Monday, 23 June 2008

Marte On The Rocks

Aquilo que tinha sido um dos grandes objectivos traçados para a missão da Phoenix, a descoberta de água sob um dos estados da matéria, acabou por acontecer em 15 de Junho passado (imagem da esquerda) onde a escassos centímetros abaixo da superfície se encontrou água no estado sólido. A fotografia da direita foi obtida 4 dias depois, a 19 de Junho, e mostra que parte desse gelo já desapareceu, tendo sublimado na atmosfera marciana. O que sempre se suspeitou até à data, com base em aspectos morfológicos e mineralógicos (por exemplo, a existência de minarais hidratados detectados por espectroscopia de infra-vermelhos) da superfície marciana, que em tempos a água terá desempenhado um papel importante na actividade superficial de Marte, parece ter agora recebido uma confirmação muito forte. De todas as missões ocorridas até ao momento, esta está ser a que vem obtendo resultados mais interessantes, o que é normal uma vez que à medida que vamos desvendando alguns dos pequenos segredos deste nosso vizinho planetário vamos orientando as futuras experiências com maior objectividade e acutilância.


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/Texas A&M University

Thursday, 19 June 2008

The Piano Has Been Weeping


É o melhor título que se sugere para anunciar aqui a triste notícia do falecimento de Esbjörn Svensson (1964-2008), pianista e mentor do fabuloso grupo sueco de jazz, Esbjörn Svensson Trio (e.s.t.), no passado dia 14 a fazer mergulho na costa sueca.

Já referidos aqui no estabelecimento, a propósito da edição do seu disco “Tuesday Wonderland” de 2006, tinham passado por cá em Julho de 2007 no CCB (que a crónica falta de tempo não me permitiu assistir) e deveriam apresentar-se ainda este ano na Casa de Música. Perdeu-se assim um elemento fundamental de um dos mais interessantes grupos de jazz que apareceram na última década.

“And the seven trumpets blowing sweet rock 'n roll,
Gonna blow right down inside your soul.” (Supper's Ready, Genesis)

Wednesday, 11 June 2008

Friday, 6 June 2008

Um Livro, Um Disco, Um Filme

Entrar em cadeias faz-me sentir preso e eu prezo a minha liberdade, mas em tempos a nossa amiga Rita desafiou a equipa cá da casa para uma destas actividades que acabou por não acontecer. Recentemente, nova investida aconteceu e em face do tema até acho que vale bem a pena dedicarmos um tempo das nossas vidas a eleger um livro, um disco e um filme que, de alguma forma, nos tenha marcado, ainda para mais com o aliciante de ser um português e um internacional. Falarmos sobre os nossos gostos e do que nos marcou é também uma forma de falarmos de nós próprios e de nos darmos a conhecer. Ora aqui vai:

Um Livro

Nacional: “Finisterra” de Carlos de Oliveira. Há poucos livros que tenha lido e que tenha sentido vontade de os voltar a reler no instante seguinte a os ter acabado. Mais raros são aqueles em que isso aconteceu de facto. Este foi um desses casos raros. Nem sequer consigo explicar porquê, mas a leitura deste livro de um autor português muito esquecido é de uma beleza indescritível e é pura poesia romanceada (ou romance poético, como preferirem). Não se explica, lê-se e é urgente passar por ele.

Internacional: “Narciso e Goldmundo” de Hermann Hesse. Uma busca da vida, da beleza e perfeição das coisas. Para sempre há-de ficar retida na minha memória a descrição notável da ressaca após alguém ter a noção consciente de que produziu uma obra-prima. E um confronto de personalidades, algo que já tinha sido explorado em “Ele e o Outro” (“Klein und Wagner”) de forma menos conseguida embora igualmente brilhante.

Um Disco

Nacional: “Coisas do Arco da Velha” da Banda do Casaco. Não foi algo de imediato, mas conheci este disco na altura em que saíu em 1976, e passados estes anos fui-me apercebendo de como um bando de visionários transformou e transfigurou por completo os cânones da música tradicional portuguesa, misturando um manancial de estilos da forma mais imaginativa possível. Olhando para as obras produzidas em solo luso, nada até aos dias de hoje sequer se assemelha ao que a Banda do Casaco conseguiu na época em que reinaram. E pensar que eram conotados como reaccionários de direita é a prova acabada da imbecilidade e provincianismo que, até aos dias de hoje, nos afecta de forma profunda.

Internacional: “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis. Estávamos em finais de 1974 e não é propriamente normal que um puto que tinha apenas 9 anos de idade andasse a ouvir coisas deste calibre. Acontece que o irmão de 17 anos ouvia destas coisas e era o modelo a seguir. Ao sexto disco de estúdio, os Genesis gravam a sua obra-prima, um disco ecléctico a piscar o olho à modernidade, com um forte cunho pessoal de Peter Gabriel em consequência do qual acaba por gerar tensões na banda e levar ao seu abandono do grupo no ano seguinte. Antes da despedida, o tour de apresentação do álbum ainda passou pelo Dramático de Cascais, coisa rara na altura ter bandas destas a pisar solo nacional, e é o concerto da minha vida que nunca vi (com 9 aninhos, o que é que eu estava à espera?). Durante anos este disco atormentou-me pela sua estranheza sendo uma obra singular na carreira dos Genesis. Hoje, não tenho dúvidas que o meu gosto musical foi muito influenciado por este disco (e outros também, obviamente), abrindo-me os olhos (e os ouvidos) para as manifestações mais estranhas da música.

Um Filme

Nacional: “Recordações da Casa Amarela” de João César Monteiro. Continuo a achar que é quase uma obra singular no universo cinematográfico português: bem realizada, melhor argumentada e competentemente filmada. Em vez de andarmos com acessos de intelectualismos ou banalidades telenovelescas, ou seja, o 8 e o 80, bem podiam os realizadores aprender a olhar para os clássicos e preocuparem-se em fazer apenas uma coisa: um simples filme!

Internacional: “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick. No tempo em que haviam reposições nos cinemas em Lisboa, ver este filme no grande ecrã do Apolo 70 foi uma experiência única. Uma Obra de Arte (assim mesmo, com maiúsculas)! O poder visual e musical, as valsas no espaço, o negro e o silêncio, o Homem e a Máquina, a tecnologia alienígena como instrumento do divino. Uma referência absoluta. Depois deste filme, a ficção científica nunca mais poderia ser a mesma.

Para finalizar, a todos os que resistiram a ler isto até aqui, levam com a maldição de fazerem o mesmo no vosso blogue, sabendo de antemão que se não o fizerem a vossa vida vai caír em desgraça, o Sócrates nunca mais vai saír do governo, os combustíveis irão subir mais 500%, o Santana Lopes é nomeado presidente do PSD porque a Manuela Ferreira Leite vai aceitar um cargo de Provedora dos políticos da 3ª idade, e o país irá mergulhar numa depressão profunda que o vai fazer desligar para sempre do futebol. Por isso, vejam lá o que fazem, está bem?

Thursday, 5 June 2008

Afinal, Há ou Não Marcianos?

Esta pergunta continua a pairar no ar, e creio que continuará por muito mais tempo, mas talvez esteja apenas a ser pessimista. No entanto, o Departamento de Defesa dos EUA guardava muito secretamente uma fotografia comprometedora aquando da chegada da Spirit a Marte. Por artes obscuras, este blogue tomou essa imagem que demonstra, para além de qualquer dúvida, que existe vida em Marte. E mais, estas formas de vida, cientes das merdas que os Americanos fazem na Terra, não foram de modas e manifestaram o seu veemente protesto pela invasão do seu espaço territorial.


Agora vejamos algumas outras notícias, mais actuais:


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

A imagem acima representa um padrão poligonal no solo resultado das contracção de gelo a baixas temperaturas, o qual quando volta a expandir com o aumento da temperatura, provoca o empolamento que vemos na imagem delimitado pelas depressões que mostram a forma poligonal. Agora os problemas: em primeiro lugar ainda não há notícias que se tenha descoberto gelo (ou seja, água) em Marte. Em segundo lugar, os modelos numéricos que explicam este fenómeno prevêm que hajam duas categorias de polígonos a escalas diferentes, 5 m e 22 m. Os de Marte têm entre 2.6 e 4.6 m, e alguns com apenas 1.4 e 2.4 m. Ao contrário do que é normal, em ciência as coisas só se tornam verdadeiramente interessantes quando não colam.

Finalmente fica uma imagem capatada da Phoenix a descer sobre o Planeta Vermelho, cerca de 3 minutos antes de aterrar, no momento em que atravessava a Cratera de Heimdall.


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

Monday, 26 May 2008

Is There Life on Mars?

Para além de ser o título de uma belíssima canção de David Bowie, é também o mote que persegue a sonda Phoenix, que às primeiras horas de hoje aterrou próximo do polo norte do Planeta Vermelho, qual reedição de uma Guerra dos Mundos, mas vista do lado de cá. Uma das primeiras imagens recebidas e retirada do site da NASA mostra uma planície a perder de vista, cheia de calhaus e fracturas poligonais no solo. Este é um aspecto morfológico sobejamente conhecido na Terra, resultado da fragmentação devido às amplitudes térmicas extremas a que a superfície está sujeita e que levam à formação de gelo no subsolo e subsequente fragmentação deste por expansão de volume do gelo. O problema é que não se detectou gelo (ainda).


Imagem: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

Tuesday, 20 May 2008

Alguém Sabe o que é o CNE?

Será “Confraria dos Necessitados de Emprego”? Não! Será “Consórcio de Nepotismo Eclesiástico”? Também não! Ou será “Conglomerado de Niilistas Estúpidos”? Convenhamos que está perto, mas também não! Ao que parece quer dizer “Conselho Nacional de Educação”.

E o que é que o CNE propôs e lançou na praça pública? A fusão dos 1º e 2º ciclos do Ensino Básico. E que obscura razão sustenta tamanha alarvidade? Acabar com a transição brusca entre o 4º e 5º ano de escolaridade, pois as criancinhas ficam deveras traumatizadas com estas chatices das mudanças dado que é um contraste “violento e repentino” (sic). Assim ficariam com um só professor por mais dois aninhos que deverá arcar com os programas das diferentes disciplinas que fazem parte do curriculum. É obra! Seguramente apenas tipos enciclopédicos e extraordinariamente dotados deverão assegurar tal cargo em virtude da importância fundamental na aquisição de conhecimentos e conceitos base em disciplinas como Matemática ou Português. O tal ciclo de 6 anos “visaria neutralizar as transições bruscas identificadas ao nível da relação dos alunos com o espaço-escola, as áreas e os tempos de organização do trabalho curricular e a afiliação dos professores” (não é por acaso que este discurso adquiriu o epíteto de “Eduquês” e na minha instituição diz-se que é ministrado no Departamento de Ciências Ocultas). Como se não bastasse um bando de tresloucados idiotas lançarem arrochadas deste calibre com aura de seriedade académica o governo, na pessoa do Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, em vez de os mandar passear e irem fazer algo de útil à sociedade ajudando uma ONG em locais de conflito armado, admite que isso até possa ser feito, embora não agora e depois de um largo consenso sobre a matéria. Qual consenso qual carapuça! Prendam mas é estes tipos que causam mais estragos ao País que um conflito armado no Médio Oriente. Isso sim, era um acto patriótico passível de condecoração no próximo 10 de Junho.

Em tempos corria a célebre frase “Se acham que a Educação é cara, experimentm a ignorância”. Infelizmente, creio que já a experimentamos pois não me ocorre melhor adjectivo para caracterizar esta gente.

Monday, 19 May 2008

Esta é Nossa!

Depois de uma temporada dominada pelos dragões (honra lhes seja feita), o nosso Sporting conquista mais uma Taça de Portugal para o palmarés... e vão 15!


Foto: Marcos Borga/Reuters in Público

Hoje, na rádio, ouvi que a manchete do jornal Record era qualquer coisa do género: “passarinho engole dragão”. Passarinho? Que raio de merda é esta? Desde quando é que a alma leonina (que vem de Leão e não de pássaro) se confunde com o epíteto mais adequado à má vizinhança da 2ª circular?

Saturday, 17 May 2008

Notícias de Ciência (I)


Boas notícias para os caçadores de Planetas extra-solares: a 2 de Abril foi publicado na Nature um artigo que propõe a possibilidade de aplicar técnicas mais precisas de calibrar os espectros luminosos de corpos celestes, o que permitirá a detecção de variações nos espectros quase diminutas. A técnica em causa são os “pentes de laser” (laser combs) que deram em 2005 aos seus inventores o Prémio Nobel da Física (Roy Jay Glauber, EUA; John Lewis Hall, EUA; Theodor Wolfgang Hänsch, Alemanha). A aplicabilidade na astrofísica (já designados “astro-pentes”) permite a medição de linhas espectrais de radiação electromagnética com uma precisão 60 vezes superior às das técnicas correntes de topo de gama. Assim torna-se possível a detecção de desvios nos espectros de estrelas que sejam causados pelo trânsito de planetas com massas pequenas (na gama do planeta Terra), o que de outra forma seria indetectável. Boas notícias para a astronomia na procura de locais potencialmente habitáveis no Universo (possivelmente com almas irmãs, se não forem gémeas).

Será que há bens que vêm por mal? Parece ser a conclusão de Judith Perlwitz, climatologista da Universidade do Colorado em Boulder e do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), pois os padrões de ventos sobre a Antárctica modificaram-se com a recuperação da camada de ozono, permitindo a incursão de massas de ar mais quente no interior do continemte gelado, acelerando a fusão da calote de gelo. Desde a assinatura em 1987 do Protocolo de Montreal que baniu o uso dos meléficos CFC's, que a camada de ozono tem vindo lentamente a recuperar na estratosfera. É uma camada que filtra os perigosos raios ultra-violetas do sol que são altamente lesivos para os tecidos orgânicos. O esforço de aplicação do Protocolo assinado em 1987 tem dado resultados positivos (um dos exemplos de sucesso que muitos desejam que aconteça igualmente com Quioto) prevendo-se que dentro de 70 a 100 anos o Planeta recupere a camada de ozono com a espessura original. Agora verifica-se que a sua depleção talvez tenha contribuído para o retardamento da fusão dos gelos antárcticos devido ao aquecimento global do planeta. Mais um exemplo demonstrativo da complexidade do sistema com que lidamos e que estamos muito longe de compreender.

Figura (C) NASA

Thursday, 15 May 2008

É a Humanidade Que, Lentamente, Vai Morrendo

Ter lido recentemente que Abdel-Qader Ali, um nome que nada me dizia a mim nem aos milhões que habitam este Mundo, matou a sua própria filha, Rand Abdel-Qader de 17 anos, com a ajuda dos irmãos desta no passado dia 16 de Março por se ter simplesmente apaixonado por um soldado britânico, deixou-me um nó na garganta e uma angústia revoltada. E fez-me pensar sobre as milhares (ou milhões) de injustiças que se praticam por esse mundo a pretexto de um conjunto de crenças religiosas que são justificação vazia para coisa nenhuma, mesmo que as nossas consciências de europeus de espírito liberal nos intimem a respeitar as diferentes culturas. Pois eu acho que devemos dizer BASTA! Chega de falsos moralismos e atitudes politicamente correctas de condicionar os nossos comportamentos em função dos outros quando os outros se estão positivamente nas tintas para os nossos. Respeito pela cultura e tradições dos povos sim mas não à revelia dos princípios mais elementares de respeito pela vida, pois não andámos a percorrer um caminho de séculos a torturar, escravizar, matar em nome de um Deus que tem mais sangue nas mãos que o mais cruel dos homens no planeta, chegando a ideais e valores de respeito por essa vida humana para de repente abandonarmos essas mesmas conquistas. Conquistámos o direito à liberdade de nos exprimirmos com respeito pelo próximo e não para condicionarmos essa mesma expressão por pretensamente ferir a susceptibilidade de um bando de fundamentalistas, religiosos ou de outra estirpe. E porque a culpa dos nossos antepassados não transparece para nós da mesma forma que não faz sentido julgar atitudes e actos do passado à luz da lei e princípios do presente, mais o silêncio torna vã a morte das vítimas passadas às mãos dos seus carrascos. E digo isto na consciência que em tempos foi o mundo árabe que demonstrou aos europeus, que não passavam de uma corja de bárbaros, os valores da tolerância e convivência entre as diferentes crenças religiosas e quem preservou os tesouros do conhecimento humano tendo, ironicamente, contribuído de forma fundamental para o progresso social (e não só) do ocidente infiel. Não devemos confundir a floresta com a árvore, mas infelizmente há vastas áreas que não merecem o mínimo respeito e atitudes como as que motivaram a minha indignação não merecem qualquer perdão, por muito que invoquemos um Deus misericordioso que não é mais que uma patética invenção humana criada para nos auto-ilibarmos. É angustiante constatar no meio desta barbárie que são sempre os mais fracos que sofrem e é por eles que devemos lutar e denunciar, sejam as mulheres, as crianças ou os enjeitados. Eles não merecem que os abandonemos, pois são a pesada moeda de troca de jogos geopolíticos internacionais que cobardemente os nossos governos se recusam a condenar e denunciar. Esta deveria ser a verdadeira luta dos soldados.