Estado é, no mínimo, desnecessária e redundante. Esta redundância vem de trás. Ficou consagrada em 2001 na Estratégia Nacional para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade, na sequência da Convenção sobre a Diversidade Biológica (Conferência do Rio, 1992). O nome vem daí, mas custa-me a crer que, num organismo onde trabalham mais de quarenta biólogos e uma quinzena de arquitectos paisagistas, ninguém tenha chamado a atenção do legislador para esta aparente ingenuidade que, cientificamente, raia o ridículo - a menos que alguém me explique aquilo que me parece inexplicável. Está fora de causa qualquer juízo crítico à reestruturação deste instituto, mas ela poderia ter sido feita sem mudar o nome original, que era sintético, coerente, expressivo e, por isso, mais correcto. Retirar a biodiversidade da natureza é o mesmo que retirar o sobreiro do conjunto das árvores, o bacalhau do dos peixes, o papagaio do das aves, os morcegos do dos mamíferos, os jornais do da comunicação social e por aí adiante, num nunca mais acabar de exemplos disparatados. Ao enfatizar a componente biológica, a nova designação do ex-ICN torna mais evidente a subestima que, lamentavelmente, a nossa administração tem manifestado pelos valores da geologia. Como se a paisagem e a civilização não dependessem do substrato geológico. Os governantes deveriam estar mais elucidados sobre o papel da geodiversidade na civilização moderna, na prospecção e exploração das matérias-primas metálicas e não metálicas, dos combustíveis fósseis e nucleares, das águas subterrâneas, para não falar no conhecimento dos riscos sísmico e vulcânico ou no dos terrenos sobre os quais se edificam barragens, pontes e outras grandes obras de engenharia. É que, apesar de na quinta das 10 opções estratégicas aprovadas em 2001 se propor "desenvolver em todo o território nacional acções específicas de conservação e gestão de espécies e habitats, bem como de salvaguarda e valorização do património paisagístico e dos elementos notáveis do património geológico, geomorfológico e palentológico", nem o decreto-lei que lhe deu seguimento, nem a Portaria n.º 530/07, que lhe fixa os estatutos, têm um artigo, uma alínea, uma palavra referente à componente geológica da natureza. Mas tem meia centena de referências à biodiversidade. Esta pouquíssima importância dada à geodiversidade por este instituto fica, aliás, bem demonstrada pelo número de geólogos que ali trabalham, menos do que os dedos de uma mão entre 180 técnicos superiores. Que país é este que tem na geodiversidade (mármores, granitos, cobre, zinco, volfrâmio, estanho) a maior fonte de riqueza e a subestima na instituição que seria suposto zelar por ela? É o mesmo país que extinguiu, em 2003, o Instituto Geológico e Mineiro. Valha-nos Santa Bárbara!

A. M. Galopim de Carvalho

Geólogo

Público (5/Maio/2007)

Sunday, 22 April 2007

Dia Internacional do Planeta Terra


Hoje comemorou-se o Dia Internacional do Planeta Terra e já há vários meses que, sob os auspícios da IUGS (International Union of Geological Sciences), se determinou que 2008 será o Ano Internacional do Planeta Terra. Um gesto para alertar consciências, sobretudo políticas, de onde partem decisões que determinam as nossas vidas.