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Tuesday, 3 January 2012

E Vão Cinco Noves Fora Nada

Meus amigos e ocasionais transeuntes, este blogue faz hoje 5 anos que viu a luz do dia. Ao fim de cinco anos teve altos e baixos, mas ultimamente mais baixos que altos. Este dia vai ser também aquele que vou concretizar o que já pairava na minha cabeça há um tempo: fechar o tasco permanentemente. Tudo tem um tempo e uma altura certa para existir. É melhor acabar de vez do que arrastar um cadáver. Se muitas bandas fizessem o mesmo teríamos menos ruido à nossa volta. Já agora, se querem mesmo saber porque fechamos, foi mesmo o aumento do IVA. Como não tenho ninguém para despedir, fecho a loja. E vou seguir o conselho do nosso PM e emigrar, como de resto a Jarónimo Martins já fez. E também vou para a Holanda, mas vou vender cannabis.

Antes ficam aqui as minhas breves impressões do ano que findou. Em consonância com a crise, as escolhas são escassas e reflectem apenas o que tive pachorra de ouvir/ver/ler.

Os melhores de 2011, categoria músicas para bailarico:

1. Low – C'mon
seguidos de:
Veronica Falls – "Veronica Falls"
PJ Harvey – "Let England Shake"
Dum Dum Girls – "Only in Dreams"

Engracadito:
Tennis – "Cape Dory"

Um bom regresso:
Wire – "Strays"

Não Há Pachorra:
Radiohead – "The King of Limbs"

Com mais do mesmo, perdeu-se a graça:
Fleet Foxes – "Helplessness Blues"

Boa Canção que irrita muita gente:
Lana del Rey – "Video Games"

Os melhores de 2011, categoria concertos:
1. Swans @ Aula Magna
2. Bonnie “Prince” Billy @ Teatro Maria Matos
3. Ben Frost @ Teatro Maria Matos
4. Six Organs of Admittance @ Teatro Maria Matos
5. James Blackshaw + Nancy Elizabeth @ Teatro Maria Matos
6. Max Richter @ Teatro Maria Matos

Como podem reparar o Teatro Maria Matos é um espaço a ter cada vez mais em conta, inclusivamente financeira.

Os melhores de 2011, categoria filmes:

1. Sangue do Meu Sangue de João Canijo
seguido de
A Árvore da Vida de Terrence Malick
Beginners de Mike Mills
Mães e Filhas de Rodrigo García
O Discurso do Rei de Tom Hooper
Inception de Christopher Nolan
O Castor de Jodie Foster

Os melhores de 2011, categoria leituras:
"A Questão Finkler" de Howard Jacobson, por ser o único título editado em 2011 que li.
Com uma atenção especial a:
"O Retorno" de Dulce Maria Cardoso.
por ainda não ter lido, mas estar na já calha finalmente depois de me o subtrairem por duas vezes seguidas.

E por aqui me fico, com uma despedida em grande:



The Dave Brubeck Quartet – Take Five

Hasta Siempre. Vemo-nos na Revolução que tarda em chegar.

Sunday, 6 November 2011

Max Richter @ Teatro Maria Matos (5 de Novembro de 2011)


De volta à escrita, e depois do concerto de Bonnie "Prince" Billy neste mesmo palco (crítica aqui), foi a vez de dar lugar à música melancólica de Max Richter. Com o objectivo de apresentar o seu último trabalho, Infra (2010), o concerto acabou por ser dividido em duas partes. Na primeira parte, a tela ao fundo do palco dá lugar a uma animação minimalista de personagens femininas e masculinas que se passeiam incessantemente de um lado para o outro, ao passo que Max Richter introduz as componentes electro-acústicas com um pequeno portátil e que sustentam as peças musicais que se desenvolvem ao piano e com uma pequena orquestra de câmara (dois violinos, uma viola e dois violoncelos). No seu elenco aparecem John Metcalfe (viola), nem mais nem menos que um ex-membro dos Durutti Column de Vini Reilly e recentemente responsável pelos arranjos dos últimos discos de Peter Gabriel, e que com Louisa Fuller (1º violino) forma o The Duke Quartet. Os temas de Infra vão-se desfiando ao sabor de uma peça orquestral dividida por movimentos, e que só terminam com o final da primeira parte do concerto. A música do disco, desconhecida para mim até aquele momento, vem na continuidade do seu trabalho anterior, em que os elementos electro-acústicos introdutórios dão o mote para um ambiente carregado de negrume e uma opressão claustrofóbica sublinhada pelas bátegas de água da chuva sendo depois melancolicamente sobrespostos pela música do piano (minimalista e afim dos tons melódicos dos compositores clássicos de princípio do século XX) mas acima de tudo comandados pelo quinteto de cordas, cujas referências se situam claramente na esfera de um Michael Nyman mas de raíz assumidamente mais classissista. Finda a apresentação, seguem-se 20 minutos de intervalo para dar lugar à segunda parte, onde Richter revisita parte da sua obra anterior. E que melhor maneira de começar senão por esse excelso disco que é The Blue Notebooks (2004), obra onde as palavras de Kafka são veiculadas pela voz da actriz Tilda Swindon, com o tema “On the Nature of Daylight”. Assim, a segunda parte torna-se mais descontraída e mais motivadora de empatia com o público que enchia a sala (para surpresa minha e dos meus companheiros destes concertos no Maria Matos), certo de que a música de Richter que acompanhou filmes como Shutter Island de Scorcese ou, em particular, Valsa com Bashir de Ari Folman onde assinou a banda sonora, tenha motivado esta adesão. Os temas vão-se seguindo e o concerto termina com o maravilhoso “The Trees”, infelizmente manchado por problemas de som onde o irritante feedback inicial nem sequer foi o pior momento. O crescendo final que estava reservado para o concerto por vezes foi penoso de ouvir. Quanto aos músicos estiveram em forma, passe o pormenor de em duas ou três ocasiões a harmonia de conjunto ter momentaneamente falhado, mas rapidamente corrigida que nem terá dado tempo para a esmagadora maioria dos presentes perceber. 3,5/5

Monday, 12 September 2011

Six Organs of Admittance @ Teatro Maria Matos (10 Setembro de 2011)


De volta às impressões sobre concertos, e agora que se aproximam uma mão cheia de acepipes neste mesmo Teatro Maria Matos (excelente programação, nunca será demais reforçar), desta vez coube ao guitarrista Ben Chasny na versão Six Organs of Admittance a abertura das hostilidades para a rentrée. Guitarrista de créditos firmados deambulando pelas franjas folk do presente século, embora intervaladas por ambientes mais eléctricos, foi a primeira versão que trouxe ao palco do Maria Matos. Sozinho em palco, com uma guitarra que ia dedilhando com destreza assinalável, só lá para o quarto tema é que as notas saiam sem atropelos nas partes mais exigentes das composições. E as composições iam-se sucedendo entre pequenos instrumentais e simples canções numa voz de segundo plano que reforça os traços mais intimistas e sombrios das melodias. Estas por seu lado, tendem para a divagação e raramente se repetem, a não ser nos pequenos detalhes, o que a páginas tantas até dá espaço para mandar umas piadas à custa de estilos musicais. A tempos Ben Chasny vai referindo o nome de alguns temas, como “Elk River” ou “Drinking with Jack” e nós imaginamos o pôr do sol e a melancolia de uma paisagem florestada vista de um alpendre de madeira, garrafa na mão e dois dedos de conversa com risos pelo meio. Este bem podia ser um dos vários efeitos visuais que a sequência de notas que saem da guitarra de Chasny nos sugerem. Um agradável concerto, intimista, bem apreciado e recebido por uma sala cheia, a dar o prazer de uma hora bem passada. (4/5)

Tuesday, 26 April 2011

Ben Frost @ Teatro Maria Matos (25 de Abril de 2011)

Para terminar o dia da liberdade, pelas bandas do Maria Matos libertaram-se os demónios sonoros de Ben Frost, um músico australiano que mora para os lados da Islândia, como que a fazer jus à frieza da sua música e do seu apelido. Depois de editar “By the Throat” em 2009, obra que veio apresentar em Lisboa, não faltaram elogios à obra, mormente da parte de Tim Hecker, cuja música partilha muitos pontos em comum.


Num Maria Matos com mais de meia casa e pouco depois das 22 h, o singelo Ben Frost assoma ao palco, descalço, acompanhado pelo contrabaixista Borgar Magnason, e sentado ao piano lança um lacónico “Sorry we're late” começando uma troca de notas musicais com o contrabaixo arranhado por um arco produzindo sons minimalistas naquele que seria o único momento integralmente acústico do concerto. A partir daí Frost aproxima-se do portátil Macintosh e da bateria de amplificadores para, ao correr do momento, ir construindo uma sequência de paineis sonoros que deambulam entre um minimalismo noise, a mistura de ruído digital, loops do som do contrabaixo (sempre tocado com arco), passando a espaços pela guitarra (usada parcimoniosamente e sujeita aos mesmos tratamentos) e pelo piano. Os momentos variam entre o discreto olhar de uma paisagem idilicamente transformada em ambiente dark, até à produção sonora intensa com níveis de volume de fazer inveja às bandas de metal. As paisagens, como By The Throat já o indiciava, são frias e inóspitas com o contabaixo a soltar os uivos lancinates de uma alcateia no penúltimo tema da noite. A sequência de temas não deixa espaço a respirações, e o público apenas num momento apanha uma aberta para lançar umas palmas que são basicamente ignoradas por representarem uma distração ao que se estava a passar em palco. Tal como numa obra orquestral dividida em vários movimentos, as manifestações de agrado e aprovação foram por isso deixadas para o fim. No ar fica uma sensação de estranheza afim de performances deste género, uma vez que o objectivo não é produzir melodias mas sim causar sensações e cada um de nós imaginar as paisagens que os sons sugerem, onde mesmo o simples olhar para o palco e para os músicos pode constituir em si uma distracção. Em qualquer dos casos, as paisagens nunca serão agradáveis nem quentes, antes pelo contrário. São momentos de intensidade que cada espectador vive de maneira diferente e não deixa lugar a escolhas dúbias. Ou se gosta, ou não se gosta. Ao contrário também do já mencionado Tim Hecker, a música de Ben Frost é bem mais crua e despojada de tonalidades melódicas. O resultado porém, mereceu inteiramente a deslocação e o pouco mais de uma hora de actuação.

(4/5)

Sunday, 10 April 2011

Swans @ Aula Magna


Ontem foi o dia de uma das mais míticas bandas americanas de 80s pisar o palco da Aula Magna, os Swans de Michael Gira. Apesar de não fazerem parte do lote de bandas que enchem salas com facilidade, a Aula Magna apresentava-se razoavelmente composta para os receber, fruto seguramente dos largos anos de actividade da banda (pese embora a interrupção) fomentando uma legião de admiradores que já vai cruzando várias gerações. Da parte que me toca, o encontro veio em finais de 80 até ir residindo um pouco no esquecimento. Renascidos em 2010 com um disco cuja atenção me foi despertada pelo concerto, constituiu assim uma oportunidade de os ver ao vivo, para constatar in loco a intesidade do seu experimentalismo sónico.


Antes porém, a primeira parte deu-nos uma agradável surpresa com os powerdove de Annie Lewandowski que, fazendo-se acompanhar por um guitarrista e tocando ela própria por vezes uma guitarra acústica de menores dimensões, presenteou o público com um punhado de canções melodiosas de uma pop/folk luminosa, com um suporte musical minimalista, de adorno sóbrio e sustentado por sequências de acordes simples, ou notas soltas tocadas de forma espaçada e lenta deixando à voz o desenho principal das canções. A voz essa, apresentava-se frágil mas segura, como se se dirigisse apenas para um punhado de amigos. A grandeza da sala contrastava enormemente com o intimismo da performance, mas ainda assim, notou-se uma aprovação maioritária por parte do público. Os powerdove editaram este ano o seu primeiro longa duração, Be Mine, pela Square Records, e direi que vale a pena fazerem-lhe uma visita.


Após esta introdução de tons tão suaves ninguém suspeitaria a enorme descarga energética que se seguiria. Arrancando já às 22h com um drone contínuo que teimava em persistir sem ninguém em palco (o que parecia já incomodar algumas gentes do público), os músicos dos Swans foram entrando, um a um, espaçadamente em palco construindo sobre o drone inicial um conjunto de estruturas rítmicas sucessivas que terminaram com a entrada de Gira dando assim termo a 30 minutos de pura neurose sónica, incluindo a reinterpretação do tema de abertura do seu último álbum, “No Words/No Thoughts”. E é de reinterpretação que aqui se fala, pois as estruturas melódicas das canções estavam reduzidas ao esqueleto, soterradas numa imensidão de desgarga sonora rítmica de guitarras distorcidas comandadas ao ritmo da bateria e percursões. Esta carga sonora foi levada a uma intesidade tal que era impossível não nos sentirmos quase hipnotizados pela sequências rítmicas repetitivas e densas por vezes unindo dois e três temas de uma vez. Aqui não houve espaço para descanso e os músicos deram muito poucas tréguas ao público, parando por vezes para receber uns aplausos, ou quando finalizado o primeiro tema Gira convida os presentes a ocuparem as cadeiras vazias das doutorais, ou já no final quando apresenta os seus cúmplices em palco. Também não houve lugar a destaques, menção talvez ao baterista que ía comandando os ritmos com um frenesi incansável, tudo sob a batuta de Gira que, várias vezes, ía dando instruções à banda como se de uma orquestra se tratasse. E foi de facto uma comunhão impressionante o que se assistiu em palco e confesso que nunca tinha presenciado a algo semelhante por parte de uma banda ao vivo. Notável também a performance de Thor Harris nas percursões e vários outros instrumentos, incluindo de sopro. Impossível ter saído indiferente deste concerto. Impossível ficarmo-nos por meias-impressões. Foi quase uma descida aos infernos sonoros, sublinhada por um imperativo “Jesus, come down” que Gira solta no final do segundo tema. E assim continuou por 2 horas. Esmagador, é o mínimo que me ocorre dizer. Quanto aos Swans, ainda parece estar longe o seu canto do cisne.

4,5/5

Sunday, 16 January 2011

Mais Balanços de 2010


Numa perspectiva de dar a conhecer os gostos pessoais e assim contribuir, como outros contribuem para comigo, para despertar a curiosidade do que ainda não se provou.

Cinema:

O ano de 2010 não foi particularmente memorável. Houve um punhado de filmes que me despertaram suficientemente o interesse. Outros houve que perdi e espero recuperar mais tarde, como por exemplo, “O Segredo dos Seus Olhos”. O veredicto:


1. A Single Man – Tom Ford
2. O Escritor Fantasma – Roman Polanski
3. Shutter Island – Martin Scorcese
4. A Estrada – John Hillcoat
5. A Rede Social – David Fincher
6. Nas Nuvens – Jason Reitman
7. A Origem/The Inception – Christopher Nolan
8. Tamara Drewe – Stephen Frears
9. Tudo Pode Dar Certo – Woody Allen

Para esquecer:
Alice no País das Maravilhas – Tim Burton

Concertos:

Muito mais abonado que em anos anteriores, alguns foram objecto de comentário aqui na chafarica:


1. Grizzly Bear @ Coliseu dos Recreios
2. Sonic Youth @ Coliseu dos Recreos
3. Tindersticks @ Coliseu dos Recreios
4. Faust @ Teatro Maria Matos
5. The Walkmen @ Coliseu dos Recreios

O Coliseu levou claramente a melhor, o que é mau porque as condições sonoras são frequentemente sofríveis. De entre os que actuaram nas primeiras partes:


1. Danças Ocultas (1ª parte Tindersticks)
2. Cibelle (1ª parte Grizzly Bear)
3. Os Golpes (1ª parte The Walkmen)
4. Gala Drop (1ª parte Sonic Youth)

Finalmente, não vou muito em novidades literárias porque tenho dificuldade em distinguir o trigo do joio do mar que se publica. Refiro apenas um monumento que li no ano de 2010 e que me deixou de rastos:


“As Benevolentes” de Jonathan Littell

Até breve!

Thursday, 27 May 2010

Grizzly Bear @ Coliseu (26 de Maio de 2010)

Novo concerto na carteira, estímulo justificado para aqui retornar e estrebuchar um pouco este sítio a caminho de se tornar moribundo. Desta vez são os Grizzly Bear, que me fizeram voltar ao Coliseu pela segunda vez este ano (e ao blogue a primeira vez este mês). Mais uma vez também (e já lá vão 3 aqui escritas), confirma-se que o som no Coliseu, se não é sofrível, anda lá perto. Melhor no entanto que Wilco ou mesmo Sonic Youth. Desta vez corrigiram as frequências com um pouco mais de sucesso, as palavras eram audíveis, mas carregaram em demasia nos graves a ponto de não só serem ouvidos como sentidos, mas quando o sistema puxava a potência ao máximo, a cacofonia era tanta que dificilmente conseguíamos perceber que instrumentos estavam a tocar. A sala está claramente desadequada para níveis sonoros elevados e quem sofre são os nossos pobres ouvidos. Não tenho dúvidas que os jornalistas e demais profissionais cujas obrigações os remetem para assistir a estes concertos com frequência, têm profissões de desgaste rápido e concorrem para passar a reforma numa qualquer Sonotone a comprar aparelhos auditivos.


Foto:(C) Rita Carmo/Espanta Espíritos; BLITZ

Entrada morna da brasileira Cibelle, uma cantora/performer vinda do desconhecido (se exceptuarmos a sua colaboração recente com Paulo Furtado), que apesar disso deu um belíssimo e agradável espectáculo graças à sua capacidade vocal. Uma música que remete para raízes indie mais freak e obscuras (fosse a guitarra acústica e não teríamos problema em catalogá-la de freak-folk), cujo timbre de voz por vezes ressoava a umas Cocorosie. O facto de ser uma one-woman-show, coadjuvada por sons (explosões, pássaros, e sei lá que mais) e música gravada (o que mais me desconforta, pois o resultado pode aproximar-se a uma espécie de karaoke), deu-nos a clara impressão de um espectáculo de rua, apanhado rapidamente ali na esquina mais próxima, tomando o palco de uma sala de concertos. No entanto, as canções e melodias entrosavam lindamente, e as variações musicais da guitarra, apesar de minimalistas, enlaçavam-se com a voz de Cibelle (bem bonita, nunca é demais referir) de uma forma harmoniosa e bem conseguida. A terminar, presenteou-nos com uma canção dos tempos áureos da bonecada do Jim Henson: (It's Not Easy) “Being Green”, celebrizada por uma personagem com a mesma coloração e que tinha uns arames a suportar os braços, Kermit the Frog. O facto de a sua actuação ter sido presenciada por menos de metade de uma sala que se encontrava esgotada não é seguramente demonstrativo da qualidade de Cibelle, que merecia ter sido mais bem recebida.


Foto:(C) Rita Carmo/Espanta Espíritos; BLITZ

Por volta das dez é servido o prato principal. Os Grizzly Bear fazem a sua entrada e dão logo o mote do que iria ser o suporte do espectáculo, abrindo com o mesmo tema que abre Veckatimest (aqui no estaminé mantém-se como o melhor disco que saiu em 2009). Os temas do último álbum dos Grizzly Bear deixavam-me apreensivo sobre a forma como o seu poder melódico e textural se enquadrariam num espectáculo ao vivo. Contudo, ao fim de dois temas os receios desvanecem-se e com um público receptivo e ansioso por ver este conjunto de músicos de uma certa corrente indie subitamente catapultados para um espectro de audiência bem mais alargado que a sua música faria suspeitar, a comunicação e empatia torna-se imediata o que muito ajudou para que o espectáculo acabasse por ser, a todos os títulos, memorável. O desfilar das músicas de Veckatimest continuava, entrecortadas por algumas dos álbuns anteriores, até que atacam “Two Weeks” fazendo levantar toda a plateia para gingar a anca ao ritmo das teclas de Daniel Rossen. Os temas podiam variar do mais acústico “Deep Blue Sea” (da colectânea Dark Was the Night), até ao mais elaborado “Ready, Able” (uma das favoritas aqui da casa) que o grau de profissionalismo e execução musical não as deixavam perder o brilho e magia que emanam. Os 4 elementos em palco contribuem exemplarmente para dar uma coesão sonora e musical ao melhor nível do que os temas gravados em estúdio merecem, e enquanto Daniel Rossen dava voz à maior parte das canções, juntamente com a guitarra e raros momentos nas teclas, Edward Droste secundava-o nos coros ou tomava primazia em temas onde a voz ecoava mais fundo (fruto do tratamento no microfone), dando um cheirinho na guitarra ou nos efeitos do pequeno omnichord e Chris Taylor ficava com as despesas rítmicas no baixo, ou ainda na flauta, clarinete ou saxofone (tudo tratado) bem como nas vocalizações. A amálgama encaixava na secção rítmica tradicional assegurada por Christopher Bear, que não enjeitava uma colaboração vocal de vez em quando. As vocalizações e os respectivos arranjos dos Grizzly Bear, aqui soberbamente executadas, é outro dos seus pontos fortes enraizando assim a sua herança na pop de 60 (os Beach Boys vêm-nos logo à cabeça) com boas doses de psicadelismo e conjugação sónica inovadora (por vezes próximo do experimental), dando corpo a uma das mais interessantes propostas musicais que se revelaram no ano transacto catapultando-os como um dos valores seguros neste início de século. Depois de terminarem a prestação, que pecou por curta, ainda vieram ao palco para nos brindarem com uma versão acústica minimalista (guitarra acústica, precurssão e vozes) de “All We Ask”, não perdendo nada do seu fulgor e beleza, mostrando mais uma vez que por aqui habita o profissionalismo e uma dose substancial de entrega emocional à arte que praticam. Seguramente um concerto para ficar na memória e para repetir em condições ao nível do que os Grizzly Bear representam e vieram mostrar.

4,5/5

Friday, 23 April 2010

Sonic Youth @ Coliseu (22 de Abril, 2010)



Foto: (C) Rita Carmo/Espanta Espíritos; BLITZ

Não sendo um frequentador assíduo de concertos nos anos mais recentes, voltar à casa onde há quase um ano tinha ido ver o excelente concerto dos Wilco, colocava as expectativas bastante altas. Com bilhete comprado há mais de 2 meses, esta foi a forma de me impôr a estar presente, e posso dizer que não só não me arrependo como viveria amargurado perder a prestação dos Sonic Youth em nome próprio e não encaixotados num pacote promo em saldo de verão, como tem sido habitual nos últimos anos com as bandas que passam por este país. Para aperitivo, foram oferecidos os portugueses Gala Drop (o tipo disse o nome ao microfone, mas o som estava tão empastelado que não percebi patavina). Abrir com uma espécie de electro-funk-jazz não parecia mau de todo, mas passado o primeiro tema (algo repetitivo), os restantes não mostraram mais do que um enxerto da mesma ideia com variações para ritmo e (por vezes) guitarra. Para alguns até pode ser agradável, mas tudo não passou de música para encher o tempo, recorrendo a meia dúzia de truques fáceis que qualquer tipo com jeito improvisa e entra no esquema sem grandes floreados. O destaque vai todo para o baterista, no entanto, até o facto de o guitarrista ter tocado de costas para o público denuncia uma música que é feita para ouvir enquanto se toma uns copos e se fala com os amigos. Não desagrada, mas também não fica na memória.

Uma hora depois da hora marcada, o quinteto Sonic Youth faz a entrada no palco e começa a atacar o seu último álbum de originais o qual, por circunstâncias diversas, não colheu o meu interesse para o ouvir mais aprofundadamente. Mas é para isso que estes concertos também servem, pois agora é mais um que vai para a “lista dos desejos”. Os temas foram descarregados com a dose avantajada de decibéis que se espera do grupo (os meus ouvidos ainda zumbem em background), sustentado por um wall of sound de guitarras, por vezes dissonantes, conferindo uma dinâmica característica aos temas, onde o trio Gordon - Moore - Ranaldo entrosam de forma extraordinária, como velhos amigos que conhecem todos os seus defeitos e virtudes e se entendem na perfeição. Isto sem desmerecer, muito pelo contrário, a excelente prestação no suporte rítmico dado por Steve Shelley e Mark Ibold, com particular ênfase no dinamismo de Shelley. Às variações dinâmicas acrescem algumas rítmicas e desvarios sónicos, atributo pelo qual são particularmente conhecidos, aspectos estes que conferem à música dos Sonic Youth a sua diversidade e originalidade, algo que a maioria das bandas com coordenadas semelhantes não consegue ou então atola-se em repetidas emulações de fórmulas gastas. De permeio ainda se vão ouvindo temas do período dourado da banda (dois temas do Sister), algo que causa ataques de nostalgia na plateia em alguma malta à minha volta. O concerto passa ainda pela comunhão entre Thurston Moore e os espectadores da linha da frente, mas vai ganhando um crescendo extasiante terminando com a belíssima "Massage the History". A saída do palco naquele momento foi sentida como uma espécie de coitus interruptus, e o certo é que ainda voltaram mais duas vezes ao palco para nos brindarem com mais quatro temas dando assim, no conjunto, uma visão curta da sua carreira entre Bad Moon Rising e Daydream Nation. No fim, após creca de 1 hora e 50 minutos de concerto, notava-se a satisfação plena da turba pelo que se tinha assistido. Os Sonic Youth são um valor seguro ao vivo. São profissionais, são excelentes músicos, criaram a devida empatia com o público e a resposta só poderia ser um concerto, a todos os títulos, memorável. O som, como na última vez, tem nota negativa, embora melhore consideravelmente com a casa cheia, algo que falhou com os Wilco. Quem quisesse falar (cantar) ao microfone dificilmente se fazia perceber, no entanto esse aspecto foi corrigido algumas vezes, embora não as necessárias para que tudo estivesse, efectivamente, perfeito. O rock está vivo e continua a recomendar-se.

4,5/5

Set do concerto no Coliseu (com recurso à internet):
Os temas de The Eternal estão assinalados (*)
No Way*
Sacred Trickster*
Calming The Snake*
Anti-Orgasm*
Stereo Sanctity
Malibou Gas Station*
Walkin Blue*
Poison Arrow*
Schizophrenia
Antenna*
Leaky Lifeboat*
What We Know*
Massage The History*

Encore 1
Sprawl
Cross The Breeze

Encore 2
Shadow of a Doubt
Death Valley 69

That's all folks!

Sunday, 3 January 2010

Three of a Perfect Pair

É verdade. Passaram-se 3 anos desde que tive a infeliz ideia, diria mesmo que a todos os títulos lamentável, de começar este blogue. Como o aniversário (quase que) coincide com o início do novo ano, faremos uma breve recapitulação sobre algumas das coisas boas do ano passado. São apenas as minhas impressões sobre o (pouco) que tive oportunidade de acompanhar, ver ou fazer, por isso, nada de exaustivo.

Cinema: “Gran Torino” de Clint Eastwood e “Inimigos Públicos” de Micheal Mann;
Teatro: “O Ano do Pensamento Mágico” de Joan Didion com Eunice Muñoz no TNDM;
Concerto: Wilco no Coliseu dos Recreios, Lisboa;
Leitura de “O Leopardo” de Giuseppe Tomasi di Lampedusa;
Música: Ainda não, por razões sobejamente conhecidas dos frequentadores deste tasco, mas poderei afirmar que Grizzly Bear, Bill Callahan e The Legendary Tiger Man estão, até agora, entre os eleitos.

O que foi para esquecer:
A minha persistência em continuar por aqui, que já se assemelha perigosamente à atitude do Pedro Santana Lopes na política.

Quanto ao título, é apenas uma referência aos King Crimson, sobre quem espero em breve vir a escrever algo na continuação de uma rubrica que não está esquecida.


Um Bom 2010!

Tuesday, 2 June 2009

Wilco @ Coliseu de Lisboa


No passado Domingo dia 31 de Maio os Wilco visitaram-nos pela primeira vez, apresentando-se no Coliseu de Lisboa depois de virem do Theatro Circo em Braga. Sendo uma banda que fui aprendendo a conhecer e a gostar (e muito) nos últimos 3 anos, cativando-me com discos como Yankee Hotel Foxtrot e Sky Blue Sky de 2007, os Wilco representam um rock fresco com as melhores referências num registo mais ou menos folk, mais ou menos country, que mistura de uma forma bem estruturada e extremamente inteligente ingredientes modernos, onde a experimentação sónica ocupa um lugar concreto com a dose certa. Poderia lá eu perder um concerto de uma banda deste calibre? Claro que não! Mesmo que os preços, um tanto elevados conforme se queixaram alguns, fossem potencial fonte de repulsão. O que se viu no Domingo, foi um concerto que só não esteve perfeito porque a escassa audiência (Coliseu a menos de meia-casa) tornava aquela sala demasiado grande e deixava a banda algo desamparada. Mas os Wilco não só mostraram que são uma das mais importantes bandas da década, oferecendo um repertório que se baseou em mais de 50% nos discos acima mencionados e que constituem duas pérolas indispensáveis em qualquer discoteca, como são irrepreensivelmente profissionais e músicos de uma qualidade notável. As coisas começaram algo frias e não auguravam nada famoso quando ao segundo tema atacam “I am trying to break your heart”. Por mim achei uma delícia a forma como transpuseram este tema ao vivo, e a veia mais experimental/ambiental ainda continuou com “Radio Cure” para minha grande satisfação. Neste momentos quedei-me na dúvida se a maioria dos presentes conheciam verdadeiramente os Wilco pois faltavam reacções por parte do público. A custo, só lá para a metade do concerto ao som dos primeiros acordes de “Jesus, etc”, o público responde com uma ovação (contida) de nítida aprovação. No entanto não faltaram outras pérolas como “War on war”, “Ashes of American flags”, “Heavy metal drummer”, “Impossible Germany” ou “Sky Blue Sky”. O diálogo de guitarras tomava por vezes proporções que quase fazia pensar que estaríamos num concerto dos Sonic Youth, algo que não deixou de me surpreender, pois a gentileza dos temas em disco estava aqui transposta com uma dose de electricidade e decibéis avantajada, permitindo viagens que se iniciavam calmas e acabavam em autêntica esquizofrenia. A frieza inicial foi cedendo aos poucos durante o concerto, com algumas trocas de palavras entre Jeff Tweedy e o público, regadas com o sabor típico do humor americano para estas ocasiões. Até que os Wilco deixam o palco. Claro que a malta pede o encore e a banda cede. E aqui o público responde da melhor maneira, fugindo todo lá para a frente e em vez de um tema sairam 6, e deu-se todo um novo concerto, mais enérgico, vivo e comunicativo, incluindo o tema “You Never Know” do próximo álbum. O Coliseu, de repente, ficou contido no espaço da 1ª plateia e pena foi que todo o concerto não tenha sido assim. Refira-se por fim, o prazer de ver Nels Cline a tocar guitarra, mas justiça seja feita a todos os membros da banda que mostraram um entrosamento extraordinário. Como nota negativa, o som que estava demasiado alto, numa sala imprópria para o efeito. Mas aos cultores do nosso espírito perdoa-se-lhes tudo, mesmo estas pequenas derrapagens. Um excelente concerto a demonstrar que o rock não só ainda se encontra bem vivo, como se recomenda! 4,5/5

PS: Este é o post nº 200! Em jeito de comemoração, oferece-se um bilhete para a próxima actuação dos Wilco em Portugal...

Monday, 19 January 2009

Maio Maduro Maio

Vai ser, de facto, um Maio bem maduro pronto a ser degustado com prazer tal a oferta de concertos de antecipada qualidade. Uma vez que me vejo frequentemente atrapalhado para conseguir ir a concertos, espero que do lote destes três acepipes consiga acertar em, pelo menos, um.


Polly Jean Harvey + John Parish, 2 de Maio, Casa da Música no Porto


Antony and the Johnsons, 14 de Maio, Coliseu de Lisboa


Wilco, 31 de Maio, Coliseu de Lisboa

Saturday, 20 September 2008

My Name Is James, Just James!

Há momentos e ocasiões nas nossas vidas em que um punhado de circunstâncias, porventura algo aleatórias, nos levam a presenciar concertos que de outra forma não faríamos o menor esforço para ver, nem que se realizassem no nosso quintal. Ora bem, por razões familiares desloquei-me ao Crato no fim de semana de 30 e 31 de Agosto, aproveitando também o facto de ali se realizarem as Festas do Crato, ao que parece suficientemente badaladas pelos gastos opulentos para tão singela autarquia perdida num interior alentejano cada vez mais desertificado. Associado a tal evento havia um cartaz de estrelas internacionais em saldo, tais como Vaya Con Dios, Roger Hogdson e James. No dia em que estou presente, Sábado 30, caberia aos James animarem a noite no recinto. Pois bem... James!? Épá, eu conheço estes tipos. Tenho inclusivamente a memória da capa de um dos seus discos, com o nome da banda lá estampado. Quando é que estes gajos apareceram? Talvez anos 90, não? Andava perto, pois na realidade apareceram associados à onda Madchester, em finais de 80, mas foi na alvorada de 90 que o sucesso comercial lhes bateu mais vezes à porta. Depois da entrada de um grupo português que dava náuseas até às vísceras com uma música para telenovela em horário nobre (até parece que eram conhecidos tal a quantidade de gente que trauteava as músicas), lá vinham os cabeças de cartaz.


A entrada em palco dos James iniciou-se com o mui conhecido “Born of Frustration”, que Tim Booth (ainda com a careca tapada) ataca com a voz ululante acompanhada do trompete. OK! Com esta música fiquei localizado. Então são estes gajos! Dali para a frente, assistui-se a um concerto competente que em várias ocasiões haveria de passar por velhas glórias esquecidas, como “Sit Down” ou “Say Something”, entremeadas por músicas mais discretas mas competentes se atentamente ouvidas, herdeiras de um rock alternatvo da época como foi moda designar-se alguma dessa música. A assistência era um tanto surrealisticamente heterogénea mas pelo menos deixava que os outros pudessem ouvir a música tranquilamente. As condições acústicas para uma situação destas eram bastante boas, e os James deram em vários momentos provas evidentes de um profissionalismo irrepreensível, mostrando que a banda é constituída por bons músicos. A dinâmica em palco era excelente, com alguma versatilidade instrumental, que incluía o já mencionado trompete, o violino, precurssões e teclados vários, não faltando a desconcertante forma de dançar de Tim Booth. Fiquei a saber que os James editaram um novo disco este ano, razão pela qual andam em digressão. Seguramente tocaram músicas do seu último disco, algo que não posso avaliar porque basicamente desconheço a maioria da sua discografia. Mas ficou a sensação de uma banda que apresenta boas ideias concretizadas em canções melodicamente bem estruturadas por vezes com ambiências mais etéreas a piscar o olho a um experimentalismo envergonhado. Sem grandes inovações nem grande arrojo, as raízes dos anos 80/90 continuam na sua música, mas deve-se referir que as referências são das melhores da época, o que contribuiu enormemente para a boa disposição que senti em ouvir este concerto. Porque é assim, quando as coisas nos acontecem sem nós esperarmos absolutamente nada delas, que acabamos por apreciar melhor os momentos, e os momentos que os James me proporcionaram foram mesmo bons. Noutras circunstâncias, talvez não pensasse da mesma maneira o que nos faz reflectir sobre quão condicionada pelas expectativas é a nossa avaliação de um dado momento, concerto, música, ou outra coisa qualquer. Pela honestidade e por ter estado bem disposto: 4/5.

Friday, 14 March 2008

Ladies and Gentlemen We're About to be Launched into Space


Caríssimos frequentadores e visitantes ocasionais desta tasca:

Anuncia-se para breve, mais concretamente a 10 de Julho de 2008, no Passeio Marítimo de Algés (que se transformará certamente num autêntico Cape Canaveral) a actuação dos Spiritualized. Dias depois da edição do seu muito aguardado novo álbum, “Songs in A & E”, diria que não há muitas bandas no activo que me façam aguentar com multidões ruidosas e desconforto geral, para já não falar nas condições pouco ideais para audição de um concerto de uma banda que, segundo rezam algumas más-línguas (não sei o que rezarão a boas-línguas), constitui uma experiência única de vida.

Sunday, 10 February 2008

Balanescu Quartet @ CCB (7 de Fevereiro de 2008)

Após um longo jejum de concertos, acabei por iniciar o ano cruzando-me com velhos conhecidos: o Balanescu Quartet. Segundo os promotores, a Incubadora d'Artes, tratava-se de um retorno após 10 anos de ausência dos nossos palcos. Pelos vistos, a promotora deve achar que a Casa da Música fica no Burkina Faso, e talvez uma leitura do blogue do Puto elimine equívocos desnecessários. Passaram, de facto, quase 10 anos desde que eu os vi numa actuação ao ar livre que me deixou siderado. Não estava à espera das mesmas sensações, não só porque as condições são completamente diferentes mas também porque há sempre algo de irrepetível nos momentos que consideramos admiráveis. O mesmo não parece ter pensado a maior parte da assistência. Para iniciar a noite, sinto logo que sou mal recebido, pois no momento em que me dirijo aos assistentes para me sentar pesou à minha volta uma certa aura pedante, que me deixa uma triste consternação pelas atitudes provincianas desta ambiência lisboeta. Já durante o concerto ainda haveria de me deliciar interiormente com um sorriso irónico pela cereja em cima do bolo deste peculiar ambiente, irrepreensivelmente colocada pela maioria da assistência, na ignorância que nunca se deve aplaudir uma obra musical entre os seus andamentos. Entre isto e o tipo com o Mercedes topo de gama, exibindo a pulseira dourada a chocalhar no relógio metalizado vindo da feira da ladra, óculos escuros, e anel vistoso no dedo mindinho, não há muita diferença.


O Balanescu Quartet entrou em palco a horas, com Alexander Balanescu (mais o seu inseparável chapéu negro) e Kathryn Wilkinson nos violinos (pena não ter a Clare Connors, que era uma das forças criativas do grupo), James Shenton na viola e Nicholas Holland no violoncelo. Dividido em duas partes, o concerto inicia-se com Alexander Balanescu a fazer a introdução aos temas. O espectáculo começa com uma longa peça musical, a última que Alenxander Balanescu compôs para uma performance de um artista da República Checa. É uma suite com 6 andamentos e bastante agradável de seguir, possuindo momentos de grande tensão e dramatismo, fazendo por vezes uso do diálogo entre instrumentos e opondo sequências musicais com predomínio de graves alternadas com sequências onde predominam os agudos. Nas partes mais convencionais nota-se que Alexander Balanescu tem muita dificuldade em se despir das referências de Michael Nyman. Quanto às pausas nas peças musicais com andamentos, estas fazem parte do seu discurso e como tal devem ser respeitadas e não interrompidas, mas a maioria da assistência fez questão de ignorar o assunto por 5 vezes. Após um curto intervalo, o quarteto volta ao palco, agora para nos brindar com peças musicais mais afins da obra editada disponível. Começa com um dos primeiros temas compostos por Alexander Balanescu para o quarteto, uma espantosa canção, dita de amor, que deriva rapidamente para um universo mais caótico e dissonante, num registo que me fez lembrar a sua actuação de 1998. Seguiram-se duas peças do último trabalho editado de originais, “Maria T” (2005), “Aria” seguido de um tema com referências ao folclore Romeno. As duas composições seguintes provinham do álbum “Luminitza” (1994), porventura o seu trabalho mais consistente. O quarteto apresentou o tema “Still With Me”, num arranjo que usou música gravada para colmatar as naturais limitações que uma formação deste género tem para produzir todas as sonoridades originais do tema. Foi o momento fraco do concerto, pois a mistura simplesmente não resultou ao vivo e deixou no ar um quê de artificial. A seguir os músicos pegaram na excelente peça “Luminitza”, que dá o título ao álbum e pode dizer-se que, aqui, ganharam o público, apesar de terem estado um tanto ou quanto embrulhados na parte final da peça. Mas acabaram por se saír bem, a ponto de arrancarem uma ovação que os obrigou a voltar ao palco. O concerto terminou com a adaptação do tema “The Model” dos Kraftwerk. A julgar pela reacção espontânea do público aos primeiros acordes, era no fundo isto que a esmagadora maioria estava à espera. Saíram seguramente algo desiludidos, mas ainda bem, pois não considero que esta seja a mais interessante das facetas que o Balanescu Quartet podia ter trazido. Nota negativa para a acústica da sala conjugada com o sistema de som, que por vezes engordava os graves do violoncelo raiando a distorção, o que se tornava desagradável ao ouvido de quem se encontrava na plateia.

Resultado: um bom concerto, merecedor de uns 3,5/5.