Thursday, 31 December 2009

Boas Entradas Para Todos em 2010...

… e em especial aos que esperam que o ano que está aí mesmo ao virar da esquina lhes traga resposta aos seus anseios.

Wednesday, 30 December 2009

Irreal Social

No rescaldo da recente ocupação da sede do BPP no Porto por parte de clientes que possuem as suas contas congeladas, sou confrontado com a seguinte afirmação de um dos ocupantes nos foruns noticiosos: desde o 25 de Abril, e mesmo antes disso, que não se recorda de qualquer carga policial contra pessoas de bem. Ora bem, a minha memória anterior ao 25 de Abril (de 74 para o caso de haver ainda dúvidas) é muito limitada, mas garanto que depois disso vi muitas cargas policiais (muitas mesmo) contra pessoas que admito serem igualmente de bem, desde trabalhadores, simples cidadãos, estudantes e até polícias. Antes da dita cuja data até parece que as havia com uma frequência inusitada contra a classe trabalhadora, mas se calhar era por não serem pessoas de bem.

Ora bem! É sempre um risco muito grande estarmos aqui a opinar sobre assuntos cujos meandros não conhecemos completamente, como é este caso do BPP. Contudo, há uma reflexão que me permito fazer, e essa é a dos efeitos causados por este capitalismo desenfreado e desregulado que atirou alguns gigantes financeiros ao tapete. Os governos, mesmo o americano, são reféns desta gente e em vez de deixarem o mercado actuar, como o fariam com qualquer empresa, dão em injectar ajudas financeiras e outros paliativos para suportar um sistema ansioso por voltar aos mesmos vícios. Eu sei que é chato perder as poupanças, mas direi que o nível de pessoas que colocava o dinheiro no BPP tinha por obrigação saber que há operações financeiras que são como os jogos do casino, ou seja, enquanto a coisa corre bem os dividendos são muito superiores ao que é normal e até moral, mas se corre mal o pé de meia pode mesmo ficar reduzido a um simples calcanhar. Isto se não nos pusermos a pensar de onde se obtém esses dividendos fabulosos, a esmagadora maioria dos quais em paraísos fiscais ao abrigo de qualquer fiscalização, e sem conhecer se a fonte primária é do tráfico de droga, de armas, mulheres, ou qualquer outro método para lavar dinheiro. A redenção para estes pecados é feita através de uma rede interminável de ligações que fazem perder qualquer contacto entre a fonte dos juros fabulosos e os depositantes, permitindo que todos possam ir para a cama descansados com a certeza de que terão um lugar no céu.

Thursday, 24 December 2009

Uma Prenda no Sapatinho

Com o aproximar do Natal, "paz e amor" e essas tretas todas, aqui o estabelecimento vem agradecer aos resistentes visitantes pela p(resist/aci)ência (riscar o que não interessa) em vir aqui espreitar o que cá vou deixando. Por isso, deixo-vos mais uma das musiquinhas que me fizeram as delícias do ano que agora finda. Na pessoa de Bill Callahan (aka Smog), eis "Eid Ma Clack Shaw" do seu último trabalho, Sometimes I Wish We Were an Eagle.



Bill Callahan - Eid Ma Clack Shaw

Boas Festas!

Monday, 7 December 2009

A Crítica e a Liberdade de Opinião

Isto tem andado muito parado e este texto marinava por aqui há mais de 6 meses, ou algo parecido. É pois com recurso ao fundo de catálogo que venho aqui estrebuchar um pouco o tasco.

João Lopes, co-autor do blogue Sound + Vision, tem sido autor de várias reflexões sobre a alegada falsa democraticidade na internet e da inconsequente liberdade de opinião que ela encerra, revelando-se antes um palco onde impera a degradação de valores (e em algum outro momento histórico se apregoou o contrário face às novas realidades sociais?). Creio que concordaremos que se trata de um tema controverso e seguramente pouco consensual. Mas numa das suas investidas (já há algum tempo, note-se, e rapidamente ficará claro há quanto tempo foi) provocou em mim este desejo de também achar que devo dizer algo sobre o assunto. Nem sei bem porque o faço, até porque o blogue não é lido por mais que meia dúzia de visitantes, a maioria ocasionais, mas é sempre uma forma de veicular uma opinião que pode incendiar outras e nesta perspectiva nunca temos verdadeiramente a certeza onde tal virá a acabar. A base de partida veio de um texto, por sinal pouco simpático, do crítico Luís Miguel Oliveira no suplemento Ípsilon sobre o filme “Slumdog Millionaire” de Danny Boyle, que não só gerou muita polémica com amores e ódios a degladiarem-se na praça pública como potenciou na altura alguns comentários que raiaram o mau gosto e insulto baixo. É certo que a última frase de Luís Miguel Oliveira pedia uma espécie de “amor com amor se paga”, mas a minha perspectiva de discussão é a de respeitar a inteligência do meu interlocutor, admitindo que efectivamente o é. E se, como o autor reclama, tem o direito de ser violento quando quiser então também me parece lógico (porque, claro está, somos apenas humanos) que se arrisca a receber a dose respectiva de respostas violentas. Serve ainda o assunto para recordar que, numa recente entrevista de Francisco José Viegas, se referiu o quanto a polémica se encontra arredada da moderna sociedade ao abrigo do pernicioso epíteto do politicamente correcto. Mas, para que serve este intróito? Foi com base nele que João Lopes, uma vez mais, se questionou sobre a pertinência e utilidade dessa instituição democrática que é a “caixa de comentários” aberta e sem restrições, onde todos podemos fazer de demónios ou simplesmente libertar as nossas raivas mais profundas e básicas por mais politicamente incorrectas e abjectas que elas sejam. Ao abrigo do anonimato de um nickname estas caixas de comentários têm a particularidade de nos revelarem uma franja social que afinal é bem menos comportada e padronizada do que idealizamos (e secretamente desejamos). Se pensarmos que falamos de uma franja social que tem acesso à internet, então concluímos que muito seguramente haverá poucos ou nenhuns representantes de aglomerações urbanas degradadas de onde não nos chocaria tanto virem manifestos de opinião de nível tão básico. Esses têm, pelo menos, a desculpa de serem social e culturalmente excluídos. Não! Certamente estaremos a falar de muitas pessoas sem razões de maior para reclamarem ou se sentirem excluidas pela sociedade (pelo menos não o serão da sociedade da informação). Como diria um antigo interlocutor na internet no passado em resultado de uma agressividade inusitada contra a sua pessoa, de (nick)nome Prometeu, “é apenas humano”. E é disso que se trata, afinal compreender e praticar a democracia e liberdade na internet é aceitar a condição humana que nos rege, cheia de contradições, imperfeições, injustiças e tudo o mais que ela encerra. A democracia, ao contrário do que efectivamente parece julgar a maioria, deve tornar-nos necessariamente mais responsáveis porque a liberdade de expressão permite precisamente a manifestação de correntes de opinião que são pouco ou mesmo nada democráticas para já não dizer insultuosas, mas para as resolver temos instrumentos jurídicos instituídos naquilo a que convencionámos chamar de Estado de Direito. Instituir um autoritarismo que proibe essa multiplicidade de correntes de opinião tout court é à partida uma negação da própria democracia e em nada contribui para debelar o problema, antes o potencia e deixa em todos nós a tal sensação de irresponsabilidade para combater as avalanches de vitupérios anti-democráticos que sobejamente assaltam a internet, pois o próprio sistema se encarrega de os encerrar a sete chaves quando se torna necessário. Alguém faz o trabalho por nós. Será como na educação de um filho, quando é mais fácil dar uma bofetada do que incutir o necessário sentido de responsabilidade pelos erros de conduta. E agora pergunto: não é assim que funcionam as ditaduras? Não é este aumento do sentido de irresponsabilidade individual e social (“quero lá saber disto tudo”, “cada um cuide de si”, “são todos uns vendidos”) que faz também aumentar os crescentes desejos de retorno a um passado quando tudo era mais autoritário e, por isso, mais directo e simples? E já agora, não é na alegada falta de “maturidade democrática” dos portugueses com que o poder central se justifica para tomar certas decisões sem consultar os principais interessados: o povo que governa? Numa coisa, contudo, estaremos de acordo: não deveremos abdicar de pensar. E se hoje há cada vez menos gente com vontade para o fazer, como recorrentemente afirma João Lopes, então é nossa obrigação mostrar o contrário agindo civica e responsavelmente, ou corremos o risco de repisar velhas fórmulas autoritárias, para não dizer fascistas.

Quanto à liberdade de expressão na caixa de comentários, creio que cabe a cada um, administrador do seu blogue, jornal ou outro meio qualquer, decidir sobre a forma como pretende gerir e aceitar esses comentários. Eu por mim volto a socorrer-me das sábias palavras que Prometeu escreveu em tempos no blogue da Radar acerca de um assunto em que fui igualmente envolvido de forma involuntaria e que subscrevo por completo:

Quanto à espécie de "hate mail" que por causa disso apareceu no meu blog, não me parece importante. É um efeito lateral da liberdade de expressão, a que nem chamaria perverso, mas apenas humano. É por isso que tenho por princípio não apagar comentário algum do meu blog, por boçal que possa ser. Em primeiro lugar porque lhe justifica o baptismo de mal frequentado, em segundo porque, e voltamos ao que deu origem a esta pequena confusão, as palavras servem acima de tudo para caracterizar quem as profere.

E é assim mesmo, pois sem outra qualquer referência ou imagem, nós aqui somos exactamente isso: as palavras que escrevemos.

Thursday, 12 November 2009

Sons Que Amam as Imagens e as Imagens Que Amam os Sons

Os Grizzly Bear, que este ano editaram o fabuloso disco Veckatimest, seguramente entre os eleitos de 2009, escolheram para terceiro single, salvo erro, este “Ready, Able”, uma canção não só inspirada como detentora de um poder hipnótico singular. Marcada por dois momentos distintos, tem no segundo a vertente mais arrojada conferindo-lhe não só o estatuto de candidata a canção do ano como ser digna de figurar entre as eleitas da década. Por isso mesmo, o excelente (não há outras palavras) vídeo oficial, realizado por Allison Schulnik, não podia ser melhor forma de honrar a beleza da música que ilustra, e esta, obviamente, a melhor forma de honrar a beleza das imagens que acompanha.



Grizzly Bear - "Ready, Able" (Veckatimest, 2009)

Thursday, 5 November 2009

No Tempo da X

Os ecos do desaparecimento do António Sérgio ainda reverberam pela internet inteira, e demonstram a imensa minoria de amigos e seguidores que o Mestre transportava consigo. As minhas memórias dos programas do António Sérgio são muitas e dispersas. Às tantas, já nem sei se a banda A ou o grupo B me foi revelado durante a audição de um seu programa ou se por um amigo que ouviu o seu programa. Isso não é muito importante. No entanto, do tempo em que esteve na XFM, houve uma música que passava com uma recorrência assinalável e que prendeu a minha atenção imediata. Tratava-se dos The Young Gods e a canção era "Lointaine", uma da duas cantadas em francês no álbum Only Heaven.


Para ouvir a canção completa, carregar em "Play full song here" ou no link acima.

Sunday, 1 November 2009

Bateu a Última Hora do Lobo


Não sei se o facto de ser véspera de finados é alguma última ironia de António Sérgio para connosco, em que António Sérgio surge novamente aos microfones da rádio e nos revela a partida que nos pregou. Quem me dera que fosse. Lembro-me também do dia da morte desse grande actor que foi Mário Viegas, a 1 de Abril, e alguém comentar que não tinha acontecido, que tinha sido apenas uma partida do Mário. No dia 1 de Abril, só podia ser. Com o António Sérgio não desaparece apenas o Homem, desparece o divulgador de música como já não se encontram nos dias de hoje, desparece o radialista cuja tradição de fazer rádio pelo que ela representa ou está fora de moda ou está fora das linhas editoriais das rádios, desaparece o efeito surpresa com que nos brindava ao passar música. Homem de gostos eclécticos que nos sabia mostrar a essência do rock, dos seus primórdios aos dias de hoje, foi uma companhia habitual desde o “Som da Frente” até ao “Grande Delta” na extinta XFM. Vim a reencontrá-lo na rádio Radar, que em boa hora o recuperou e salvou do gueto a que estava confinado na Comercial. Obrigado António Sérgio. Não há sequer palavras suficientes para expressar a minha gratidão e a de muita gente que contigo cresceu. Só por isso, nos devemos sentir privilegiados.

Friday, 23 October 2009

Manifesto Anti-Dogma

Por vezes a sociedade portuguesa é assaltada por certo tipo de desvarios que, se não fossem caricatos, seriam certamente tristes (para não dizer assustadoramente preocupantes se quisermos pensar adequadamente sobre algumas destas manifestações cada vez mais frequentes). A recente polémica que as declarações de José Saramago sobre a Bíblia causaram denotam uma sociedade que está ainda muito longe da sã convivência do debate de ideias. Os cristãos têm todo o direito em se sentirem incomodados, ofendidos ou lá o que quiserem com as declarações de Saramago, mas não podem nunca limitar a sua liberdade de opinião, nem a de mais ninguém. Por muito polémicas que as declarações sejam, estão a anos-luz de distância de se poderem configurar sequer como matéria jurídica. Tudo isto fica ainda mais surrealista quando o eurodeputado do PSD, Mário David, tendo vergonha de ser compatriota de Saramago, sugere que o mesmo renuncie à sua cidadania. Mais, numa elaboradíssima lógica de raciocínio, retira do leque das pessoas de bom carácter todas aquelas que não professam os seus valores religiosos. Finalmente, se os católicos lessem realmente a Bíblia (ou pensassem sobre o que leram) facilmente veriam que muitas afirmações que por lá andam convivem mal com a sociedade capitalista ocidental, com quem promove a injustiça social, o liberalismo do capital e a acumulação de riqueza. Mas para isso, julgo eu, talvez seja necessário ter um quociente de inteligência superior ao do senhor eurodeputado.

Morra o Dogma, morra. Pim!

Wednesday, 14 October 2009

Um Texto Inútil Sobre um Episódio... Triste

Muita tinta está a fazer correr por esse país fora um vídeo que mostra Maitê Proença a (tentar...) fazer humor/ironia(?) com Portugal. A coisa é tão só de uma pobreza confrangedora que nem piada consegue ter. Se eu me sentisse insultado (que não me sinto, pois aquilo nem esse sentimento me consegue provocar) só se fosse pela incapacidade real de fazer humor com o assunto. E o facto de as pessoas (neste caso os portugueses) se sentirem desconfortáveis com a situação, apenas revela igualmente falta de inteligência e algum provincianismo que ainda nos caracteriza. Só me consigo recordar do episódio com um amigo de Madrid que conheci há já vários anos em Münster na Alemanha, ter ficado admirado quando descobriu que o famoso Manuel da série Fawlty Towers, afinal era de Barcelona e não do México como a Televisão Espanhola sempre impingiu. Pobre do povo que não consegue rir de si próprio. Quanto ao episódio que parece estar a provocar tanta celeuma na população, ao ser encaminhado para o respectivo vídeo no Youtube, associado encontrava-se este, da mesma Maitê, que só me deixa o sentimento que a esta mulher eu consigo perdoar tudo, até os episódios mais tristes da sua vida.

Saturday, 10 October 2009

O Que Fazer Para Ganhar um Nobel da Paz

Em tempos, mais concretamente em 1968 ou por aí perto, Hans Krebs (o tal do ciclo) deu uma palestra na abertura do departamento de Bioquímica da Universidade Inglesa de Newcastle upon Tyne cujo título era esse mesmo: como se tornar um laureado com o Prémio Nobel? Daí nasceu uma das mais inspiradas peças de reflexão sobre a investigação científica e como o ambiente e a envolvência em equipa assim como a herança dos mestres são fundamentais para se vir a ter sucesso na matéria. Esse texto foi publicado na revista Nature e garanto que quem o lê pela primeira vez fica com a sua vida e forma de olhar a ciência profundamente modificada.

Pois bem, nesse sentido, pus-me a cogitar sobre o problema: o que fazer para ganhar um Nobel da Paz? Como parte do problema já estava tomado pelo Krebs, e não verei forma de alguma vez este texto vir a ser publicado na Nature, lembrei-me precisamente do Nobel da Paz. Acontece que para mim, o prémio encerra uma contradição na sua atribuição. Teria por garantido que tipos que são profundamente pacíficos e pacifistas, que não fazem mal a uma mosca, convivendo alegremente e em harmonia com toda a espécie de humanidade que por aí anda, seriam os candidatos na linha da frente. Mas depois uma pessoa reflecte mais profundamente e chega à conclusão que estes tipos, na realidade, não dão motivos nenhuns sequer para a existência de um prémio destes. Que sentido fará dar um prémio a alguém que luta pela Paz quando toda a gente vive em plena harmonia entre si? Nenhuma dessas pessoas, na realidade, luta pela paz. Elas vivem em paz. Para quê lutar por uma coisa que têm em demasia na sua vida? Não fazendo esforço absolutamente nenhum, têm precisamente o que querem. Não esperem que alguém lute para arranjar comida num banquete que a tem em quantidade suficiente para alimentar 10 vezes o número de convivas que por lá passeiam. Não faz sentido nenhum. Creio que o comité que atribui o Nobel da Paz deve ter chegado à mesma incongruência que qualquer cidadão com dois dedos de testa chegaria. Têm de ver a coisa de outra maneira. Então, se um tipo gosta de lutar pela paz, quer ganhar um Nobel na categoria, mas não tem nenhum motivo para lutar por ela porque já toda a gente vive em paz, o que vai fazer então? Uma hipótese é começar a lançar boatos na opinião pública, sobre as tendências sexuais desviantes do vizinho, ou sobre as burlas torpes do patrão, ou sobre as sacanices baixas do colega. Assim, pode começar a chegar a algum lado. O pessoal de repente já não anda todo com boa cara. Há assim uns tipos que já vão de trombas na rua para saber quem foi o cabrão que disse aquelas nojeiras sobre a sua pessoa lá no bairro. Mas ainda assim, não é suficiente. O que para aí não faltam são desaguisados do género que se desvanecem no meio de uns copos ou de umas palmaditas nas costas. Isto nem sequer é mediático. A coisa tem de ser em grande, para ter impacto. Então, e se um tipo achar que deve pôr na linha a horda de bárbaros que nem sequer fala a sua língua, professa a sua religião, tem recursos naturais que era melhor sermos nós a controlar e que nos deveria prestar vassalagem quando pretendemos impor as nossas visões aos outros? E se essa horda de bárbaros não aceita as nossas condições? Vai daí, lançamos uma espécie de boato exemplar que mete as hordas de bárbaros a lutar entre si, de forma sanguinária, destruindo a estrutura social, as famílias, a cultura e tudo o mais que possa ser devorado pela guerra. Assim sim, o nosso aspirante a premiado (que definitivamente não é, nem nunca pode ser, um bárbaro) já tem uma causa por que lutar: pôr aquela horda de bárbaros a entenderem-se entre si e a convecê-los que assim não vão a lado nenhum. Não só acaba por ter esperança de conseguir os seus intentos, como oferece, de forma desinteressada, ajuda económica a troco de pouca coisa, que no fundo não é mais do que pretendia desde o início. E no fim ainda ganha um prémio: o Nobel da Paz. Isto porque finalmente percebeu, tal como o comité que o promove, que sem haver quem promova a guerra, não faz sentido haver quem lute pela Paz. Como eu gostava de viver num Mundo sem laureados com o Nobel da Paz.

Hoje, dia 10 de Outubro de 2009, é o Dia Mundial contra a Pena de Morte, e os Estados Unidos foram o sexto país com mais execuções de condenados à pena capital no ano transacto, segundo relatórios internacionais. Diria que, para bom entendedor meia palavra basta.

Friday, 9 October 2009

Madeirocracia

Na Madeira respira-se a democracia com as fossas nasais bem abertas e pulmão cheio de tal forma que nós os continentais, habituados que estamos a viver asfixiados, até temos dificuldade em respirar quando lá chegamos. A Madeira é uma autêntica corrente de ar democrática, e a única coisa que não é nada democrática é a distribuição de bordoada. Aparentemente, esta é apenas servida a uns quantos eleitos.

Thursday, 8 October 2009

Still Vinyl... After All These Years

Pois o vinilo respira boa saúde e recomenda-se, para quem gosta de alimentar espíritos com a calentura delirante do seu som. Assim se realiza mais uma edição do Still Vinyl 2009 no Hotel Park Atlantic Lisboa (antigo Meridien), Rua Castilho, 149 em Lisboa, nos dias 31 Outubro e 1 de Novembro. O horário ao público é no Sábado das 14:30 h às 21:30 h e no Domingo das 14:30 h às 19:30 h. A entrada é gratuita, por isso não custa nada, nem que seja espreitar.

Saturday, 3 October 2009

Plágio ou Citação?

O mundo actual está de tal forma conectado e a informação corre com tal rapidez e facilidade que é natural cruzarem-se à nossa frente um manacial de referências cujas origens temos dificuldade em restabelecer. Na música, este facto encontra-se também cada vez mais presente. No entanto, o caso que aqui vou apresentar nem sequer se enraíza directamente neste problema, até porque as bandas se citam com frequência e essa citação constitui uma forma de homenagearem quem acham que lhes dá a inspiração para fazerem o que fazem: música. O que me levou a colocar aqui estas duas canções, “Rest My Chemistry” dos Interpol, por oposição a “Where Is My Mind” dos Pixies, foi o facto de há já quase um mês vir a ouvir a primeira no rádio do meu carro e, como nem sequer acho grande piada aos Interpol e só comecei a dar atenção a partir da linha principal da guitarra, imediatamente pensar que alguém se tinha lembrado de fazer uma cover da canção dos Pixies, abrandando-lhe o ritmo. Claro que segundos depois percebi que não se tratava de nada disso. Na realidade não quero com isto chegar a lado nenhum em particular, até porque não é óbvio se houve aqui a intenção, ou não, de plagiar a linha de guitarra da canção dos Pixies. Mas que elas são assustadoramente parecidas, lá isso são.

Aqui ficam para vossa apreciação:


Saturday, 19 September 2009

Deep Gore Jazz

Os Bohren & der Club of Gore são um agrupamento oriundo da Renânia do Norte-Vestefália germânica e caracterizam-se por comporem música instrumental algo inclassificável, o que é coadjuvado pela própria caracterização que o grupo faz de si próprio. Resultado da reunião de amigos com gostos comuns por estilos musicais onde se levam ao extremo as emoções e as vísceras do que quisermos imaginar, tais como o Doom e Death Metal, decidiram ir para além deste conceito introduzindo-lhe um downtempo também ele extremo e buscando ao jazz o resto dos ingredientes. Assim nasce um som que já qualificaram de doom ou dark jazz. O seu último registo físico tem a data deste ano mas corresponde a uma gravação com pouco mais de 10 minutos feita para a Latitude Series da Southern Records, à semelhança das famosas Peel Sessions da BBC. Ouvir Mitleid Lady é uma experiência que nos leva aos mais profundos e negros cantos recônditos dos nossos sentimentos com um poder que raramente tenho experimentado na música. Não sendo propriamente muito populares por aí, aqui fica um outro registo, “Midnight Black Earth” do seu álbum de 2002, “Black Earth”.



Midnight Black EarthBohren & der Club of Gore (2002)

Sunday, 6 September 2009

A Pequena Camada Atmosférica



A partir da Estação Espacial Internacional, mais uma foto do nosso Planeta Azul que, ao contrário do que apregoam, não é nada frágil. Frágil é a vida que nele habita! E a fina camada azul é a pequena redoma atmosférica que mantém parte substancial dessa vida realmente viva. Foto da NASA retirada do site do Público.

Friday, 4 September 2009

A Bocas Sai de Cena...

Muita tinta vai fazer correr esta, diria oportuna, suspensão do Jornal Nacional da TVI à sexta-feira. Há várias questões a considerar:

1. É, para todos os efeitos, um acto de cerceamento da liberdade de expressão, mesmo que para isso achemos abominável, condenável ou outras coisas terminadas é "ável" o que nesse espaço noticioso se fazia. Para o efeito há uma autoridade para a comunicação social e um sindicato dos jornalistas que deverá aferir se as regras deontológicas estão, ou não, a ser cumpridas.

2. Para o bem e para o mal, a TVI é uma empresa privada e a direcção faz o que bem entender dos seus programas. A privatização dos media não é um garante de independência, a não ser dos poderes políticos em quem esses interesses privados não se revêm.

3. Se por hipótese, o governo PS teve alguma mãozinha no assunto, não podiam ter escolhido pior altura em vésperas de eleições pelo que relativamente a esse aspecto, acho que basicamente continuamos na dúvida.

Agora o que eu realmente acho:

Foi um acto de verdadeiro serviço público terem tirado a Manuela Moura Guedes das ondas televisivas, porque o Jornal Nacional da TVI, mais que um espaço noticioso, era já um momento de série de terror e para o confirmar eis uma foto da protagonista principal:


Como cidadão, proponho que substituam a Manuela Moura Guedes por esta apresentadora, que creio ser da Televisão Espanhola e cujo nome não me recordo:


A TVI tem capitais espanhóis, não lhes deve ser difícil arranjarem uma cunha para a trazerem para cá. Se isso acontecer, elegerei o Jornal Nacional como programa sagrado e de culto pessoal. Tenho dito!

Thursday, 3 September 2009

O Fim do Apartheid no Rock


Não é nada usual registar aqui novidades musicais, mas esta veio-me parar às mãos (ou ouvidos) algo casualmente. Saídos das ruas de Joanesburgo e do Soweto na África do Sul, os BLK JKS (lido Black Jacks) é uma banda rock que vai lançar o seu primeiro longa duração, After Robots, pela Secretly Canadian no próximo dia 8 de Setembro. Como já tive oportunidade de referir, o caldo de culturas é sempre um excelente ingrediente para estas matérias e os BLK JKS não parecem dar grande margem para desilusões. Com o tema Molalatladi, disponível para download no site da editora, recordam-nos as recentes investidas de uns Yeasayer, com a vantagem dos temas e as construções musicais virem de dentro e não de uma vontade de meninos de Brooklyn em bricarem com ritmos africanos. Esta primeira impressão desvanece-se ao ir ao MySpace da banda onde primam por algumas estruturas mais experimentais e embuídas de um calor interior e efusividade típica das paragens de onde são oriundos. Antes, ainda viram algumas composições editadas no seu EP Mistery.

Monday, 31 August 2009

Rentré

Caríssimos visitantes,

Este pequeno comunicado é para avisar que a gerência está de volta ao estabelecimento, onde vai tentar dar o seu melhor na manuntanção deste espaço cada vez mais abandonado, mas não abandalhado. Terminaram as férias, cada vez mais reduzidas às opções sem opção num único mês, eleito como o mês idiota por excelência. Houve muita coisa que passou mas pouca merece ser recordada, como a perda do Raúl Solnado para a cultura portuguesa. Noutro extremo, já vomito a quantidade de vezes que os media ressuscitaram o Michael Jackson. Por favor, deixem o gajo em paz porque feliz, aqui na Terra, de certeza que já não era e a melhor forma de mostrarem que gostam dele é deixarem-no enterrado mesmo!

Por fim, mencionar que o mês de Agosto viu o nosso governo exportar um mercenário ao serviço da revolução Venezuelana... ei-lo:

Tuesday, 28 July 2009

Silly Season

Tempo de férias, tempo de descanso! Uma tradição que se repete a cada ano e que cada vez tenho mais vontade de contrariar... mas não me deixam! Apetecia-me descansar... talvez aqui:


Boas Férias aos incautos visitantes (que são cada vez mais escassos, mas seguramente dos bons...)

Monday, 20 July 2009

Walkin' On The Moon

"A small step for Man, a giant leap for Mankind" - Neil Armstrong, há 40 anos atrás, lá distante... que bem poderia ser ao som da música dos Police, por sinal, das melhores que os rapazes fizeram!


Foto: NASA

Thursday, 9 July 2009

Com as Contas às Avessas

Mais uma brilhante dedução vem dos lados do Ministério da Educação: os maus resultados da Matemática, não provêm dos alunos, nem tão pouco dos professores, muito menos do sistema de ensino e, heresia das heresias, nunca em tempo algum da corja de eduquêses que habitam os corredores de tão sinistro Ministério. O Ministério deu-se ao trabalho de elaborar um intricado modelo matemático que envolveu a resolução de equações diferenciais às derivadas parciais, seguido da função zeta de Riemann e mais uns quantos integrais de Lebesgue e polinómios de Chebyshev para chegar à conclusão que a culpa foi... da comunicação social! Dada a complexidade do modelo, é natural que tenham chegado à resposta errada, mas não consta que nenhum dos génios iluminados que por lá habitam tenha dado conta do erro. A matemática também não é o seu forte...

Friday, 3 July 2009

To Be or Not To Be


Terá sido esta a dúvida existencial shakespeareana da pianista Maria João Pires aquando da decisão em renunciar à nacionalidade portuguesa? Sentiu-se maltratada pelo governo e dá um pontapé na nacionalidade. Não duvido das dificuldades que a Maria João Pires terá sentido em montar e sustentar projectos em Portugal na área da música. No entanto, relembro o trabalho extraordinário que professores de música têm feito com crianças num coro sediado na Covilhã e objecto de reportagem televisiva onde a preserverança, a entrega e a boa vontade são fundamentais. É a partir destes gestos que se lançam sementes e nascem flores. Não pretendo julgar a oportunidade ou mesmo a sustentabilidade de projectos como o de Belgais. O que já não compreendo é que perante as dificuldades se propale aos quatro ventos que se está zangado e, como tal, se renuncie à sua nacionalidade, que é também uma forma de renunciar ao país e ao futuro daquilo em que se pensa que acredita. Na vida podemos ser combativos ou conformados. A Maria João Pires não foi nem uma coisa nem outra: foi simplesmente mesquinha.

Thursday, 2 July 2009

Muuuuuuuu!!!!


Manuel Pinho investe contra a oposição (PCP e BE) e dá uma monumental marrada na imagem do governo. Sai de cena com um par de bandarilhas do primeiro ministro...

PS (Não é ironia, é mesmo post scriptum): Pinho demonstra ainda que nem só os touros têm uma fixação pela cor vermelha!

Thursday, 4 June 2009

ProgNósticos: Van der Graaf Generator


Poderíamos perguntar, nos dia de hoje, se alguém se lembra de uma banda de rock que nas vezes da guitarra nos enfiava com um saxofone nos ouvidos. A resposta, muito provavelmente, vem sob a forma de Morphine, mas acontece que os Van der Graaf Generator já tinham inventado a fórmula nos finais dos anos 60.

Os Van der Graaf Generator, geraram-se por volta de 1967 comandados por Peter Hammill e desde cedo prometem a realização de algo distinto na cena rock da época. Não são bem psicadélicos, nem progressivos, nem jazz-rock, antes têm aversão a qualquer tipo de classificação. Diga-se que, em grande parte, são mesmo difíceis de catalogar. A estreia com The Aerosol Grey Machine em 1969, sob a etiqueta Mercury, não é propriamente auspiciosa e Tony Stratton-Smith, que entretanto funda a Charisma, tenta convece-los a assinar pela sua editora. Após ultrapassar os problemas legais, editam o segundo disco com o selo da Charisma (e primeiro da editora), The Least We Can Do Is Wave To Each Other, em inícios de 1970 apesar de Peter Hammill se manter contratualmente vinculado à Mercury onde, de resto, se manteve durante a sua carreira a solo. Aliás, na carreira dos Van der Graaf Generator prevalece uma ambiguidade entre as suas próprias criações e as de Peter Hammill, sendo o grupo uma quase espécie de heterónimo de Hammill muito embora várias composições sejam assinadas pelos seus membros. Hammill deseja manter a sua indivudualidade criativa o que em certa medida condiciona a vida do grupo que se reparte basicamente por dois períodos, de 1967 – 1972 e 1975 – 1978. Ainda houve uma reunião recente, mas dessa não daremos conta aqui. A sua formação mais clássica era constituida por Peter Hammill na voz, guitarras e teclados, Hugh Banton no órgão e baixo, Guy Evans na bateria e David Jackson no saxofone. É com esta formação que editam, em 1971, aquele que é para muitos a sua obra prima, Pawn Hearts. O estilo e a marca identificadora já ali se encontram e vai condicionar os registos que haveriam de prossegir mais tarde, já que após este disco entram no primeiro hiato temporal. O registo dos Van der Graaf Generator é dominado pela voz áspera de Hammill que, contudo, oscila entre a raiva contida e a suavidade calma de um registo agudo a acusar falsete. Estes registos vocais contrastam frequentemente na sua música dando-lhes, a par com os restantes instrumentos, uma dinâmica inconfundível. O órgão desenha a música com grosos traços negros, com uma espessura de som típica como só os verdadeiros órgãos Hammond a conseguem dar, e o saxofone entra a fazer as vezes que tradicionalmente competiam às guitarras. O saxofone tem ainda a capacidade de tornar a sonoridade do grupo, a espaços, notoriamente jazzística. O grupo tem em “A Plague of Lighthouse Keepers” a primeira peça de fôlego a ocupar todo um lado do vinilo, com mais de 20 minutos. Nesta composição os elementos do grupo foram contribuindo com pequenos temas musicais, tal como os andamentos de uma peça, construindo uma das obras de arte do género. Pawn Hearts é o disco que conta ainda com a guitarra de Robert Fripp, dos King Crimson. Apesar da originalidade, ou talvez por causa dela, os Van der Graaf Generator nunca foram muito populares, contudo Pawn Hearts conseguiu a proeza de ser número 1 no top em Itália durante várias semanas, iniciando assim uma relação de amor entre os italianos e o rock progressivo como não se encontraria em mais nenhum outro país europeu.



O hiato temporal iria deixar espaço para Hammill continuar com a sua cruzada musical e angústias poéticas (um dos mais originais poetas que o rock alguma vez conheceu), a qual se reflectia por diversos géneros, e até acaba com um disco que guarda uma história importante no contexto do maior terramoto musical da década de 70: trata-se de Nadir's Big Chance, de 1975. Musicalmente cru e directo, é a primeira referência punk no Reino Unido e uma obra especialmente acarinhada por John Lydon, que haveria de fundar os Sex Pistols pouco tempo mais tarde. Hammill e os seus Van der Graaf Generator constituem uma das adorações musicais do maior ícone do punk inglês. O ano de 1975 é também o da refundação dos Van der Graaf Generator, com o disco Godbluff, seguido ainda de Still Life (1976), o disco que me levou à entrada no universo da banda, em especial com “My Room (Wainting for Wonderland)”, onde Hammill se quedava por longos momentos de introspecção que deixava pairar com a languidez da sua voz no seu registo mais suave. A discografia dos Van der Graaf Generator era difícil de obter por cá e levou-me um tempo até um dia encontrar a saudosa discoteca Dansa do Som onde pude, pela primeira vez, comprar um disco da banda: World Record (também de 1976). A estrutura destes dois discos denotava uma banda quase em piloto automático, com 3 composições de um lado do vinilo e 2 composições do outro, sendo que uma delas se esbatia na suavidade da voz de Hammill como que a pedir um porto de abrigo e um descanso à intensidade das músicas anteriores. No caso de World Record, cabia a “Wondering” essa tarefa. Mas a dinâmica musical e vocal do grupo era constante, nunca dando tréguas ao ouvinte. Desengane-se quem ache que a entrada no universo Van der Graaf Generator é simples: não só dá trabalho como ainda é exigente.

O tiro final veio com The Quiet Zone/The Pleasure Dome, um disco com dois títulos (um para cada lado do vinilo) e o nome encurtado para Van der Graaf, possui as sonoridades mais domesticadas e até é relativamente hear-friendly. Para isso terá contribuido a saída de Hugh Banton, tendo entrado Nic Potter para o baixo e ainda Graham Smith, que introduz o violino na banda. Aliás, a inclusão do violino confere vários tons ritmados em pizzicato com um sentido melódico que faz deste o “mais pop” (perdoe-se-me a heresia da observação) dos discos dos Van der Graaf Generator. Daqui em diante, apenas temos Peter Hammill em caminhada solitária, sempre dando os seus registos particulares, muito próprios e avesso a modas ou tendências, sem medo de ser crú, suave ou pomposo, pois a música serve para isso mesmo: expressar o que nos vai na alma!


PS (que isto também é um blogue de ciência): O nome Van der Graaf Generator provém de um gerador, incorrectamente escrito com um f a menos (deveria ser Graaff), que produz altas voltagens electrostáticas estáveis, podendo atingir 5 megavolts de tensão. Estes geradores são utilizados, por exemplo, para acelerar protões em instrumentos como o PIXE, que é uma espécie de microscópio e significa Emissão de raios-X Induzida por Protões (Proton Induced X-ray Emission).

Tuesday, 2 June 2009

Wilco @ Coliseu de Lisboa


No passado Domingo dia 31 de Maio os Wilco visitaram-nos pela primeira vez, apresentando-se no Coliseu de Lisboa depois de virem do Theatro Circo em Braga. Sendo uma banda que fui aprendendo a conhecer e a gostar (e muito) nos últimos 3 anos, cativando-me com discos como Yankee Hotel Foxtrot e Sky Blue Sky de 2007, os Wilco representam um rock fresco com as melhores referências num registo mais ou menos folk, mais ou menos country, que mistura de uma forma bem estruturada e extremamente inteligente ingredientes modernos, onde a experimentação sónica ocupa um lugar concreto com a dose certa. Poderia lá eu perder um concerto de uma banda deste calibre? Claro que não! Mesmo que os preços, um tanto elevados conforme se queixaram alguns, fossem potencial fonte de repulsão. O que se viu no Domingo, foi um concerto que só não esteve perfeito porque a escassa audiência (Coliseu a menos de meia-casa) tornava aquela sala demasiado grande e deixava a banda algo desamparada. Mas os Wilco não só mostraram que são uma das mais importantes bandas da década, oferecendo um repertório que se baseou em mais de 50% nos discos acima mencionados e que constituem duas pérolas indispensáveis em qualquer discoteca, como são irrepreensivelmente profissionais e músicos de uma qualidade notável. As coisas começaram algo frias e não auguravam nada famoso quando ao segundo tema atacam “I am trying to break your heart”. Por mim achei uma delícia a forma como transpuseram este tema ao vivo, e a veia mais experimental/ambiental ainda continuou com “Radio Cure” para minha grande satisfação. Neste momentos quedei-me na dúvida se a maioria dos presentes conheciam verdadeiramente os Wilco pois faltavam reacções por parte do público. A custo, só lá para a metade do concerto ao som dos primeiros acordes de “Jesus, etc”, o público responde com uma ovação (contida) de nítida aprovação. No entanto não faltaram outras pérolas como “War on war”, “Ashes of American flags”, “Heavy metal drummer”, “Impossible Germany” ou “Sky Blue Sky”. O diálogo de guitarras tomava por vezes proporções que quase fazia pensar que estaríamos num concerto dos Sonic Youth, algo que não deixou de me surpreender, pois a gentileza dos temas em disco estava aqui transposta com uma dose de electricidade e decibéis avantajada, permitindo viagens que se iniciavam calmas e acabavam em autêntica esquizofrenia. A frieza inicial foi cedendo aos poucos durante o concerto, com algumas trocas de palavras entre Jeff Tweedy e o público, regadas com o sabor típico do humor americano para estas ocasiões. Até que os Wilco deixam o palco. Claro que a malta pede o encore e a banda cede. E aqui o público responde da melhor maneira, fugindo todo lá para a frente e em vez de um tema sairam 6, e deu-se todo um novo concerto, mais enérgico, vivo e comunicativo, incluindo o tema “You Never Know” do próximo álbum. O Coliseu, de repente, ficou contido no espaço da 1ª plateia e pena foi que todo o concerto não tenha sido assim. Refira-se por fim, o prazer de ver Nels Cline a tocar guitarra, mas justiça seja feita a todos os membros da banda que mostraram um entrosamento extraordinário. Como nota negativa, o som que estava demasiado alto, numa sala imprópria para o efeito. Mas aos cultores do nosso espírito perdoa-se-lhes tudo, mesmo estas pequenas derrapagens. Um excelente concerto a demonstrar que o rock não só ainda se encontra bem vivo, como se recomenda! 4,5/5

PS: Este é o post nº 200! Em jeito de comemoração, oferece-se um bilhete para a próxima actuação dos Wilco em Portugal...

Monday, 1 June 2009

Os Gigantes Também se Abatem



A General Motors vai abrir falência hoje. Aquele que foi o maior construtor automóvel do mundo, com sede na sociedade que mais depende do automóvel, sociedade essa referência do capitalismo e mentora da produção em série, através do famoso Ford Modelo T, protagoniza uma queda i(r/c)ónica. Não sei se o capitalismo está ou não falido, porque a tendência natural das sociedades é para o desequilíbrio social, mas uma coisa estará seguramente falida: o modelo de desenvolvimento prevalecente nas sociedades modernas para o qual a queda deste gigante não poderia ser melhor metáfora.

Friday, 29 May 2009

E os Prémios de 2008 Vão Para...

Pois é! Enfiar listas dos melhores de 2008 quando já vamos a meio do ano seguinte não parece lá muito consequente. Mas importa referir que aqui o estaminé se está nas tintas para o assunto, pois aquilo que pretende é dar-se a conhecer (e é pelas afinidades que depois chegamos às bandas e discos) e partilhar o que gosta. Por outro lado, já aqui se apregoou várias vezes o direito ao conceito de “slow-music”, e é disso que se trata porque a vida não é passada em exclusivo nestas coisas e ter uma opinião reflectida sobre os assuntos tem as suas vantagens, porque apareceu muita coisa cheia a fogo de artifício que já perdeu o brilho por completo. E o ano de 2008 será, pelo menos, de Bradford Cox que decidiu dar à estampa duas obras de fôlego, uma com a sua banda, os Deerhunter, e a outra em nome próprio mas com a designação de Atlas Sound. Dizer que há algo que arrebate é difícil, mas houve coisas boas.

Pois então aqui vai o veredicto:

1. Atlas SoundLet the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel. Um título comprido, algo difícil de recordar e dizer direito é um bocado arriscado, mas Bradford Cox dá-nos um disco musicalmente e texturalmente inspirado, introspectivo e melancólico, com sessões espíritas pelo meio. Saíu bem cedo em 2008 mas tem-se mantido fiel ao que promete. 4,5/5

2. SpiritualizedSongs in A & E. Jason Pierce andou pelo limbo à custa de um grave problema de saúde e em resposta manda cá para fora o seu melhor registo desde “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space”. Intenso e tipicamente elaborado, vários são os registos que perduram na memória que, tal como no anúncio (um tanto “cliché”, admito), “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. 4,5/5

3. Sérgio GodinhoNove e Meia no Maria Matos. Não é propriamente muito comum considerar discos que não são mais que revisão da matéria dada, mas cuidado que o Sérgio dá-nos muito mais do que isso. É toda uma reinterpretação das suas músicas que, tal como uma família ao fim de semana, decide arranjar-se, comprar roupa nova, e sair à rua a passear. E que bem que se passeiam estas canções, algumas delas com mais de 20 anos mas que continuam a fazer todo o sentido passados que estão 35 anos de democracia com alguns amargos de boca. Mas é por isso que o Sérgio faz falta: não só sempre foi pertinente nas suas letras, como no momento em que age. 4/5

4. Why? - Alopecia. Um hip-hop com laivos de indie pop/rock, ou vice-versa. Um disco refrescante a dar ideia que o caldo de culturas é, e será sempre, uma receita para se fazer boa música. Óbvio que há quem arranje os ingredientes e não consiga mais que um caldo insípido pronto a ser tomado por pessoas pálidas e doentes. Acontece que os Why? confeccionaram vários acepipes dignos de menção num bom guia Michelin da música. 4/5

5. DeerhunterMicrocastle/Weird Era Continuation. Bradford Cox strikes again, agora com a banda e na versão 2 em 1. Microcastle dá-nos uma música mais próxima dos cânones tradicionais, sem o ser verdadeiramente, aberta e a respirar uma atmosfera que era mais opressiva em Atlas Sound. No entanto, as coisas voltam a esse estado de espírito em Weird Era Continuation. E não queria deixar de referir as citações, mais ou menos óbvias, a uns The Jesus and Mary Chain. 4/5

6. Bon IverFor Emma, Forever Ago. Mais um que se refugia num nome que pede algo de quase utópico. Justin Vernon vem mais uma vez demonstrar que quando um tipo se encontra mais ou menos na merda ou em clausura melancólica forçada, consegue expelir cá para fora música e canções do melhor. Alternativamente, pode ser que seja uma fatia de nós, que a consumimos, é que somos arreigadamente melancólicos e não conseguimos ouvir outra coisa. 4/5

7. António Pinho VargasSolo. Mais um exemplo de revisão da matéria dada, mas em formato intimista, recatado e minimalista. A riqueza das peças de António Pinho Vargas não se perde nesta transposição para piano. Para ouvir em silêncio e em pleno estado de solidão. 4/5

8. Fleet FoxesFleet Foxes. Poderiam bem ganhar o prémio de banda revivalista do ano. Sonoridades folk dos sixties, com coros e ritmos atraentes que não só entram facilmente no ouvido como perduram mais que o simples hit momentâneo. Arriscado em certa medida, mas seguramente bem apostado. Contra terão o facto de a coisa começar a aborrecer se repetirem a fórmula. 4/5

9. FenneszBlack Sea. Devo esta (e também outras que por aqui se reconhecem) ao facto de ser frequentador assíduo do blogue April Skies. Desde um começo que se enraiza nas fontes electroacústicas de um Xenakis, até uma ambiência que bebe do caldo de Brian Eno (e Robert Fripp, já agora), este austríaco fez um disco que consegue dar mais do que isso, evitando assim ser um mero copista e conseguindo uma obra que sobrevive por si mesma. 4/5

10. Fuck ButtonsStreet Horrrsing. Noise em estado puro mas algo filtrado, condimentado com algum sentido melódico. Não é coisa que se ouça frequentemente, mas tem uma solidez de espírito que transpota a música para além de uma simples “boa ideia”. 3,5/5

E pronto... como vêem, o ano de 2008 já antecipava crise para a compra de discos que foi mais modesta. Note-se que mais de metade até foi adquirida este ano, aproveitando já os preços de saldo. De fora ficaram os The Walkmen e os Dead Combo, apenas por motivos financeiros.

Monday, 4 May 2009

A Granja do Vasco...


… era a banda desenhada e o cinema de animação. Faleceu, hoje de madrugada, Vasco Granja. Para sempre indissociado do fenómeno da banda desenhada em Portugal, creio que há uma certa geração de portugueses, onde me incluo, que via a sua presença tutelar na televisão onde divulgava as mais variadas cinematografias de animação, em especial as da Europa de Leste. Com ele descobri um certo vanguardismo na animação, e uma adoração especial pela obra de Norman McLaren. Vasco Granja foi também, desde o seu início em 1968, director da revista Tintim publicada pela Bertrand e que sobreviveu até aos anos 80 (não me lembro exactamente até quando). A cultura e a divulgação da banda desenhada deve imenso a este homem que nos deixou com um sentido de dever cumprido (digo eu!).

ProgNósticos: Pink Floyd


Os Pink Floyd congregam em si, simultaneamente, a respeitabilidade e a aversão pura das gentes dos meios musicais. Em seu favor têm o mais que respeitável passado psicadélico sob os comandos de Syd Barrett que durou menos que um fósforo. O disco de estreia, The Piper at the Gates of Dawn, editado no ano charneira do maior terramoto musical que a música popular haveria de conhecer, em 1967, é uma das peças mais inspiradoras da música que perdurou por muitos anos tal o impacto que causou em tanta gente, e em especial num senhor de nome David Bowie. A locura de Barrett impediu a progressão natural da vida da banda, sendo mais um exemplo de alguém que convivia mal com a exposição e o sucesso (quantas vezes mais iríamos ouvir esta mesma história...), mas os factos da vida demonstram que ela é assim mesmo, e não há volta a dar-lhe. Cedo os restantes elementos recorreram a um amigo de Barrett, David Gilmour, para ir tapando os buracos nas falhas do seu líder. E a história poderia bem ter terminado por aí, e para muitos os Pink Floyd morreram pouco depois da sua nascença. A Saucerful of Secrets, de 1968, é já um disco com os quatro “membros de sempre” da banda, Roger Waters, Rick Wright, Nick Mason e David Gilmour, agarrado aos sons psicadélicos do seu mentor e ainda com um tema da sua autoria, “Jugband Blues”. É das poucas bandas, a par dos Rolling Stones, que manteve uma estabilidade notável na sua formação, o que indicia um sentido de coesão forte, e que se manifestaria também pelo mais bem sucedido casamento que existe entre uma banda e o estúdio de arte responsável pelas capas dos seus discos. A união entre os Pink Floyd e o estúdio Hipgnosis de Storm Thorgerson é tão forte que ambos se citam mutuamente na nossa cabeça. Os anos haveriam de passar para um grupo que procurava claramente uma nova identidade e caminho orientador, perdido que estava para sempre o guia espiritual, Syd Barrett. Ummagumma, de 1969, é por isso uma busca nessa demanda mas ainda agarrada às raízes fundadoras do grupo, havendo espaço para cada membro expor as suas ideias em composições que se estendiam por vários minutos e secções, algo que a pouco e pouco se foi perdendo em anos posteriores à medida que Waters se afirmava e impunha. Pelo meio, ainda houve tempo para trabalhar em bandas sonoras (More, em 1969) repescando as sonoridades psicadélicas e viagens alucinogénicas que a sua música sugeria. Atom Heart Mother, de 1970, é um tour de force falhado e um bom exemplo de como uma excelente banda com boas ideias se pode transformar numa catástrofe em potência. Felizmente, a correcção veio pouco depois no álbum que, em definitivo, relançou a carreira dos Floyd para a sua segunda encarnação: Meddle, em 1971. Um álbum dividido em dois (como o vinilo fisicamente permitia) tem o primeiro lado tomado por composições curtas e directas com alguns travos bluesy, mas que continha aquele assombro que é “One of These Days”. O segundo lado, com uma só composição de mais de 20 minutos e que ficará como uma das mais inspiradas que a banda produziu em toda a sua carreira, “Echoes”, é um misto de psicadelismo dos primeiros tempos com o germinar de ideias que viriam a dar frutos nos álbuns subsequentes. A partir daqui nota-se que os Pink Floyd começam a aprimorar os efeitos de produção e a incorporar elementos vários nas composições, nomeadamente sonoridades e ruídos do dia a dia, em construções afins da música concreta e que contribuiam para a estruturação das ideias dos álbuns muito para além da simples música, construindo autênticas peças de arte sonora. A gravação do álbum seguinte (se excluirmos a contribuição para mais uma banda sonora, que foi Obscured by Clouds), levou seis meses a concretizar e veria a luz do dia no ano da graça de 1973. O seu nome, The Dark Side of the Moon. Aqui os Pink Floyd construiram um autêntico diamante musical: belo, resistente, mutifacetado e duradouro. É sem dúvida alguma um álbum ícónico e marcante dos anos 70 e um dos discos mais importantes alguma vez feito na história do rock. Ao fim de um longo percurso, os quatro Floyds conseguiram repetir a proeza que o seu antigo mentor e companheiro, Syd Barrett, havia conseguido com o primeiro disco e não creio que hajam outras bandas (se é que há alguma) pós-Beatles que tenha conseguido tamanho feito. Ainda que nesta altura os Pink Floyd sejam claramente associados ao progressivo, essa classificação pode ser algo discutível (senão mesmo redutora), como aliás é toda e qualquer tentativa de engavetar música em géneros musicais. A aproximação directa que o grupo mantinha à música com linhas melódicas características onde pontificava a guitarra de Gilmour, para sempre a sonoridade de marca do grupo, concediam-lhe uma aura de respeitabilidade que os seus congéneres de estilo não possuiam.



É inevitável que todo e qualquer processo em que alguém se vê envolvido na criação (consciente) de uma obra-prima, acabe por dar uma ressaca de onde são raros os que conseguem sair e sobreviver. Mas os Pink Floyd já tinham demonstrado uma capacidade de, com tempo, sobreviverem ao seu primero líder e mesmo de se reinventarem com um sucesso sem precedentes. O espaço de 2 anos que mediou a saída do disco seguinte, Wish You Were Here, que não é mais que uma homenagem ao eterno líder perdido à nascença e que haveria de protagonizar uma fugaz aparição em estúdio durante as gravações do disco, permitiu à banda manter um elevado nível na sua prestação enquanto entidade criativa. Peca talvez pela sua maior homogeneidade sonora, o que a meu ver o deixa a perder relativamente ao registo anterior. Cheio dos sintetizadores de Wright e das guitarras de Gilmour que dominam os longos temas “Shine on You Crazy Diamond” Parte 1 e 2, culmina a fase inspiradora da banda e desencadeia o início da liderança egocêntrica de Waters (que poderíamos associar ao prelúdio da 3ª vida da banda, a decadência). Animals, de 1977, é um álbum menor de um grupo que se vê agastado para manter um nível que claramente já não consegue acompanhar. O passo seguinte demora mais 2 anos a ser dado e vem sob a forma da peça mais megalómana alguma vez feita por uma banda de rock, The Wall em 1979. É caso para dizer que se o punk até nem teria assim tantas razões para odiar os Pink Floyd, nesta altura os próprios deram razões mais que suficientes para que o ódio os transformasse em objectos a abater a todo o custo. Contudo será injusto não mencionar que há momentos no disco que são francamente extraordinários e belos, e que se tivesse havido a clarividência de não embarcar numa megalomania egocêntrica, reduzindo a prestação musical a metade, os Pink Floyd poderiam ter-se acercado dos níveis que haviam mantido no período áureo de 73/75. Ironicamente, a queda do muro que se concretiza no álbum acaba por ser uma metáfora à própria queda da banda daqui para a frente. Tal como um gigante que, de repente, se vê com uma dimensão maior do que alguma vez poderá suportar, os álbuns seguintes são uma sequência de tiradas desinspiradas e uma inglória batalha para manter uma dignidade perdida, alimentada ainda por quezílias internas entre Waters e os restantes membros sobre os direitos da banda. Contrariamente a muitos outros, nunca chegaram a cair em tentação, mas também ninguém os livrou do mal.

Saturday, 25 April 2009

25 de Abril, Sempre...

Há 35 anos, como agora, continua a fazer sentido e é cada vez mais importante ser recordado.


Cartaz de Vespeira

Thursday, 23 April 2009

Dia Mundial do Livro



Que melhor forma de comemorar o dia senão dando a sugestão de leitura de um monumento? Pois é disso mesmo que se trata, "A Condição Humana" de Somerset Maugham é um monumento artístico maior da literatura universal. É também um enorme repositório de ideias onde, curiosamente, vemos escritores de segunda ir buscar "inspiração" disfarçada de quase plágio. Uma vida não merece ser passada sem ter tido a oportunidade de contemplar tamanha beleza. Pena é que não haja nenhuma edição recente em língua portuguesa, restando apenas a dos Livros do Brasil.

Wednesday, 22 April 2009

Friday, 17 April 2009

Um Eastwood em Grande Forma


Gran Torino de Clint Eastwood é o filme em alta que corre por aí, com rasgados elogios em toda a imprensa e demais meios que falem destes assuntos. Habituei-me sempre a ver Eastwood como o anti-heroi Dirty Harry ou o cowboy solitário e sem nome de O Bom, o Mau e o Vilão de Sergio Leone. No tempo em que ainda andava pelo cinema com muito mais frequência que agora, nunca dei grande conta do Eastwood realizador. Essa percepção mudou com Bird, sobre a vida de Charlie Parker, e manteve-se firme até hoje. Filmes como As Pontes de Madison County e Mystic River são apenas dois exemplos que perduraram na memória depois disso.

Gran Torino é um filme de uma espessura e densidade incomum, daqueles que nos enchem as medidas e os sentimentos (para o bem e para o mal) e nos remoem a cabeça ao retardador. Não sendo um exemplo primoroso de interpretação (não contando com o próprio Eastwood), a sua força está no homem que capta das suas personagens aquilo que quer e Eastwood soube-o fazer com mestria, produzindo um objecto cinematográfico sólido e consistente. Gran Torino revela-nos, acima de tudo, uma grande parábola sobre uma certa América, uma América feita de emigrantes (o protagonista, Kowalski, é de origem polaca) maioritariamente de matriz europeia, que lutou em guerras e que se vê a braços com um mundo em transfiguração. Esta é a América tradicional, profundamente dura, patriota, racista e religiosa (à sua maneira). Esta América está a desaparecer e a transformar-se numa burguesia sem ideais e convicções nem amor pelo próprio país, incapaz sequer de compreender a linha geracional que a procede. Ao mesmo tempo nasce uma outra América, marginal, excluída, culturalmente deslocada e necessariamente sobrevivente e muito agarrada às suas próprias tradições. No fim, não será por acaso que o grande legado da América tradicional, o famoso Ford Gran Torino, vá parar às mãos do jovem Hmong, simbolizando o passar de um testemunho. Será pois o desejo de renascimento de uma nova América que, tal como a anterior, continuará a ser feita de emigrantes, embora de matriz cultural completamente diferente.

Thursday, 16 April 2009

Uma Jornada com as Contas Trocadas

No dia de ontem, o Presidente da República decidiu iniciar mais um Roteiro para a Ciência. Estes eventos provocam sempre em mim a necessidade de dizer algo, mas que a seu tempo (talvez uns dias) virão a lume neste espaço. Por agora, apenas quero salientar a necessidade que manifestou em diminiur a iliteracia matemática dos jovens. Creio que nesta matéria esteremos todos de acordo sobre quão urgente e necessária é, mas para isso era preciso esfolar o animal do Ministério da Educação que, há uns anos, obrigou ao uso da calculadora nas aulas de Matemática do ensino Básico e Secundário.

Dito isto, em vez de andarmos com discursos meio pacóvios com declarações de estado sobre coisas importantes, mas vazias de soluções e propostas, revogue-se imediatamente a famigerada medida cujo alcance é equivalente a uma ordem de execução intelectual sumária dos estudantes por um qualquer comité central de Khmers Vermelhos da Educação.

Thursday, 9 April 2009

ProgNósticos: Genesis - II

Parte 2

Para ler a primeira parte.

A pedrada no charco veio em 1974 com o álbum The Lamb Lies Down on Broadway. Este disco nasce de uma ideia de Peter Gabriel a partir de uma viagem pessoal interior (assumida), surrealista (what else, vindo de quem vinha) e marcada pela iconografia norte americana resultante de impressões que Gabriel tinha retirado de uma digressão dos Genesis pelos Estados Unidos. O álbum tem um parto, no mínimo, difícil e tem ainda uma extensão natural nas performances ao vivo que se seguiram (algo de ambicioso e nunca visto à época por uma banda rock) e que haveriam de colocar os Genesis na rota do Pavilhão Dramático de Cascais em 1975. A personalidade de Gabriel começava a crescer e com ela cresciam também as vontades de experimentar mais do que a simples música. Esta atitude não era de todo partilhada pelos restantes elementos da banda, o que associado a problemas familiares criou uma tensão e fractura no grupo que se revelaria definitiva. Curiosamente, apesar da música ter estado fundamentalmente a cargo de Banks, Rutherford, Collins e Hackett, com Gabriel nas letras, o conjunto espelhou bem o espírito que os rodeava e o grupo colocou cá fora o seu álbum mais incaracterístico, mesmo para o género, profundamente negro, a trechos possuidor de um brilhantismo extraordinário, experimental (ainda teve uma colaboração pontual de Brian Eno), ecléctico (explorava uma certa variação de géneros) e apesar de se poder reconhecer algum desequilíbrio, com tempo e analisando profundamente, possui uma força incomum mercê de ser tão humanamente imperfeito e mesmo ambicioso. Pese embora a característica conceptual e operática (se assim a quisermos entender), o disco antecipava algumas pistas para o futuro com músicas mais curtas (a maior parte não possui mais que 4 ou 5 minutos, muitas quedando-se entre o pouco mais de 2 a 3 minutos) e desejos de uma rotura com o passado a qual é bem patente até na capa do disco, uma obra dos famosos estúdios Hipgnosis de Storm Thorgerson. Mas não seria exactamente isso que iria acontecer.


Com a saída de Peter Gabriel, os Genesis podiam voltar a ser o que sempre foram, e foi o que aconteceu. Trick of the Tail (1975) representa a continuidade de uma linha interrompida pelo disco anterior. A saída de Hackett em 1976, uma personagem que na realidade nunca parece ter-se integrado verdadeiramente apesar de a sua guitarra ser uma das marcas da banda, apenas acelerou a transformação dos Genesis num grupo pop, grangeando uma popularidade e sucesso como nunca conheceram em qualquer outro momento da sua carreira. Quanto à herança de The Lamb... ela haveria de ser retomada em pleno por Peter Gabriel em 1980, quando concebeu um disco não só magistral como um dos mais importantes da década que continha, entre outros, os clássicos "Games Without Frontiers" e "Biko". Por mera coincidência (ou talvez não) a tourné visitou o mesmo Dramático de Cascais nesse ano, 5 anos após a despedida dos Genesis. Desde então para cá, nem um nem os outros foram vistos por estas paragens. Dos primeiros não há grandes saudades, mas do segundo sentimos falta.