Sunday, 8 March 2009

10 Anos Sem Kubrick


Ontem, dia 7 de Março, decorreram 10 anos sobre a morte de Stanley Kubrick que faleceu escassos dias após ter concluído o seu último filme, “Eyes Wide Shut”. Para os cinéfilos e admiradores em geral, é inevitável a pergunta: como seria o próximo filme de Kubrick? Atendendo ao facto de cada um dos seus últimos filmes ter saído com intervalos de tempo cada vez maiores, 4 anos entre “A Clockwork Orange” e “Barry Lyndon”, 5 anos entre este e “The Shining”, mais 7 anos para “Full Metal Jacket” e mais 12 anos para “Eyes Wide Shut”. O mais provável seria não haver ainda um novo projecto, mas a haver seria diferente, de tudo e de todos, incluindo dele próprio. É esta surpresa e capacidade de reformulação cinematográfica que torna a obra de Kubrick tão singular e, ao mesmo tempo, fascinante. E este fascínio deixa-nos órfãos perante uma miríade de cineastas, alguns dos quais igualmente grandes, mas nenhum suficientemente egocêntrico, obsessivamente meticuloso e louco megalómano à escala do que Kubrick foi, e foi tão grande que vergava os próprios estúdios (Warner) para quem trabalhava (ou talvez fossem os estúdios que trabalhassem com ele). Em qualquer dos casos, Kubrick faz-nos falta e de uma coisa apenas poderemos estar certos: não haverá mais nenhum filme seu.

Wednesday, 25 February 2009

A Origem da Censura

Agora foi em Braga, onde a PSP apreendeu um conjunto de livros cujo crime era terem na capa uma reprodução da obra de Gustave Courbet, A Origem do Mundo. Este país anda com acessos de moralismo e censura a mais para o meu gosto, e a um nível que me começa a preocupar mais do que a crise financeira global. Pergunto-me se a entrada no Museu d'Orsay estará interdita a menores de 18 anos. Talvez não esteja... mas só porque o museu não é em Braga. É caso para dizer: vão para a “origem do mundo” da vossa mãe!


Sátira de Tanja Ostojić à UE, baseada na obra de Courbet (igualmente censurada lá para os lados da Austria, se bem me recordo)

Tuesday, 24 February 2009

Coisas do Arco da Velha (#6)


Home Taping is Killing Music” era a mensagem que por vezes se encontrava nas capas interiores em papel (enventualmente forradas a plástico por dentro) dos discos de vinilo importados de Inglaterra. O logotipo, com uma cassete e dois ossos cruzados, cita não só a simbologia pirata mas também a morte e constitui um sinal dos tempos em que, tal como hoje, se copiava a música. Mas as diferenças eram muitas, para não dizer substanciais. Estas diferenças podem resumir-se a dois aspectos fundamentais: o formato de cópia e respectivo suporte que não era de todo portátil e a inexistência de redes de partilha que não fossem para além do grupo de amigos do bairro. Assim, havia pelo menos alguém que comprava o disco e que se dispunha a emprestar aos outros para o poderem gravar. E os outros eram um grupo de dois ou três (uma dezena eventualmente) de amigos, que o faziam numa atitude comunitária de partilha, ou seja, eu gasto os meus cobres nestes discos, tu gastas naqueles, e depois trocamos. Havia um genuino prazer de ouvir a música, e houvesse dinheiro nos bolsos para a comprar, ninguém na realidade trocava o vinilo pela fita da cassete que enrolava, ficava gasta, degradava rapidamente e tinha uma qualidade sonora que deixava, e muito, a desejar. Hoje, a internet e a produção musical em formato digital alterou por completo este padrão (de consumo e de atitude) e fez com que este aviso pareça estranhamente obsoleto e exageradamente alarmista à época, fruto de uma indústria que, na altura tal como hoje, conviveu mal com o mercado que quis sempre controlar à força, incapaz de ter visão e prever o alcance e dimensão que o problema tem nos dias de hoje quando os primeiros CDs chegaram ao mercado. Aliás, foi precisamente nesta altura em que a ganância das editoras chegou ao seu grau superlativo quando pairou no ar a morte anunciada do vinilo promovendo assim junto das classes com maior poder de compra a substituição maciça dos seus discos antigos por CD. Um erro crasso de onde todos sairam a perder e mais um exemplo de falta de visão cuja melhor elegia foi escrita por José Vitor Henriques ao afirmar “que o vinilo se vestiu de preto para assistir ao enterro do CD”, e eu acrescento, “...ingloriamente assassinado pelo mp3”. A cópia e distribuição de música tornou-se de tal forma facilitada e generalizada que o seu consumo deixou de ser feito com prazer e reflexão, para passar a ser voraz e urgente, como quem consome compulsivamente e de forma doentia numa sociedade inundada de produtos e informação. A questão já não é ter os discos de que se gosta, é conseguir ter o maior número de discos possíveis. Não importa sequer se temos ou não tempo para os escutar, o que importa é dizer que se ouviu ou conhece o maior número possível de bandas. Mas que outra coisa estaríamos à espera num tempo em que cada vez mais se olha sem ver e se ouve sem escutar?

Friday, 20 February 2009

É Carnaval e o Magalhães Não Leva a Mal


Agora que venha o Ministério Público mandar prender-me ou fechar esta merda!

Wednesday, 18 February 2009

O Tempo dos Cardeais

Agora é a vez de um tal D. José Saraiva Martins que vem a púlpito enviar mensagens que seguramente julga sábias e, quiçá, divinas. Não só reiterou as recentes afirmações do Cardeal Patriarca de Lisboa sobre casamentos com muçulmanos como deu ainda vários passos em frente (dependendo da perspectiva, claro): declarou que a homossexualidade não é normal, tal como não é normal o casamento de duas pessoas do mesmo sexo o qual, finalmente, não permite uma educação normal das crianças.

No meio de tanta normalidade e vontade reguladora, é caso para perguntar se de facto a educação que D. José Martins recebeu foi normal. Mas segundo a sua perspectiva se calhar até não foi, pois não consta que nos seminários hajam outros seres que não sejam uns tipos de batina e todos do mesmo sexo. Só isso, Sr. Cardeal, é que de facto me permite compreender a coerência das suas afirmações.

Monday, 9 February 2009

O Que é Que a Carmen Miranda Tem?

Não esperem que responda à questão no título, pois a efeméride dos 100 anos do nascimento da portuguesa mais famosa de sempre (cujo sabor do tropicalismo brasileiro a levou à meca dos famosos), serve para recordar o tema de uma canção de John Cale, última faixa do seu álbum “Words for the Dying” (1989), que para além de um tributo à pessoa de Carmen Miranda é também um tema fenomenal temperado com as electrónicas de Brian Eno.

Since the soul of Carmen Miranda had captured the mind of man Dismissed with her generation for the price of a can-can

Para ouvir:

The Soul of Carmen MirandaJohn Cale, “Words for the Dying” (1989)

Friday, 30 January 2009

Importa-se de Repetir?

Estando eu hoje, calmamente, a tomar o pequeno almoço ao som da TSF, ouço excertos da entrevista de Judite de Sousa à Procuradora Cândida Almeida, que após ser questionada se a Procuradoria tinha feito esforços para encontrar o primo de José Sócrates, afirmou que sim e que até sabia onde se encontrava. Pergunta seguinte (não é ipsis verbis, mas anda lá perto): “E pode dizer-nos onde se encontra?” ao que a Procuradora respondeu “Não, porque assim ele pode fugir!”

Das duas, uma: ou o primo de José Sócrates é surdo e hermita, tem aversão às novas tecnologias, é bicho-do-mato e não tem amigos e tem raiva de quem tem, ou então a esta hora, se tem razões para fugir, já deve estar a milhas de distância...

Srª Procuradora, se a questão era assim tão sensível, ou sou eu que sou estúpido, ou o problema não é não dizer onde está o primo de José Sócrates mas sim ter reconhecido que sabe onde ele está! Certo?

Monday, 19 January 2009

Maio Maduro Maio

Vai ser, de facto, um Maio bem maduro pronto a ser degustado com prazer tal a oferta de concertos de antecipada qualidade. Uma vez que me vejo frequentemente atrapalhado para conseguir ir a concertos, espero que do lote destes três acepipes consiga acertar em, pelo menos, um.


Polly Jean Harvey + John Parish, 2 de Maio, Casa da Música no Porto


Antony and the Johnsons, 14 de Maio, Coliseu de Lisboa


Wilco, 31 de Maio, Coliseu de Lisboa

Thursday, 15 January 2009

Ensaio Sobre a Cegueira


D. José Policarpo lançou uma atoarda para a praça pública cujas consequências eram de esperar. Não quero estar aqui com maniqueismos fáceis ao apontar os séculos de intolerância religiosa da igreja cotólica, para já não falar das atávicas afirmações do Vaticano sobre homossexualidade ou o uso do preservativo.

Há dois erros crassos nas afirmações do Cardeal Patriarca de Lisboa. O primeiro é que não é suposto dar conselhos sobre o que cada um, neste caso cada mulher, faz da sua vida privada caso entenda, ou não, casar com um muçulmano. O segundo é que, enquanto representante maior de uma comunidade religiosa, a católica, não pode simplesmente tecer afirmações sobre outras comunidades religiosas da forma ligeira que o fez. Mesmo que pela cabeça da maioria de nós passe a mesma vontade de desabafar para com o fundamentalismo muçulmano, a sua posição hierárquica não é coadunável a desabafos deste calibre até porque os efeitos colaterais são sempre elevados: ao querermos atingir os profetas da verdadeira intolerância, acabamos por abater um sem número de inocentes que se revê no islamismo mas que convive perfeita e pacificamente com o próximo e não partilha das mesmas ideologias suicidas. No fundo, é tal como a dimensão dos ataques dos israelitas contra o Hamas, por muita razão e até alguma legitimidade que tivessem por terem sido as primeiras vítimas dos rockets da intolerância.

Tuesday, 13 January 2009

Sob a Tutela de Darwin


O ano de 2009 está a ser rico em comemorações. Depois de anunciado como Ano Internacional da Astronomia, é também o Ano Darwin e isto porque se comemoram em 2009 os 200 anos do nascimento desse brilhante naturalista que foi Charles Darwin (1809) e também 150 anos da publicação dessa obra maior que foi On the Origin of Species (1859). Embora hoje a teoria evolucionista darwiniana seja algo contestada nos seus princípios básicos, que admitia uma evolução lenta e gradual das espécies, não deixa de ser um livro que revolucionou por completo o pensamento da sociedade moderna e o posicionamento do Homem da Natureza. Hoje uma personalidade da ciência apadrinhada por biólogos, Darwin foi acima de tudo um naturalista, como era comum designar alguém que se dedicava ao estudo da Natureza e fenómenos naturais. O seu apadrinhamento pelas Ciências da Vida tem a ver com a importância e impacto da obra On the Origin of Species, mas Darwin foi, à época, um geólogo e não um biólogo como seguramente a esmagadora maioria das pessoas julga. O seu primeiro mentor que o iniciou nos domínios da geologia foi Adam Sedgwick, professor em Cambridge, e mais tarde o eminente Charles Lyell que publicou a obra Principles of Geology (1830-1833), obra essa que teve um profundo impacto em Charles Darwin e que, no fundo, iria marcar indelevelmente a sua carreira. A Charles Darwin devem-se outras contribuições como a compreensão (correcta até hoje) do processo de formação dos atois e uma arrojada (à época) proposta de quantificação da idade da Terra, com base na sedimentação em bacias. Esta proposta figurou inclusivé na primeira edição de On the Origin of Species, mas a autoridade maior de Lord Kelvin, que usando as ferramentas da termodinâmica que ajudou a desenvolver, chegava a uns conclusivos 90 milhões de anos. Os 300 milhões de anos de Darwin eram significativos mas, para si e maioria dos geólogos, ainda curto para explicar o gradualismo da evolução geológica e animal registada nos fósseis. Mas que argumentos utilizar contra as leis da física bem estabelecidas? Teríamos de esperar por Marie Curie para chegarmos à fonte (desconhecida) de todas as discordâncias e que haveria de dar razão aos geólogos: a radioactividade! E em vez de 90 ou 300 milhões de anos, seriam 4500 milhões de anos. Mas essa história fica para outra oportunidade.