Thursday, 15 April 2010

O Vulcão Que Veio do Frio

Imagem impressionante da coluna de cinzas e vapor de água da recente erupção sub-glaciar do vulcão Eyjafjallajokull, no Sul da Islândia.


Foto retirada do site do Público; Foto da Guarda Costeira Islandesa/Reuters

Tuesday, 13 April 2010

Vaticanic


O Titanic precisou de um iceberg para ir ao fundo. Ao Vaticano nem por isso, pois parecem ser os próprios habitantes que se esforçam diligentemente para afundar ainda mais a já agastada imagem da igreja católica. Já meteram judeus, e agora homossexuais, ao barulho no ignóbil acto cometido entre portas da instituição e seus representantes, que é a pedofilia. Em vez de andarem com elucubrações fantasiosas sobre as razões que levaram à prática destes actos, melhor seria deixarem a sociedade e a justiça civil tratar das devidas punições e pensarem no que leva uma fatia substancial de perturbados sexuais seguirem o chamamento de deus. Ou isso, ou me arrogo no direito de afirmar que há amplas evidências que apontam a elevação a cardeal de pessoas genuinamente estúpidas.

Tuesday, 30 March 2010

Resenha Cinéfila

Tempo de pôr a escrita em dia, ainda que saiba a comida requentada, sobre os filmes que vi no último mês e meio e que me merecem o tempo dispendido para vir escrever algo sobre eles. Entenda-se isto como um simples diário de bordo sobre alguns dias dedicados a esta nobre arte: o cinema.

Nas Nuvens/Up in the Air (Jason Reitman)

Comédia simpática e agradável de seguir, do realizador Jason Reitman (o mesmo de “Juno”), apresenta-nos uma história cujo argumento encerra em si uma boa ideia que de forma alguma é desbaratada no desenrolar da acção. Abordando um tema que não podia ser mais oportuno nos tempos incertos que se vivem, Nas Nuvens mostra-nos um conjunto de personagens que, na realidade, se sentem tão perdidos na sua vida sentimental quanto os muitos anónimos a quem têm a ingrata tarefa de anunciar que a empresa onde trabalham prescindiu dos seus préstimos. E se é verdade que Natalie (Anna Kendrick) aparece a perturbar o equilíbrio desse mundo estéril de relações e afectos a que Ryan (George Clooney) tão comodamente se habituou, não deixa de ser irónico que seja a emocionalmente frágil Natalie quem dá à sua vida a necessária mudança de rumo escapando ao inevitável buraco negro do meio onde se encontra, usando para isso os mesmos veículos de comunicação que justificaram a sua contratação. De salientar a boa prestação de Vera Farmiga no papel de Alex.

3,5/5

Um Homem Singular/A Single Man (Tom Ford)

Um Homem Singular representa o melhor filme que me foi dado a ver nos últimos tempos. Filme que passa o dia 30 de Novembro de 1962 com George Falconer (Colin Firth), um professor de literatura, que decide ser esse o último dia da sua vida, fazendo o luto pela perca do seu companheiro de há 15 anos, Jim (Matthew Goode), algo que lhe foi negado por uma sociedade ainda fechada e recriminatória de certos comportamentos sociais. As notícias recorrentes em pano de fundo sobre a crise dos mísseis de Cuba, um dos momentos mais problemáticos de toda a Guerra Fria, é igualmente premonitório de um futuro que, aos olhos do protagonista, é mais que incerto naquele presente. É nesta perspectiva que tudo se conjuga neste filme, pois as mudanças cromáticas acompanham o estado de espírito de George, assim como a música carrega consigo um constante sentimento de profunda tristeza. Adicionem-se os cuidados nos adreços e guarda roupa, que auxiliam a composição do filme como uma sequência de postais ilustrados de época com cores envelhecidas pelo tempo, e temos um obra que funciona como um todo orgânico e coerente, de tal forma manipulada que não sobrevive sem nenhuma das partes e com o cuidado de nenhuma componente se sobrepôr às restantes, deixando espaço para as personagens respirarem. Julianne Moore é soberba e protagoniza um dos raros momentos de “euforia” no filme ao som de Green Onions de Brooker T. & The MG's. Uma vez chegado o fim do dia, as peças vão-se encaixando como que a tentar dizer-nos que, por mais que queiramos, não podemos escapar ao destino e que o melhor é ficarmos em paz com a vida. E George consegue-o.

4,5/5

Shutter Island (Martin Scorcese)

Martin Scorcese é um realizador profundamente cinéfilo. É verdade que, uns mais outros menos, todos o serão, mas não há muitos que recorrentemente no seu mister façam disso uma permanente citação e homenagem aos clássicos e aos nomes que o procederam e fizeram a história do cinema. Como diria Newton, “Se eu vi mais longe foi porque me sentei no ombro de gigantes”. Shutter Island é um filme que deve muitas referências ao clássico filme negro americano, com uma genética profundamente Hitchcockiana, em que o espaço e o cenário funcionam como agentes do medo e do sobressalto com largas doses de psicanálise a repisarem os fantasmas do passado do protagonista. Ainda que competentemente filmado e elevado a um nível a que um grande realizador como Scorcese consegue fazer, o argumento não deixa de ser algo decepcionante pelo facto de a temática se encontrar demasiado revista nos últimos anos. Di Caprio não parece agarrar verdadeiramente a sua personagem, em contraste com as prestações de Mark Ruffalo e Ben Kingsley. Pese embora estes detalhes, a competência de Scorcese nunca permite estarmos perante um objecto vulgar de cinema, e por isso vale a pena ir vê-lo.

4/5

Monday, 1 March 2010

Fama Show



E não é que os Genesis foram nomeados este ano para o Rock 'n' Roll Hall of Fame?

Eis o que está no site respectivo:

Almost no group in rock history has had such a long and varied career as Genesis, who began as a cult art-rock band in England in the late 1960’s and went on to pack stadiums across the globe in the 1980’s, 1990’s and on their 2007 reunion tour. In the early 1970’s frontman Peter Gabriel shocked audiences and grabbed headlines by taking the stages in outrageous costumes and occasionally even levitating above the audience. Their music was equally innovative, and early albums Selling England By The Pound and The Lamb Lies Down On Broadway are two of the most acclaimed prog-rock albums in the history of the genre. In 1975 Gabriel left the band to pursue a solo career and drummer Phil Collins stepped out from behind the kit to take over. The band experienced many more hits and successful worldwide tours over the next 30 years.

Embora seja da praxe ir lá tocar umas cenas, ainda não é desta que o grupo se reune com a formação clássica, pois Peter Gabriel já fez saber que nem sequer pode estar presente.

Ainda assim, esta nomeação talvez denote uma outra coisa: será que o rock progressivo está a deixar a aura de estilo maldito e desprezável pela intelligenzia da música pop? Se sim, é apenas um sinal que a dita intelligenzia se está a tornar um pouco mais inteligente, pois a falta deste reconhecimento era um dos pontos em que o dito Hall of Fame era mais criticado. Mas ainda restam vários estilos (aliados a preconceitos) a serem devidamente reconhecidos, se é que se quer fazer disto um digno representante da história da música popular.

Sunday, 21 February 2010

Espaço


Por ser simplesmente bonito e porque imaginamos aqui a banda sonora de Kubrick de 2001 a dominar o bailado destas peças de tecnologia em órbita terrestre, no caso concreto, a Estação Espacial Internacional. Foto da NASA retirada do site do Público.

Thursday, 18 February 2010

Vícios Privados, Revelações Públicas

Ninguém questiona o dever de segredo de confissão dos padres das diversas religiões cristãs. Ninguém se atreve a mexer no sigilo bancário. Ninguém questiona o dever de sigilo profissional dos advogados. Então, porque razão se atropela de forma impune e sistemática o segredo de justiça? O que me incomoda não é ficar na ignorância do que o primeiro ministro, um membro do conselho de administração da PT, um ministro, ou um gestor do BCP disseram entre si nas conversas telefónicas. O que verdadeiramente me incomoda é a inépcia da justiça em zelar pelos interesses do Estado e dos seus cidadãos perante actos de corrupção e atentados à liberdade individual, quer sejam arguidos ou não.

Tuesday, 16 February 2010

Whatever Works! Not Always


Até parece que dei em cinéfilo, mas na realidade serei apenas um amante da 7ª arte com gosto pela coisa que agora arranjou um pouco mais de tempo para reavivar este prazer antigo. Pois bem, os mais atentos reconhecerão no título deste texto o título do último filme de Woody Allen. Falar de Woody Allen, é como falar das férias ou das noites de farra com os amigos. Aparte o exagero de reduzir Woody Allen a uma mera conversa de circunstância, ao olhar para a longa carreira deste realizador fica-me a sensação de alguém que nunca quis fazer do seu cinema mais do que um momento de boa disposição conjugado com (auto)terapia psiquiátrica. Também não quero dar a sensação que não gosto do Woody Allen, o que não podia estar mais longe da verdade. Allen tem a sensibilidade cinematográfica dos mestres que admira e a veia literária adequada aos temas que aborda. Em vários aspectos é um realizador singular. Enquanto que vemos a maioria dos realizadores como uma peça numa engrenagem gigantesca que ele se esforça a todo o custo não atrapalhar, Allen é uma espécie de homem dos 7 instrumentos, o performer de rua que apresenta, toca, canta, dança, lança os foguetes e apanha as canas, e segue descansado para casa dispensando a meia dúzia de amigos que o ajudaram naquele dia. É pois uma free-mind que faz o que lhe dá na real gana como forma de expiar as suas crises existenciais e amorosas, as suas dúvidas teológicas e morais, a sua hipocondria, lançando algumas farpas às realidades sociais que o rodeiam num dado contexto, sendo que este é frequentemente o meio artístico de Nova Iorque.

Nova Iorque, pois! Se há realizador que mostra amor por Nova Iorque, a resposta vem célere em forma de Woody Allen. Veja-se Manhattan e precebe-se porquê. Este último filme parece por isso um regresso do filho pródigo, ou o reatar de uma relação que acabou em divórcio. E nesse aspecto este Whatever Works (Tudo Pode Dar Certo) (a)parece (como) uma súmula de tudo o que Allen já nos deu. Colocar ali todos os fantasmas e problemas já passados e esperar que... whatever works. E se a fluência até nos mostra um filme que tem piada, não aborrece e nos deixa com a sensação de uma hora e meia bem passada, já por outro lado fica aquela sensação de déja vu, em que o efeito surpresa desvanece-se a cada cena que passa pois temos a certeza que Woody Allen, pese embora as citações cinematográficas (com especial ênfase em Apocalypse Now), se cita a si próprio com tal asseverança que praticamente se auto-plagia. E não é só a relação entre Boris (Larry David) e Melody (Evan Rachel Wood) que nos remete para a relação em Manhattan, é a recorrência sobre a sua crise existencial cimentada pelo acto de envelhecer e até o interpelar da audiência (lembremo-nos de Rosa Púrpura do Cairo). Aqui não há lugar ao brilhantismo do argumento de Match Point, nem tão pouco da comédia despretenciosa de Scoop. Poderemos dizer que Woody Allen não se deu mal em Londres e que se dá melhor em Nova Iorque. Mas não por este Whatever Works, mas pelo que fez no passado. E é por isso que é preciso mais que uma simples reconciliação para que essa relação volte a funcionar como algo fresco e que nos diga que vale a pena. Nota positiva para o facto de Larry David não tentar sequer emular os tiques nem a hiperactividade de Allen que dispara palavras ao ritmo alucinante de uma metralhadora, tal como Kenneth Branagh o fez em Celebridades, detalhe que nos dava vontade de lhe despejar o carregador de uma metralhadora em cima.

(3/5)

Saturday, 13 February 2010

Turn Sixty


Foi há 3 anos que abri este estabelecimento, e à terceira postadela estava a dar os parabéns ao David Bowie pelos seus 60 anos de vida. Agora, estou a fazer a mesma coisa para o Peter Gabriel. E a oportunidade não poderia ser melhor dado que daqui por dois dias sai o seu novo disco, agora a reinterpretar músicas escritas por outros, desde Paul Simon e Neil Young aos Radiohead, Magnetic Fields e Bon Iver, num total de 12 temas. E também é verdade que Bowie e Gabriel têm uma ligação entre si, não só pelo facto de no próximo disco de Gabriel haver uma versão do “Heroes”, como foram ambos os expoentes máximos da teatralização das performances musicais nos anos 70. Bowie num registo, apesar de tudo, bem mais contido que o de Gabriel que levou os Genesis à capa da New Musical Express quando, numa performance do grupo e surpreendendo os próprios colegas que desconheciam o que se iria passar, entra em palco com um vestido vermelho e uma máscara de raposa enfiada na cabeça. O rapaz tímido e contido, com um ego ainda latente, acabaria por expôr todos os seus desejos e ideias nos concertos dos Genesis que levariam os restantes membros da banda a não acharem muita piada ao caminho que se estava a tomar, porque a música parecia ficar para segundo plano e os admiradores cada vez mais associavam a banda a uma extensão de Peter Gabriel, quando na realidade a mesma fora criada na base da comunhão e participação de todos na composição musical. A corda esticou e acabou por rebentar com o álbum “The Lamb Lies Down on Broadway”.

Decorridos mais de 2 anos e alguma clausura fora do barulho das luzes, Peter Gabriel começa a sua carreira a solo com a edição do seu primeiro álbum sem nome a que se seguiriam mais 3 na mesma linha, conhecidos simplesmente por I (1977), II (1978), III (1980) e IV (1982), ou por “Car”, “Scratch”, “Melt” e “Security”, aludindo à fotografia da capa dos discos ou, no caso do último, pelo nome como foi editado nos Estados Unidos. O tema “Solsbury Hill” do primeiro registo, recuperado como hit no álbum “Plays Live” de 1983, era a expiação dos fantasmas e dos acontecimentos que levaram à saída de Gabriel dos Genesis. Neste primeiro álbum, Peter Gabriel explora várias formas de expressão musical, incluindo uma das suas favoritas, o soul. É um disco ainda agarrado ao passado e a dar corpo à afirmação pessoal. No disco seguinte começam as sementes do experimentalismo e a colaboração com Robert Fripp (produtor do disco). Um disco algo desequilibrado mas denunciador dos elementos que antecipavam as ideias para o disco seguinte e que se pode considerar uma herança do “The Lamb...” com os Genesis. Robert Fripp tinha, com este disco de Peter Gabriel, o de Daryl Hall que nunca saíu e o seu “Exposure” de 1979 (que inclui versões de dois temas de discos de Peter Gabriel e o “North Star” cantada por Hall) a intenção (entretanto gorada) de criar esta trilogia de discos a sair em 1978. O grande salto iria ocorrer com o terceiro registo, uma obra prima que, de forma algo injusta, raramente é considerada como tal. Gabriel consegue criar uma atmosfera e um estilo musical único, carregado de negrume onde os sons dos instrumentos são depurados ao essencial, e juntos constroem as peças musicais suportados pelas percursões. Neste disco começa igualmente uma abordagem a temas como o medo, e exclusão e a consciência política mais activa. Da abertura de “Intruder” com a utilização da técnica gated drum que lhe confere uma força incomum, ao clássico hino anti-apartheid “Biko” cuja guitarra inicial emula um grito lancinante de angústia, passando pelo hit “Games Without Frontiers”, o disco nunca é menos que muito bom. O passo seguinte foi a continuação destas ideias mas em que a experimentação e a exploração dos ritmos africanos vão tomando forma, num álbum cuja produção sonora é irrepreensível e o primeiro, senão dos primeiros, misturado digitalmente.


A admiração de Peter Gabriel pelo cinema e demais formas de arte audio-visual já vem do tempo dos Genesis com as performances de “The Lamb...” e quando o realizador de “O Exorcista” o convida para uma colaboração mercê da leitura de um dos seus textos surrealistas e impenetráveis. Apesar dessa oportunidade nunca concretizada, o cinema acabou por ter um papel fulcral na sua carreira, encimada pela banda sonora de The Last Temptation of Christ (1989) de Martin Scorcese e de Rabbit-Proof Fence (2002) de Phillip Noyce. No entanto, o período após 1982 veria um Gabriel mais preocupado com uma vertente pop materializada no seu disco “So” de 1986 e produzido por Daniel Lanois. Disco explorador de uma síntese brilhante das ideias anteriores e de ritmos soul e r&b que deram lugar a “Sledgehammer”, o qual representa um marco na produção vídeo, merecedor de vários elogios e prémios. Continuava assim a demanda pela performance e mistura de diferentes formas artísticas. O disco alcançaria um sucesso sem precedentes e, ironicamente, destronaria do top o álbum da sua antiga banda. A componente exerimental ía sendo deixada para segundo plano, mas a faixa final, com pouco mais de 3 minutos, é reveladora da especial aptidão que demonstra para explorar atmosferas negras. De permeio ainda teve uma colaboração com Laurie Anderson na co-autoria de “Excellent Birds” no disco “Mr Heartbreak” de 1984. A dispersão por diferentes actividades, que incluem a fundação de uma editora dedicada à promoção de músicas do Mundo, deixam cada vez menos espaço para a criação musical. Os registos começam a ser muito espaçados, e “Us” de 1992 é uma espécie de condução em piloto automático e o continuar do filão de “So” mas com resultados muito mais modestos, se não tanto comerciais pelo menos artísticos. Tirando os projectos paralelos cinematográficos, teríamos de esperar dez anos pelo registo seguinte, “Up”, de 2002. Parece uma espécie de “sit back, relax, and think what you've done”. Referências à vida, mas em especial à morte e ao(s) medo(s), é a constatação que é nestes campos onde Peter Gabriel se mexe melhor, conseguindo uma ambiência e atmosferas que mostram que a vontade de fazer algo novo e consequente não morreu. Não sendo um disco de assimilação imediata, é uma síntese equilibrada de muitas ideias dos registos de “III” e “IV”, complementadas por ideias atentas à música da altura e um certo requinte orquestral resultado dos anos de experiência. É pois um disco de alguém que não precisa de demonstrar nada a ninguém, despojado do acessório embora não do adorno sóbrio. De salientar o tema de abertura, “Darkness”, cujos momentos sujos e agressivos denotam que ouve, ou ouviu, Nine Inch Nails, pelo que não é de estranhar que tenha sido Trent Reznor a remisturar alguns dos temas incluídos no lado b dos singles.

Em 2010, Peter Gabriel faz 60 anos, faz um disco de versões de músicos e bandas que cobrem o espectro temporal da sua vida artística, do passado à actualidade, e volta a trabalhar com Bob Ezrin, produtor do seu primeiro disco em 1977. Uma bela súmula condensada no ciclo da vida, com as críticas a inidiciar que, mais uma vez, Peter Gabriel consegue manter um estatuto de criação artística que, embora embaciado pelos anos, mantém um brilho que poucos conseguem manter ao longo de uma carreira com esta longevidade, sem discutirmos se é melhor ou pior, pois isso não compete ao próprio, mas aos que ainda o ouvem com gosto. E eu sou um deles.

Friday, 12 February 2010

O Fio da Meada

As embrulhadas que recorrentemente afloram a público sobre as alegadas tentativas de controlo do Governo sobre a Comunicação Social têm vindo paulatinamente a desgastar a imagem do Primeiro Ministro. Se as suspeitas no caso Freeport configuravam muitas vezes uma tentativa forçada de colar José Sócrates a uma aprovação cujos contornos legais eram no mínimo suspeitos, mas que perigosamente faziam resvalar os ataques ao Governo para a história do pastor e do lobo, as recentes trapalhadas públicas e esfarrapadas explicações que não explicam coisa nenhuma, não parecem deixar muita margem de manobra. Um Governo sob esta carga de suspeita, mesmo que inocente na matéria, coisa que parece não estar, não tem condições para continuar em funções. Não será por acaso que no PSD se desencadeou uma vaga repentina de ataque à liderança. Mas como parece faltar verticalidade de carácter a esta classe política, talvez tenhamos de esperar sentados para que o óbvio aconteça. No entanto subsiste uma dúvida: alguém me explica como é que o José Eduardo Moniz, que se diz vítima desta estratégia, acaba na vice-presidência da Ongoing, a empresa que segundo os jornais de hoje faria parte da estratégia da PT, e por conseguinte do Governo, para controlo dos media?

Wednesday, 10 February 2010

O Mundo Formatado

Já tem sido aqui abordada a encruzilhada em que a actual indústria discográfica se encontra. Fruto de um misto de ganância e vistas curtas, não é preciso ser muito perspicaz para se prever que daqui advêm consequências, mais ou menos graves, para as produções discográficas periféricas, da qual Portugal faz parte. Os downloads maciços e a perca de receitas com a venda de CDs, por muita vontade de fazer a cama aos gulosos das multinacionais que nós tenhamos, tem como resultado final o prejuízo efectivo dos que fazem da arte a sua forma de vida e ganha pão. O mundo globalizado põe toda a gente a gostar e a consumir a mesma coisa. Mesmo aquela música dita alternativa ou indie tem, à escala global, mais vendas e proveitos que o mais mediático músico lusitano. E é disso que se trata, de um factor de escala.

Vem isto a propósito de numa recente entrevista, Laurent Filipe afirmar que precisa de 20 mil euros para gravar um disco, valor com que nenhuma editora se atreve a avançar. Se a estupefacção for tão grande como a minha, eu repito: são mesmo 20 mil euros. Isto é o que custa um carro de gama média que muita gente da classe média compra. Claro que ser um músico de jazz, por muitas qualidades que tenha, e Laurent Filipe tem-nas de sobra, não é bem a mesma coisa que um gajo pegar numas guitarras em que arranha uns acordes, dá-lhe umas batidas e coloca três ou quatro notitas num órgão Casio, mistura tudo no computador, faz um sucesso bestial e transforma-se num geniozinho (substantivo recentemente em voga para entronizar qualquer coisa com piada com uma atitude DIY) que conseguiu furar a ganância das multinacionais. Não, aqui falamos de gente que toca música um pouco mais elaborada, acto que a maioria dos ditos geniozinhos seriam incapazes de alguma vez fazerem. E com isto não quero fazer juízos de valor sobre a qualidade intrínseca de cada coisa, pois cada um terá o seu espaço e os seus públicos. O espaço e os públicos onde Laurent Filipe se move tem músicos profissionais que, como toda a gente, precisam de um ganha pão, e por isso 20 mil euros até parece ridiculamente obsceno para produzir um disco que conte com a participação de uma orquestra e alguns convidados, tal como Laurent Filipe confirmou. E isto é de uma pessoa que no dia 8 de Junho de 2009 comemorou, com um concerto no CCB, os seus 30 anos de carreira.



Laurent Filipe – A Luz, A Luz (2004)
Laurent Filipe (trompete), com Mário Delgado (guitarra), Rodrigo Gonçalves (piano), Nelson Cascais (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria)